Doar sangue, fazer o cadastramento para doação de medula Óssea e destinar os órgãos ao próximo, após nossa morte, são gestos de caridade. Confira mais informações em nosso Site Doar de Si nos links abaixo.
 

 

  

Advento do Mundo de Regeneração

Entrevista concedida por Richard Simonetti.

1 – Como poderíamos definir a diferença entre Mundo de Provas e Expiações, estágio atual da Terra, e Mundo de Regeneração, o próximo estágio?
Mal comparando, diríamos que nos Mundos de Provas e Expiações o egoísmo predominante, resquício da animalidade primitiva, é o elemento gerador de todos os males. No Mundo de Regeneração, consciências despertas para esse problema estarão empenhadas em superá-lo.

2 – Então no Mundo de Regeneração ainda prevalece o mal?
Prevalece a consciência de que é preciso vencê-lo com o empenho do Bem. Equivale a dizer que o mal nesses planetas não tem receptividade nos corações e tende a desaparecer.

3 – Fala-se que a promoção de nosso planeta para Mundo de Regeneração ocorrerá neste milênio, provavelmente nos próximos séculos. Não estamos diante de um otimismo ingênuo, considerando os graves problemas humanos, envolvendo crimes, guerras, vícios, violência urbana, terrorismo, a evidenciar que a maldade ainda impera?
Há muita gente envolvida com o mal, por ignorância. Estes serão renovados no desdobramento de suas experiências, particularmente com a mestra dor, em reencarnações regeneradoras. O problema está naqueles que constituem uma minoria barulhenta, com o mal entranhado em seus corações. Esses serão expurgados, quando chegar a hora.

4 – Tipo Bin Laden?
Sim, todos aqueles que se comprazem com a violência, o vício, o crime, sem a mínima sensibilidade em relação aos males que causam, aos sofrimentos que impõem aos seus irmãos.

5 – Para onde irão os Espíritos degredados?
Provavelmente para Mundos Primitivos, em posição inferior à Terra, conforme a escala apresentada por Kardec, em O Evangelho segundo o Espiritismo.

6 – Isso não contraria o princípio doutrinário de que o Espírito pode estacionar, mas jamais retrograda?
Um homem civilizado condenado a viver entre aborígines não sofre nenhuma perda em relação à sua inteligência, cultura e conhecimentos, que, inclusive lhe serão úteis na nova situação, embora as limitações a que estará sujeito. O mesmo acontece com o Espírito degredado em planeta inferior.

7 – Não irá um Espírito intelectualmente evoluído, mas moralmente atrasado, causar embaraços aos habitantes desse mundo?
Não tanto quanto os benefícios que essa convivência ensejará. Os degredados estarão mais ou menos no mesmo estágio moral, mas superiores no estágio intelectual, favorecendo o progresso de seus hospedeiros, em cujo seio reencarnarão.

8 – E ficarão para sempre por lá?
Segundo Emmanuel, somos todos tutelados do Cristo, o governador espiritual de nosso planeta, compondo uma imensa família, de perto de vinte e cinco bilhões de Espíritos. Natural, portanto, que após superarem sua rebeldia e resgatarem seus débitos, ajustando-se às leis divinas, retornem os degredados ao convívio humano, o que poderá demandar milênios, mas forçosamente acontecerá. Como ensina Jesus, das ovelhas confiadas por Deus aos seus cuidados, nenhuma se perderá.

(atualizado em 11-05-2010)

    


 

  

Que vos ameis uns aos outros

Que vos ameis uns aos outros;
como Eu vos amei a vós
João, 13:34.

Na comemoração da páscoa, despedindo-se de seus discípulos, Jesus deixa o ensinamento que marca o novo tempo por Ele inaugurado: “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. João, 13:31 a 35.

Esta regra, já presente em Moises, é “nova” pela perfeição a que Jesus lhe dá e porque constitui o marco de um novo tempo, inaugurado e revelado pela vinda do Mestre.

E tomando um cálice, rendeu graças e deu-lho; e todos beberam dele. E disse-lhes: Isto é o meu sangue, o sangue do pacto, que por muitos é derramado. Marcos, 14:23 e 24.

Jesus fala do pacto, aliança. É um termo que os Apóstolos não têm dificuldade em compreender, porque pertencem ao povo com quem Javé, estabelecera o antigo pacto durante o êxodo do Egito (Êxodo, capítulos 19 a 24). Estão, ainda, perfeitamente presentes na sua memória, o Monte Sinai e Moisés, que dessa montanha descera trazendo a Lei divina gravada em duas tábuas de pedra.

Eles não esqueceram que Moisés, tomando o "livro da aliança", o leu em voz alta e o povo concordou declarando: "Faremos tudo o que Javé mandou e obedeceremos" (Êxodo, 24:7). Assim, estabeleceu-se um pacto entre Deus e o seu povo, selado no sangue de animais imolados em sacrifício. Por isso, Moisés aspergiu o povo, dizendo: "Este é o sangue da aliança que Javé faz convosco, através de todas estas cláusulas". Êxodo, 24:8.

Portanto, os Apóstolos compreenderam a referência à antiga aliança. Mas o que entenderam desse novo pacto? Certamente muito pouco. Por isso deixa-lhes prometido a vindo do Paráclito – consolador em grego – não só para recordar tudo o que já havia sido dito, mas, também, para ensinar-nos todas as coisas. João, 14:26.

O foco central de seu legado é o amor.

Amor, segundo o dicionário Aurélio, é um sentimento que predispõe alguém a desejar o bem de outrem. Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro, ou a uma causa.

Não podemos esquecer que o Novo Testamento foi escrito em grego, e para a linguagem grega, amor tem três significados:

1. Eros - é o amor como atração física, pessoal, que leva as pessoas a se apaixonarem um pelo outro. Não significa necessariamente atração sexual. Para Platão, eros era também uma forma de contemplação de todas as belezas, do corpo, da alma, da natureza. Tudo isso pode ser uma forma específica de amor.

2. Philos - Esta palavra quer dizer amizade que pode ser entre duas pessoas, entre pais e filhos, entre amigos, mas não é algo superficial e sim verdadeiro e profundo que inclui virtude e lealdade.

3. Agape - Esta palavra significa amor-entrega, amor-doação, amor incondicional. É o amor como gesto de desprendimento pessoal, de oferta da própria vida, um gesto que não procura retribuição ou qualquer recompensa.

Qual é o sentido profundo da palavra amor, para cada um de nós? Claro que deve sempre ser um amor de doação, porque o ardente amor cobre uma multidão de pecados. (I Pedro, 4:8). Entretanto, hoje, é uma palavra tão banalizada, tão usada para designar relações egoístas e hedonistas.

Antes de qualquer outra coisa, o amor é o sentimento restaurador da nossa relação filial para com o Pai firmando em nossas vidas a importância de sermos filhos amados por Deus.

O amor é a expressão mais completa da caridade. Paulo assim o define em carta aos cristãos de Corinto. (I Coríntios, 13:1 a 7).

A recomendação, de nos amarmos uns aos outros, é uma constante no ministério de Jesus. Está também em João, 15:12, Mateus, 22:34 a 40 e, como a Bíblia não se contradiz, em I João, 4:7 a 10.

“Que vos ameis uns aos outros; como Eu vos amei a vós”, disse Jesus. Como Ele nos amou? Como entender esse amor em sua plenitude? Seguindo as pegadas do Mestre.

O amor resume os deveres mútuos. Como exigir do nosso próximo melhor proceder que o nosso? Mateus, 7:12. Não estamos isentos de falhas.

Um amor que aceita o outro; respeitando os limites e as falhas alheias; indefinidamente. Mateus, 18:21 e 22.

Um amor que, segundo o reto juízo, não julga as pessoas pela aparência, mas os seus atos. João, 7:24.

Jesus nos pede para evitarmos o julgamento:

• Tendencioso: baseado em preconceitos e preferências;

• Precipitado: sem as informações completas;

• Severo: análise sem misericórdia e amor; e

• Insensível: devemos procurar ver sempre o melhor em qualquer situação.

Houve época em que os gregos faziam os seus julgamentos no escuro. Faziam-se as acusações, as defesas e os julgadores proferiam a sentença sem saber de quem se tratava. Dessa forma, pensavam o julgamento ser mais justo.

Um amor que não espera nada em troca; é mais benevolente e devotado. Lucas, 23:34.

Ao rogar: “Pai, perdoa-lhes;” colocando-se na qualidade de nosso irmão, intercede, junto a Deus, por seus algozes, afirmando-nos, de forma inquestionável, que somente ao Pai compete o nosso julgamento.

Um amor que se aproxima de quem é diferente sem os preconceitos de toda sorte. Marcos, 2:17.

Um amor que vê o próximo sempre como irmão, portanto, tende à destruição do egoísmo.

Moisés em Levítico, 19:18, adverte sobre a necessidade da unificação do povo Hebreu.

Levítico é um dos livros do Pentateuco de Moisés e é especialmente dirigido à Tribo de Levi, responsável pelo transporte do Tabernáculo, posteriormente pelo Templo, pelo zelo dos ricos Santuários e pelo preparo dos materiais necessários aos cultos.

Basicamente um livro teocrático, isto é, seu caráter é legislativo; possui, ainda, em seu texto, o ritual dos sacrifícios, as normas que diferenciam o puro do impuro, a lei da santidade e o calendário litúrgico entre outras normas e legislações que regulariam a religião.

Note-se, portanto, que é um livro dirigido aos Hebreus. Dessa forma quando, no versículo acima, Moisés diz que “não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo". é o mesmo que dizer: “Hebreu não vingará e nem guardará ira conta Hebreu, mas amarás o Hebreu como a ti mesmo”. Naquela época, este conselho fazia sentido, uma vez que era necessário para manter a união do povo Hebreu.

Jesus resume bem este sentimento ao dizer: "Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo". Mas o mestre dando novo sentido à lei e aos profetas (Mateus, 5:17) recomenda: "Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem". Mateus, 5:43 e 44.

Com relação a amar aos inimigos. Allan Kardec no capítulo XII, item 3 de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, nos esclarece:

“Se o amor ao próximo constitui o princípio da caridade, amar os inimigos é a mais sublime aplicação desse princípio, porquanto a posse de tal virtude representa uma das maiores vitórias alcançadas contra o egoísmo e o orgulho.


Entretanto, há geralmente equívoco no tocante ao sentido da palavra amar, neste passo. Não pretendeu Jesus, assim falando, que cada um de nós tenha para com o seu inimigo a ternura que dispensa a um irmão ou amigo.


Amar os inimigos não pode, pois, significar senão que nenhuma diferença se deve estabelecer entre eles e os amigos. Se este preceito parece de difícil prática, impossível mesmo, é apenas por entender falsamente que ele manda se dê no coração, assim ao amigo, como ao inimigo, o mesmo lugar.


Amar os inimigos é não lhes guardar ódio, sem rancor, nem desejos de vingança; é perdoar-lhes, sem pensamento oculto, e sem condições, o mal que nos causam; é não opor nenhum obstáculo à reconciliação com eles; é desejar-lhes o bem e não o mal.”

Um amor que se coloca ao serviço com humildade; um amor que perdoa e é perdoado. Mateus, 6:12.

Um amor que tem esperança, desde que nos conciliemos com os nossos adversários enquanto caminhos juntos para não sermos julgados pelo juiz e não sermos presos. Mateus, 5:23 a 25.

Neste passo simbolicamente temos:

• Caminho = A presente encarnação;

• Juiz = A nossa consciência (Questão 621 de LE);

• Oficial = A dor e, muitas vezes, ao remorso e, posteriormente, à depressão;

• Prisão = o processo obsessão.

Reflexões finais

Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, não pode amar a Deus, a quem não viu. I João, 4:20.

E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Mateus, 5:47

Jesus, envolva-nos com o seu infinito amor para que possamos aprender a amar.

Marcos José Ferreira da Cruz Machado
Belo Horizonte (MG)
AGO/2009
(atualizado
em 27-05-2010)

    


 

  

Auto-da-fé em Barcelona - Obras Póstumas

21 de setembro de 1861.
Em minha casa — Médium, o Sr. d'A...

A pedido do Sr. Lachatre, estabelecido em Barcelona, remeti-lhe grande número de exemplares do O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, coleções da Revista Espírita e diversas obras e brochuras espíritas, formando um total de 300 volumes, pouco mais ou menos. A expedição foi feita regularmente pelo seu correspondente de Paris, em uma caixa, que continha outras mercadorias, e sem a menor infração dos regulamentos.

Chegados os livros, cobraram-se do destinatário os direitos de importação, mas antes de lhos entregarem, tiveram de deferir o despacho ao bispo, autoridade eclesiástica que, na Espanha, tem a fiscalização dos livros.

Achava-se este em Madri, mas na sua volta, em vista do catálogo, ordenou que aquelas obras fossem apreendidas e queimadas na praça pública pelo carrasco.

A execução da sentença foi marcada para 9 de outubro de 1861.

Se tivesse havido tentativa de passar aquelas obras por contrabando, a autoridade espanhola estava no direito de dispor delas, como lhe parecesse; desde porém que não houve fraude, nem ardil, tendo-se pago os respectivos direitos, era de rigorosa justiça que ordenasse a reexportação se não lhe convinha admiti-las no país. As reclamações feitas ao cônsul francês em Barcelona de nada valeram. O Sr. Lachatre perguntou-me se queria recorrer para autoridade superior; mas eu, embora entendesse conveniente deixar a causa correr à revelia, julguei dever consultar o meu guia espiritual.

P. (À Verdade). Sem dúvida não ignorais o que se passou em Barcelona com relação às obras espíritas; tereis a bondade de dizer-me se convém tentar o processo de restituição?

Tens o direito de reclamar a devolução das obras e certamente as terás de volta desde que faças a reclamação por intermédio do Ministério das Relações Exteriores de França; a minha opinião porém é que maior bem resultará do auto-de-fé, que da leitura de alguns volumes. A perda material será grandemente compensada pela repercussão que terá o ato da queima dos livros — o que concorrerá para a propaganda da doutrina. Compreendes quanto uma perseguição tão ridícula e tão retrógrada pode fazer progredir o Espiritismo na Espanha? As idéias espalhar-se-ão com tanto mais rapidez, as obras serão procuradas com tanto maior avidez, quanto maior for o escândalo da condenação.

P. Convém fazer um artigo no próximo número da Revista?

R. Aguarda o auto-de-fé.

(atualizado em 03-11-09)

    


 

  

O resto da Idade Média

Revista Espírita, novembro de 1861.
Auto-de-fé das obras Espíritas em Barcelona.

Não informamos nada, aos nossos leitores, sobre esse fato, que já não saibam pela via da imprensa; o que ocorreu de admirar, foi que os jornais, que passam geralmente por bem informados, hajam podido colocá-lo em dúvida; essa dúvida não nos surpreende; o fato em si mesmo parece tão estranho para o tempo em que vivemos, e está de tal modo longe de nossos costumes que, alguma cegueira que se reconhecesse ao fanatismo, crê-se sonhar ouvindo dizer que as fogueiras da inquisição se acendem ainda em 1861, à porta da França; a dúvida, nessa circunstância, é uma homenagem prestada à civilização européia, ao próprio clero católico. Em presença de uma realidade incontestável hoje, o que deve mais espantar, é que um jornal sério, que cai cada dia, sem dó nem piedade, sobre os abusos e as usurpações do poder sacerdotal, não haja encontrado, para assinalar esse fato, senão algumas palavras
zombeteiras, acrescentando: "Em todo caso, não seremos nós que nos divertiremos, neste momento, em fazer girar as mesas na Espanha." (Siècle de 14 de outubro de 1861.) O Siècle está a ver, portanto, o Espiritismo nas mesas girantes? Ele também está, pois, bastante cego pelo ceticismo para ignorar que toda uma doutrina filosófica, eminentemente progressiva, saiu dessas mesas das quais tanto se zombou? Não sabe, pois, ainda, que essa idéia fermenta por toda a parte; que por toda a parte, nas grandes cidades como nas pequenas localidades, do alto a baixo da escala, na França e no estrangeiro, essa idéia se difunde com uma rapidez extraordinária? Que, por toda a parte, as massas proclamam nela a aurora de uma renovação social? O golpe com o qual se acreditou feri-la, não é um indício de sua importância? Porque não se investe assim contra uma infantilidade sem conseqüência, e Don Quixote não retornou na Espanha para se bater contra os moinhos de vento.

O que não é menos exorbitante, e o que contra o qual se espanta, é não se ter visto um protesto enérgico, é a estranha pretensão que se arroga o bispo de Barcelona de fazer a polícia na França. Ao pedido que foi feito de reexportar as obras, respondeu com uma recusa assim motivada: A Igreja católica é universal, e os livros, sendo contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outros países.

Assim, eis um bispo estrangeiro, que se institui em juiz do que convém ou não convém à França! A sentença, portanto, foi mantida e executada sem mesmo isentar o destinatário das despesas de alfândega, que se teve muito cuidado em fazê-lo pagar.

Eis a narração que nos foi pessoalmente dirigida:
"Este dia, nove de outubro de mil oitocentos e sessenta e um, às dez horas e meia da manhã, sobre a esplanada da cidade de Barcelona, no lugar onde são executados os criminosos condenados ao último suplício, e por ordem do bispo desta cidade, foram queimados trezentos volumes e brochuras sobre o Espiritismo, a saber:

"A Revista Espírita, diretor Allan Kardec;
"A Revista Espiritualista, diretor Piérard;
"O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec;
"O Livro dos Médiuns, pelo mesmo;
"O que é o Espiritismo, pelo mesmo;
"Fragmento de sonata, ditado pelo Espírito de Mozart;
"Carta de um católico sobre o Espiritismo, pelo doutor Grand;
"A História de Jeanne d'Arc, ditada por ela mesma à Srta. Ermance Dufau;
"A realidade dos Espíritos demonstrada pela escrita direta, pelo barão de Guldenstubbé.
"Assistiram ao auto-de-fé:
"Um padre revestido das roupas sacerdotais, trazendo a cruz numa mão e a tocha na outra mão;
"Um notário encarregado de redigir a ata do auto-de-fé;
"O escrevente do notário;
"Um empregado superior da administração da alfândega;
"Três moços (serventes) da alfândega, encarregados de manter o fogo;
"Um agente da alfândega representando o proprietário das obras condenadas pelo bispo.
"Uma multidão inumerável encobria os passeios e cobria a imensa esplanada onde se elevava a fogueira.
"Quando o fogo consumiu os trezentos volumes ou brochuras Espíritas, o padre e seus ajudantes se retiraram, cobertos pelas vaias e as maldições dos numerosos assistentes que gritavam: Abaixo a inquisição!
"Numerosas pessoas, em seguida, se aproximaram da fogueira, e recolheram as suas cinzas."
Uma parte dessas cinzas nos foi enviada; com elas se encontra um fragmento de O Livro dos Espíritos consumido pela metade. Nós o conservamos preciosamente, como um testemunho autêntico desse ato insensato.
Toda opinião à parte, esse assunto levanta uma séria questão de direito internacional.
Reconhecemos ao governo espanhol o direito de proibir a entrada, sobre o seu território, das obras que não lhe convém, como a de todas as mercadorias proibidas. Se essas obras tivessem sido introduzidas clandestinamente e em fraude, nada haveria a dizer; mas são expedidas ostensivamente e apresentadas na alfândega; era, pois, uma permissão legalmente solicitada. Esta acreditou dever referi-la à autoridade episcopal que, sem outra forma de processo, condena as obras a serem queimadas pela mão do carrasco. O destinatário pediu, então, para reexportá-las para o lugar de origem, e lhe foi respondido pelo fim de não receber, relatado acima. Perguntamos se a destruição dessa propriedade, em tais circunstâncias, não é um ato arbitrário e fora do direito comum.

Examinando-se este assunto do ponto de vista de suas conseqüências, diremos primeiro que não houve senão uma voz para dizer que nada podia ser mais feliz para o Espiritismo. A perseguição sempre foi aproveitável à idéia que se quis proscrever; por aí se lhe exalta a importância, se lhe desperta a atenção, e fazendo-o conhecer por aqueles que o ignoram.

Graças a esse zelo imprudente, todo o mundo, em Espanha, vai ouvir falar do Espiritismo e quererá saber o que é; é tudo o que desejamos. Podem-se queimar os livros, mas não se queimam as idéias; as chamas das fogueiras as super-excitam em lugar de abafá-las. As idéias, aliás, estão no ar, e não há Pirineos bastante altos para detê-las; e quando uma idéia é grande e generosa, ela encontra milhares de peitos prontos para aspirá-la. O que se lhe haja feito, o Espiritismo já tem numerosas e profundas raízes na Espanha; as cinzas da fogueira vão fazê-las frutificar. Mas não será só na Espanha que esse resultado será produzido, é o mundo inteiro que lhe sentirá o contragolpe. Vários jornais da Espanha estigmatizaram esse ato retrógrado, como o merece. Lás Novedades de Madrid, de 19 de outubro, entre outros, contém, sobre esse assunto, um notável artigo; nós o reproduziremos em nosso próximo número.
Espíritas de todos os países! Não vos esqueçais desta data de 9 de outubro de 1861; ela será marcada, nos fastos do Espiritismo; que ela seja para vós um dia de festa e não de luto, porque é a garantia do vosso próximo triunfo!

Entre as numerosas comunicações que os Espíritos ditaram sobre esse acontecimento, não citaremos senão as duas seguintes, que foram dadas espontaneamente na Sociedade de Paris; elas dele resumem todas as causas e todas as conseqüências.

Sobre o auto-de-fé de Barcelona.
"O amor da verdade deve sempre se fazer ouvir: ela dissipa a névoa, e por toda a parte brilha ao mesmo tempo. O Espiritismo chegou para ser conhecido por todos; logo será julgado e colocado em prática; quanto mais houver perseguições, mais depressa esta sublime Doutrina chegará ao seu apogeu; seus mais cruéis inimigos, os inimigos do Cristo e do progresso, com isso se surpreendem de maneira que ninguém ignore que Deus permite àqueles que deixaram esta Terra de exílio de retornar para aqueles que amaram.

Tranqüilizai-vos; as fogueiras se extinguirão por si mesmas, e se os livros são lançados ao fogo, o pensamento imortal lhes sobrevive."

DOLLET.
Nota. Este Espírito, que se manifestou espontaneamente, disse ser o de um antigo livreiro do século dezesseis.

Outra.
Era preciso alguma coisa que ferisse, com um golpe violento, certos Espíritos encarnados para que se decidissem ocupar-se desta grande Doutrina que deve regenerar o mundo. Nada é inutilmente feito sobre a vossa Terra, para isso, e nós, que inspiramos o auto-de-fé de Barcelona, sabíamos bem que, assim agindo, faríamos dar um passo imenso para a frente.

Esse fato brutal, inaudito nos tempos atuais, foi consumado para atrair a atenção dos jornalistas que permaneciam indiferentes diante da agitação profunda que abalava as cidades e os centros Espíritas; deixavam dizer e deixavam fazer; mas se obstinavam em fazer ouvido de mercador, e respondiam pelo mutismo ao desejo de propaganda dos adeptos do Espiritismo. Por bem ou por mal, é preciso que dele falem hoje; uns constatando o histórico do fato de Barcelona, os outros desmentindo-o, deram lugar a uma polêmica que dará volta ao mundo, e da qual só o Espiritismo aproveitará. Eis por que, hoje, a retaguarda da inquisição fez seu último auto-de-fé, porque assim o quisemos."

SAINT DOMINIQUE..

(atualizado em 03-11-09)

    


 

  

O risco Necessário

Editorial Espirit Net.

Ousar é tropeçar momentaneamente, não ousar é se perder - Sören Kierkegaard

A muitos espíritas incomoda o fato de existirem divergências doutrinárias dentro do movimento. Sonham com um espiritismo totalmente liberto de disparidades interpretativas. Desejam unidade absoluta acerca de todas as questões doutrinárias. Que todos pensem e ajam exatamente igual no movimento. Imaginam, talvez, a possibilidade de um instância superior, supra humana, capaz de aplainar todas as divergências e ditar a última palavra em cada conflito de interpretação.

De uma certa forma, o movimento espírita brasileiro foi concebido em cima dessa utopia. Daí a idéia da unificação, sempre buscada, mas dificilmente atingível. Esbarra na heterogeneidade natural entre grupos e pessoas, mesmo que convictas dos princípios comuns relativos aos chamados postulados básicos do espiritismo: Deus, imortalidade, comunicabilidade, reencarnação, pluralidade de mundos habitados. É que a adoção de convicções a respeito desses temas não extirpa o caráter livre-pensador do homem. Bem pelo contrário, estimula-o a novas buscas e a diferentes conclusões a respeito das mais diferentes instâncias do pensamento, nos amplos círculos de compreensão sobre Deus, o universo e, especialmente, o homem.

Na verdade, quanto mais estudamos mais críticos nos tornamos e mais dificilmente assumiremos como definitivas as interpretações que, ainda ontem, nos pareciam diafanamente claras. É certo que, relativamente a nossos postulados básicos, as pesquisas e os estudos só tendem a confirmá-los. Não assim, entretanto, relativamente a todas as opiniões que simplesmente assimilamos em torno desses mesmos postulados, transmitidas que nos foram por outros, encarnados ou desencarnados. O conhecimento exige um mergulho pessoal do ser cognoscente no objeto a ser conhecido. Não dá para dispensar a experiência pessoal que nos confere diferentes graus de percepção a respeito de conceitos, fatos e fenômenos com cuja existência fundamental todos estamos concordes.

Por isso, as divergências são saudáveis. Na mesma medida em que o estudo do espiritismo nos une no essencial, estimulando o fortalecimento do laço que nos prende uns aos outros, ele também instaura o pluralismo de idéias só existente naqueles grupos que privilegiam o debate livre e democrático, sabendo que a verdade absoluta está muito distante do estágio em que nos encontramos.

Quando se celebram os 25 anos de um acontecimento marcante no movimento espírita brasileiro, que foi o lançamento da Campanha de Estudo Sistematizado do Espiritismo no Rio Grande do Sul, a partir de idéia gerada na instituição de que este periódico é porta-voz, é imperioso admitir que sua introdução possibilitou o despertamento desse espírito crítico. E será conveniente a presença de espírito crítico num movimento como o espiritismo? Muitos ainda acham que não. Nós do CCEPA seguimos achando que vale a pena. Os riscos daí decorrentes são inerentes ao progresso.

Na mesma medida em que o estudo do espiritismo nos une no essencial, também instaura o pluralismo de idéias.

(atualizado em 26-11-09)

    


 

  

Ortodoxia Espírita: o que é?

1) O que é "ortodoxia"?
O conceito de ortodoxia é etimológico: conformidade com as bases fundamentais de uma ciência ou filosofia. No caso do Espiritismo, a ortodoxia significa entender a codificação compilada por Kardec como base única e fundamental para compreensão da Doutrina Espírita e sendo coerente com a metodologia espírita para aquisição e aceitação de novas informações ou conhecimentos. Essa metodologia implica na aplicação do CUEE - Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos (cuja estrutura está designada no Evangelho Segundo o Espiritismo), na aceitação de conclusões científicas acadêmicas inequívocas ou na aplicação de qualquer outro método de aferição de verdade que possua método científico. A função da ortodoxia no meio espírita é, sobretudo, destruir quaisquer resquícios de misticismo e/ou mercantilismo sobre valores doutrinário, trazendo o Espiritismo de volta ao seu caminho cientifico e filosófico.

2) O que é um "ortodoxo"?
"Ortodoxo" é a expressão que designa popularmente e em nível informal todo espírita que considera que a ortodoxia é o caminho mais coerente, ou seja, um defensor da pureza doutrinária cientifica e filosófica do Espiritismo. É apenas uma expressão que visa demarcar posições em ambientes de confronto ideológico. Nem todo defensor da pureza doutrinária necessita ou se utiliza desta expressão para designar seu pensamento. Via de regra, o ortodoxo, ou seja, o individuo que defende os preceitos codificados, é o real seguidor da Doutrina Espírita. Em resumo: ortodoxo e espírita são a mesma coisa.

3) Os ortodoxos são um grupo à parte no movimento espírita?
Há diversas e incontáveis pessoas que aceitam os princípios da pureza doutrinária como reais e que procuram combater o misticismo no meio espírita. Qualquer pessoa pode ser um destes e se desejar, utilizar para si a classificação de "ortodoxo". Como esse nível de convicção é individual, não se pode dizer que exista um "Movimento Ortodoxo", mas "pessoas ortodoxas" que eventualmente podem ou não se associarem para promoverem ações comuns de maior ou menor contundência.

4) Os ortodoxos consideram o Espiritismo uma religião?
Sendo coerentes com os princípios conceituais da codificação espírita e como nela o Espiritismo se fundamente unicamente como ciência e filosofia, e ainda como os caracteres de uma religião universalmente aceitos se distanciam largamente do ideal e prática espíritas, então os ortodoxos não consideram o Espiritismo uma religião.

5) Os ortodoxos aceitam outros autores espíritas?
Por uma questão de conceito doutrinário, o simples fato de se iniciar uma análise a partir do nome de um autor já contradiz o Livro dos Médiuns, que nos indica a análise de conteúdo, independente de quem seja a autoria . Por principio, a classificação é do conteúdo de uma obra, portanto, e esse conteúdo só pode ser considerado espírita - e consequentemente verossímil - se, ao trazer informações que não estão contidas na codificação ou informações novas, esta obra houver sido submetida aos critérios de aferição de verdade: CUEE, metodologia cientifica ou estiver de acordo com conclusão científica acadêmica inequívoca.

6) Isso significa que autores como Chico Xavier e Divaldo Franco não são espíritas?
Todas as vezes em que esse tipo de indagação se inicia - mais uma vez - pelo nome do autor, ela já indica pressupostos equivocados? O nome do autor não importa para o Espiritismo e sim o conteúdo de suas obras? O apego a nomes é irracional, anti-doutrinário e pode indicar princípios de idolatria personalista, algo absolutamente indesejável. Portanto, a própria pergunta, vinda desta forma, indica vício conceitual, ou seja, parte de uma compreensão incompleta ou equivocada do que vem a ser o Espiritismo. Espírita ou não espírita é o conteúdo de uma obra e não seu autor. No caso citado, há conteúdo doutrinário em algumas obras destes autores tanto quanto existe contradição anti-doutrinária em outras tantas obras destes mesmos autores. Onde há conteúdo doutrinário, ou seja, concordância com a codificação, não é necessária aplicação do CUEE ou outros métodos já descritos. Mas, quando não existe concordância com a codificação e os seus autores não submeteram suas obras a esse tipo de análise crítica, então não podemos aceitar tais obras como verdadeiramente espíritas. Por principio ainda, não há médiuns intocáveis ou perfeitos e portanto, Chico Xavier foi um autor que cometeu diversos equívocos, tantos quantos quaisquer outros que não tenham possuído a objetividade de submeter seus escritos ao que a codificação determina.

7) Algumas pessoas acusam os ortodoxos de promoverem a estagnação do Espiritismo ao rejeitar novas informações. O que pensar disso?
Há duas posturas em relação ao pensamento ortodoxo: desinformação e má fé? Em muitos casos a desinformação já vem recheada de má fé? Por uma questão de lógica doutrinária, os ortodoxos são, na verdade, os únicos que defendem os avanços no Espiritismo. Isso se deve ao fato de que a codificação deixa muito clara que o Espiritismo deve acompanhar a ciência e promover também suas próprias investigações, mas sempre utilizando metodologia racional e crítica. Se a codificação espírita informa que devemos avançar na busca de conhecimento e se os ortodoxos defendem esta mesma codificação, então, por consequência óbvia, os ortodoxos são os maiores interessados na ampliação de conhecimentos e busca de informações novas no meio espírita. O que os ortodoxos combatem é a aceitação irrefletida e sem nenhum viés cientifico de todo tipo de inverdade que é jogada no meio espírita como se realidade fosse. Os ortodoxos recusam qualquer "novidade" que não tenha sido analisada, confrontada pelo CUEE ou investigada com metodologia cientifica. A grande questão é que, de fato, desconhecemos grande número de autores e editoras que aplicam este principio. Nesse caso, o que seria "novidade" para uma pessoa, é um engodo místico para o ortodoxo. Grande parte das "novidades" na verdade atende ao interesse comercial de editoras e de seus defensores, sendo facilmente digeridas pelo grande público porque já foram criadas exatamente para fácil aceitação irrefletida.

8) Nesse caso, os ortodoxos estimulam a investigação cientifica?
O ortodoxo, ou qualquer pessoa que defenda a pureza doutrinária, é o individuo que não abdica do controle científico das informações de natureza espiritual. Algumas destas pessoas procuram se associar para reiniciarem a aplicação do CUEE e de pesquisas cientificas, bem como estimular o meio acadêmico a fazer o mesmo. Infelizmente, o religiosismo e o misticismo reinantes no meio espírita afugentam os cientistas e estruturas institucionais, já que nem nem religiões e nem misticismo possuem qualquer fundamento cientifico - e no caso do misticismo - nenhum viés de seriedade.

9) Quem é um "místico"?
Místico é todo sujeito que aceita proposições supostamente espirituais ou "sobrenaturais" sem submetê-las a qualquer tipo de análise ou aferição metodológica/cientifica de verdade. Existem dois tipos de místicos: aqueles que convictamente o são e aqueles que só o são por condicionamento cultural. No caso do Brasil, dado o intenso sincretismo e o império da maior religião mística do Ocidente, o catolicismo, há uma cultura que privilegia o "mágico e o sensacional". Sendo assim, há uma intensa mistura de conceitos espíritas com anti-conceitos católicos. E como a prática da maior parte das casas espíritas em nosso país é de natureza equivocadamente religiosa, não há interesse ou prática de reeducar o individuo condicionado pelo catolicismo e ele continua mantendo-se entre os dois mundos. Já o místico intencional procura se abrigar em instituições espiritualistas ou desenvolve suas próprias práticas irrefletidas e procura trazê-las para o meio espírita. Via de regra são bem sucedidos neste intento. Neste ultimo caso, o agravante é que o místico procura adaptar o Espiritismo aos seus interesses pessoais ou limitações de ordem moral ou intelectual. Tais pessoas não possuem interesse na coerência doutrinária espírita e combatem, muitas vezes, quem assim procede.

10) Os ortodoxos são inimigos dos místicos?
Por principio, defensores da pureza doutrinária não podem manter pessoas como inimigas. Mas, podem manter intenso combate às idéias que equivocadamente tais pessoas carregam para si e tentam difundir.

11) Tem sido dito que ortodoxo não pratica a caridade e não fala em amor. Isso é verdade?
A prática da caridade e a elevação amorosa são valores individuais e conforme orientação da codificação, devem ser aplicados com discrição e humildade. Ninguém pode medir o nível de amorosidade de outrem ou consegue policiar sua prática caridosa. Grande parte dos ortodoxos, e outros defensores da pureza doutrinária, considera que a pregação moral externada por discurso é o caminho mais fácil para a hipocrisia, pois moral não se prega - se exemplifica. Não podemos e nem temos autoridade para dizer como o outro deve agir. Podemos é estimular a elevação moral de todos começando pela nossa, sem discurso, sem o apelo a textos ou mensagens supostamente "cristãs" e de fácil digestão. A observação atenta indica que o individuo que prega moral e policia moralmente o comportamento alheio não é capaz de sustentar moralmente seu próprio comportamento. Isso é bastante observados nos críticos da ortodoxia: alegam ausência de prática moral dos ortodoxos por meio de impiedosos ataques de cunho pessoal, que incluem ofensas, sarcasmo e exposição de suas vidas particulares. Por um principio doutrinário espírita, o melhor e mais eficaz crítico é justamente aquele que se impõe pelo seu elevado exemplo nas atitudes e comedimento nas palavras. E ainda assim, o mais eficaz crítico se atém às idéias e jamais situa-se sobre um ou outro individuo defensor da pureza doutrinária.

12) Os ortodoxos concordam em tudo entre si?
A ortodoxia, ou a defesa da pureza doutrinária, é um referencial de posturas e não uma instituição fechada. A única coisa em comum e fundamental na ortodoxia é o que está contido no item 2. Mediante o acatamento da necessidade de metodologia cientifica, do CUEE e visão critica, os assuntos doutrinários são abordados com intensa liberdade. Qualquer um que fundamente com honestidade intelectual suas idéias mantendo como base a codificação e textos coerentes com ela ou aferidos, é livre para pensar o que desejar sobre Doutrina Espírita ao se considerar um ortodoxo. Sendo assim, ortodoxos podem, sim, discordar uns dos outros em diversos pontos de entendimento doutrinário. Isso é o exercício da Filosofia Espírita.

13) Alguns ortodoxos são considerados muito rudes no trato com o próximo. O que respondem sobre isso?
Como dito, a ortodoxia é um referencial de posturas. E como também foi dito, não existe patrulhamento moral no Espiritismo. Existem ortodoxos que estabelecem como estratégia de ação o choque cultural e o discurso objetivo e impessoal. Portanto, tanto há no meio ortodoxo quem seja, por isso, considerado frio, como há, de fato quem seja frio ou rude. São atributos de pessoas - não de idéias. Contudo, como, por principio, a codificação nos impele a análise do conteúdo e não da forma (exceto quando a forma quer se tornar mais importante que o conteúdo), há pessoas que supõem que o espírita é o sujeito que fala manso, baixo e chama a todos de "meu irmão" em público. Tais pessoas consideram-se ofendidas quando são tratadas de forma analítica e impessoal e em muitos casos, reagem de forma indignada. Porém, o Evangelho Segundo o Espiritismo nos indica que esperamos do outro uma atitude moralmente elevada, mas não agimos nós mesmos com a mesma elevação de atitude que esperamos. Isso se chama "melindre" e representa uma desestrutura de ordem psicológica ou mesmo moral deste mesmo indivíduo.

14) Mas, quando os ortodoxos defendem a pureza doutrinária, não deveriam ser exemplos de atitude amorosa, visível para todos?
Este tipo de crítica é conhecida e representa um baixo nível de padrão intelectual de retórica. Os ortodoxos não se definem como espíritas perfeitos, tampouco como espíritos puros. E não assumem para si qualidades morais que não possuem. A evolução moral é de natureza íntima, mas parte de uma compreensão ampla da realidade intelectual. Conforme determina a codificação, a evolução moral decorre da evolução intelectual e essa mesma codificação determina que isso segue etapas para se alcançar uma elevação ao nível de perfeição. O ortodoxo assume o que ele é e não vai simular atitudes para admiração externa sem que esteja evoluído para tanto.

0 que defendemos é que o caráter consolador da Doutrina Espírita reside exatamente na sua capacidade de esclarecimento. Nosso compromisso é ampliar essa capacidade de conhecimento de todos - bem como também ampliar a base de conhecimento sobre a realidade universal.

A partir do cumprimento dessa missão de fornecer mecanismos para que as pessoas trabalhem sua evolução moral baseado no conhecimento, a caminhada moral é de cada um. A crítica, no caso, é mais um exemplo de como o crítico não consegue ser melhor do que o criticado, pois pessoas moralmente elevadas não tecem criticas morais sobre ninguém, tampouco patrulham o comportamento alheio. Notoriamente acrescentamos que os espíritos relatores da codificação também não possuem linguagem melíflua ou cheia de dedos para com os leitores. Aliás, as admoestações duras são frequentes.

Francisco Amado
Autodidata e pesquisador de Física quântica, Filosofia, Parapsicologia e Marketing.

(atualizado em 01-12-09)

    


 

  

O que seria pureza doutrinária segundo o Espiritismo?

Alexandre Fontes da Fonseca
Dallas, Texas, USA

Estudamos a questão sobre a Pureza Doutrinária segundo a própria Doutrina Espírita. Mostramos que a Pureza Doutrinária interpretada, como disse Jesus, em Espírito e Verdade, nada mais seria do que vivenciar o Espiritismo em toda e qualquer circunstância. Apresentamos alguns exemplos de atitudes do próprio Kardec perante algumas novidades de seu tempo, para ilustrar a pureza doutrinária segundo o ponto de vista do codificador. Algumas mensagens recebidas recentemente da Espiritualidade Superior são citadas em apoio às nossas conclusões.            

1. INTRODUÇÃO: A NECESSIDADE DE CLAREZA DE LINGUAGEM  
Um dos maiores cientistas que a humanidade conheceu, Werner Heisenberg (1901-1976), descobridor do princípio de incerteza e um dos criadores de uma formulação matricial da Mecânica Quântica, é dono da seguinte afirmativa1,2: “(a respeito das filosofias de Democritus e Platão) (...) Pelo contrário, a vantagem principal que nós podemos deduzir a partir do progresso da ciência moderna é aprender o quão cautelosos nós temos que ser com a linguagem e com o significado das palavras.” E, falando a respeito das discussões entre Sócrates e seus opositores, Heisenberg diz que2,3: “... Sócrates tinha consciência de quantos equívocos podiam ser engendrados pela falta de cuidado no uso da linguagem; o quão importante é usarem-se termos precisos e elucidarem-se conceitos antes de empregá-los.”   

A questão sobre a clareza da linguagem também foi analisada por Kardec. O ítem I da Introdução de O Livro dos Espíritos4, a respeito dos vocábulos espírita e espiritismo, apresenta: “Para se designarem coisas novas são precisos termos novos. Assim o exige a clareza da linguagem, para evitar a confusão inerente à variedade de sentidos das mesmas palavras.” (Grifos nossos). Os Espíritos superiores também se preocuparam com isso e, em resposta à questão número 28 de O Livro dos Espíritos4, disseram que “As palavras pouco nos importam. Compete-vos a vós formular a vossa linguagem de maneira a vos entenderdes. As vossas controvérsias provêm, quase sempre, de não vos entenderdes acerca dos termos que empregais, por ser incompleta a vossa linguagem para exprimir o que não vos fere os sentidos.” (Grifos nossos). A parte destacada é válida não só para as questões espíritas mas para todo o tipo de conteúdo doutrinário, filosófico, científico e religioso.   

Nesse sentido, em busca da clareza da linguagem, vamos iniciar a presente análise pelo significado das palavras que compõem a expressão “Pureza Doutrinária” (PD para simplificar, daqui em diante).   

O termo pureza expressa, simplesmente, a idéia de “algo” que não apresenta mistura com outras “coisas”. Essa definição, porém, carece de sentido se não definirmos, também, o significado desse “algo” e das “coisas” que são diferentes do “algo”. Por exemplo, a água destilada pode ser considerada pura no sentido de que ela consiste apenas de um tipo de substância, sem a mistura ou presença de outras substâncias. Mas, a água potável também pode ser chamada de pura desde que definamos o grau de pureza da água em termos da qualidade para o consumo. A água potável não é pura se considerarmos o grau de pureza em termos das substâncias contidas nela, assim como a água destilada não seria pura no sentido da qualidade para o consumo. Portanto, o sentido da palavra pureza não pode ser levado em conta de forma dissociada do conceito próprio da “coisa” que se analisa.   

O conceito de pureza também precisa estar presente num contexto de aplicação. Por exemplo, ao questionarmos se a água que eu estou tomando é pura ou não, estamos introduzindo uma aplicação prática e, portanto, atribuindo um valor ou objetivo para o conceito de pureza. Isso significa que a análise quanto à “pureza” de alguma “coisa” não tem valor pela “coisa” em si (que é pura por natureza), mas sim quando nós a empregamos em nossas vidas. Precisamos ter consciência se aquilo que estamos utilizando é de fato o que se pensa que é.   

O termo doutrinário é um adjetivo que faz referência do “algo” a algum tipo de doutrina ou conjunto de princípios que definem ou regem uma determinada doutrina.   

Adotaremos essas definições em nossa análise por serem bastante acessíveis ao entendimento das pessoas em geral. A expressão pureza doutrinária, portanto, significa a característica de tudo que uma pessoa ou grupo de pessoas usa ou realiza de acordo com uma determinada doutrina. Como conseqüência direta, o significado de pureza doutrinária não pode ser obtido SEM CONHECER o que diz a doutrina em questão.   

2. O QUE ENSINA A DOUTRINA ESPÍRITA?
Se PD depende do que diz a Doutrina
Espírita, deduzimos de forma direta que PD nada mais é do que a vivência ou a prática dos ensinamentos contidos na Doutrina Espírita. Mas, então, o que ensina a Doutrina Espírita? Que exemplos, práticas e vivências o Espiritismo ensina? Busquemos NO ESPIRITISMO, a resposta. Segundo a questão número 625 de O Livro dos Espíritos4:  

625. Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem, para lhe servir de guia e modelo?
Resposta - “Jesus.” 
 

Kardec: Para o homem, Jesus constitui o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a expressão mais pura da lei do Senhor, porque, sendo ele o mais puro de quantos têm aparecido na Terra, o Espírito Divino o animava. Quanto aos que, pretendendo instruir o homem na lei de Deus, o têm transviado, ensinando-lhes falsos princípios, isso aconteceu por haverem deixado que os dominassem sentimentos demasiados terrenos e por terem confundido as leis que regulam as condições da vida da alma, com as que regem a vida do corpo. Muitos hão apresentado como leis divinas simples leis humanas estatuídas para servir às paixões e dominar os homens.  

Concluímos daqui, que o Espiritismo ensina que nossas práticas e vivências devem estar de acordo com os ensinamentos de Jesus.   

O primeiro e mais importante ensinamento de Jesus está contido no Evangelho de Mateus, capítulo XXII, dentre os versículos 34 e 40: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o coração, de toda a tua alma, de todo o teu espírito. – Esse é o maior e primeiro mandamento. – E o segundo, que é semelhante ao primeiro: Amarás a teu próximo, como a ti mesmo. – Toda a Lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.” Vemos aqui que o Espiritismo ensina a agir em conformidade com a Lei de Amor, mandamento mais importante deixado e exemplificado por Jesus.   

Entretanto, de modo a percebermos que amar não significa “aceitar” tudo o que nos chega, vejamos uma outra recomendação de Jesus, (MATEUS 5:37) : “Mas seja o vosso falar: sim, sim; não”. Para comentar esta passagem chamamos o espírito Emmanuel, em psicografia de Francisco C. Xavier (Cap. 80 da ref. 5): “O ‘sim’ pode ser muito agradável em todas as situações, todavia, o ‘não’, em determinados setores da luta humana, é mais construtivo. Satisfazer a todas as requisições do caminho é perder tempo e, por vezes, a própria vida. Tanto quanto o ‘sim’ deve ser pronunciado sem incenso bajulatório, o ‘não’ deve ser dito sem aspereza. Muita vez, é preciso contrariar para que o auxílio legítimo se não perca; urge reconhecer, porém, que a negativa salutar jamais perturba. O que dilacera é o tom contundente no qual é vazada.” (Grifos nossos). A partir desta recomendação de Jesus e do comentário de Emmanuel fica claro para nós que o Espiritismo não ensina a concordar sempre com tudo e com todos e que em nome do Amor e da Fraternidade podemos sim discordar. Aliás, Bezerra de Menezes, recentemente, disse6: “A vós, sob inspiração dos Guias Espirituais do Movimento Espírita na Terra, está destinada a tarefa infatigável de porfiar no bem, de exercitar a compaixão e a caridade, mas não conivir, em nome da tolerância, com o erro nem com o crime.” (Grifos nossos). Porém, isso tem que ser feito em tom de respeito, de forma salutar e não em “tom contundente” de quem se crê detentor de toda a Verdade. Isso significa que sempre deve haver diálogo e respeito entre aquele que discorda e aquele que propõe algo diferente.            

3. A NECESSIDADE DO ESPIRITISMO 
Uma questão importantíssima é saber quais os benefícios do
Espiritismo para a humanidade. Que tipo de problemas o Espiritismo pode evitar e que tipo de contribuição o Espiritismo pode oferecer ao progresso da humanidade? Responderemos a essas questões utilizando um outro ensinamento de Jesus (JOÃO 8:32): “Conhecereis a verdade e ela vos libertará”. É importante, também, rever alguns trechos do ítem II da Introdução do Evangelho Segundo o Espiritismo7, sobre a “Autoridade da Doutrina Espírita”:   

(9º. Parágrafo) Uma só garantia séria existe para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares. (Grifos em itálico originais).   

(2ª. frase, 13º. Parágrafo) (Sobre receber comunicações de muitos centros espíritas sérios) Essa observação é que nos tem guiado até hoje e é a que nos guiará em novos campos que o Espiritismo terá de explorar.  

(14º. Parágrafo) Essa verificação universal constitui uma garantia para a unidade futura do Espiritismo e anulará todas as teorias contraditórias. Aí é que, no porvir, se encontrará o critério da verdade. (Grifos nossos).   

(16º. Parágrafo) O princípio da concordância é também uma garantia contra as alterações que poderiam sujeitar o Espiritismo às seitas que se propusessem apoderar-se dele em proveito próprio e acomodá-lo a vontade.  

(19º. Parágrafo) Daí a necessidade da maior prudência em dar-lhes publicidade; e, caso se julgue conveniente publicá-las, importa não as apresentar senão como opiniões individuais, mais ou menos prováveis, porém, carecendo sempre de confirmação. Essa confirmação é que se precisa aguardar, antes de apresentar um princípio como verdade absoluta, a menos que se queira ser acusado de leviandade ou de credulidade irrefletida. (Grifos nossos)  

Primeiro Jesus diz que devemos buscar a Verdade porque ela nos libertará, e em seguida vemos que Kardec demonstra que o princípio da concordância universal entre os espíritos é uma garantia para nos encaminharmos à Verdade. Aqui reside uma das coisas mais importantes do Espiritismo: sua divulgação! Notemos que a atitude de prudência em divulgar idéias que não tenham sido obtidas a partir do critério da concordância universal dos espíritos é defendida pelo codificador com o apoio dos Espíritos superiores. Notemos, também, que Kardec afirma que devemos nos precaver de sermos “acusados de leviandade ou de credulidade irrefletida”. Ninguém diz que Kardec está sendo indelicado, anti-fraterno ou faltando com a tolerância quando usa essas palavras. É preciso ficar claro que a prudência não é falta de fraternidade ou tolerância, mas sim respeito àquele que busca a casa espírita para conhecer o Espiritismo.   

Para não esquecermos nenhum detalhe, vejamos o que está contido no ítem 9 do Cap. XV do Evangelho Segundo o Espiritismo7:   

Fora da verdade não há salvação equivaleria ao Fora da Igreja não há salvação e seria igualmente exclusivo, porquanto nenhuma seita existe que não pretenda ter o privilégio da verdade. (...) (o Espiritismo) não diz: Fora do Espiritismo não há salvação; e, como não pretende ensinar ainda toda a verdade, também não diz: Fora da verdade não há salvação, pois que esta máxima separaria em lugar de unir e perpetuaria os antagonismos. (Os grifos em negrito são nossos).  

O Espiritismo não defende a idéia de que o Espiritismo possui o monopólio da Verdade. O nosso dizer deve ser “sim, sim, não, não”, como Jesus ensinou, mas não podemos defender a idéia de que não existem outros caminhos para se chegar à verdade. O Espiritismo diz respeito apenas ao Movimento Espírita. O Espiritismo não pode afirmar nada sobre as outras filosofias, exceto o fato delas serem outras. O Espiritismo NÃO condena o estudo particular de qualquer outra doutrina, mas orienta que estudos são mais apropriados a determinados fins dentro da Casa ou Centro Espírita. Em nome do Espiritismo não se pode expulsar ou criticar o irmão estudioso e interessado nos conceitos de outras doutrinas. Porém, o Espiritismo ensina como discernir a respeito da utilização de idéias e conceitos de outras doutrinas ou filosofias nas atividades espíritas para, assim, não correr o risco dessas idéias desviarem os participantes dos principais objetivos do Espiritismo. Em apoio a isso, vamos transcrever o que os Espíritos ensinaram na questão 628 de O Livro dos Espíritos4 

628. Por que a verdade não foi sempre posta ao alcance de toda gente?
Resposta - “Importa que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: o homem precisa habituar-se a ela, pouco a pouco; do contrário, fica deslumbrado. Jamais permitiu Deus que o homem recebesse comunicações tão completas e instrutivas como as que hoje lhe são dadas. Havia, como sabeis, na Antigüidade alguns indivíduos possuidores do que eles próprios consideravam uma ciência sagrada e da qual faziam mistério para os que, aos seus olhos, eram tidos por profanos. Pelo que conheceis das leis que regem estes fenômenos, deveis compreender que esses indivíduos apenas recebiam algumas verdades esparsas, dentro de um conjunto equívoco e, na maioria dos casos, emblemático. Entretanto, para o estudioso, não há nenhum sistema antigo de filosofia, nenhuma tradição, nenhuma religião, que seja desprezível, pois em tudo há germens de grandes verdades que, se bem pareçam contraditórias entre si, dispersas que se acham em meio de acessórios sem fundamento, facilmente coordenáveis se vos apresentam, graças à explicação que o Espiritismo dá de uma imensidade de coisas que até agora se vos afiguraram sem razão alguma e cuja realidade está hoje irrecusavelmente demonstrada. Não desprezeis, portanto, os objetos de estudo que esses materiais oferecem. Ricos eles são de tais objetos e podem contribuir grandemente para vossa instrução.” (Grifos nossos) 
 

Notem que os bons Espíritos ao mesmo tempo em que afirmam que as diferentes doutrinas espiritualistas possuem “acessórios sem fundamento” que as fazem parecer “contraditórias entre si”, dizem que o estudo delas não deve ser desprezado pois elas também contém “verdades esparsas”. Mas, isso não significa que devemos importar práticas de outras doutrinas já que, como os bons Espíritos também disseram na mesma questão acima, que “a ciência sagrada (...) dentro de um conjunto equívoco e, (...), emblemático ...”, e que esses sistemas das filosofias antigas “(...) facilmente coordenáveis se vos apresentam, graças à explicação que o Espiritismo dá (...)”. Se o Espiritismo, como eles disseram, contém comunicações mais “completas e instrutivas” qual a vantagem de utilizarmos conceitos e práticas oriundas de outras doutrinas espiritualistas que se acham dispersos e “em meio de acessórios sem fundamento”? Por acaso um médico opera um paciente utilizando os procedimentos do Séc XV só porque algumas verdades eram conhecidas na época?   

4. O QUE SERIA PUREZA DOUTRINÁRIA SEGUNDO O ESPIRITISMO?  
Podemos, agora, responder à questão apresentada no título deste artigo. Pureza Doutrinária, dentro do Movimento Espírita, nada mais é do que agir de acordo como ensina o Espiritismo.   

Não faz sentido verificar se a Doutrina Espírita é pura, pois, isso, é redundante. Não há necessidade de defender algo que já é bem constituído. PD não tem, portanto, efeito sobre a Doutrina Espírita em si. PD se aplica ao Movimento Espírita porque este representa a atitude das pessoas que o constituem e que precisam ter consciência se aquilo que estudam, praticam e vivenciam reflete os ensinamentos da Doutrina Espírita. Mas, como vimos nas sessões anteriores, o Espiritismo não condena estudos e práticas só por serem diferentes, mas pede discernimento e estudo para que tenhamos consciência do que estamos fazemos. Diante de novidades, é importante primeiro investigá-las de modo cuidadoso e profundo para não corrermos o risco de assimilarmos algo que não corresponda à verdade.   

Apesar disso parecer simples, a falta da clareza da linguagem (vide Introdução) levou a entendimentos equivocados a respeito da PD. Em decorrência disso, críticas se levantam à PD e, diante do exposto até aqui, a PD é, justamente, a solução dos questionamentos dos que a defendem e a combatem.   

A explicação para os equívocos realizados em nome da PD pode ser deduzida do que o Espiritismo ensina. No ítem 5 do Cap. VI do Evangelho Segundo o Espiritismo7, o Espírito de Verdade assim se expressa com relação ao Cristianismo:  “No Cristianismo encontram-se todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram.” Da mesma forma, são de origem humana os erros que se têm cometido em nome da PD. O erro não está em defender PD, pois PD significa agir em conformidade com os ensinamentos espíritas que, por sua vez, são a expressão mais pura do Evangelho. Os companheiros que defendem a PD podem agir em desacordo com o seu real significado, e os companheiros que consideram a PD um excesso de zelo prejudicial ao desenvolvimento do Movimento Espírita, assim o pensam em razão de equívocos e, talvez, abusos realizados em nome da PD. Como o Espiritismo nos ensina que não devemos julgar, em nome da PD também não se pode julgar. A Bondade Divina nos situou nas posições em que melhor podemos progredir e o erro, muitas vezes, faz parte do processo, não nos cabendo o julgamento do próximo. O que nos cabe é a defesa do que nós entendemos ser o correto, de acordo com o Espiritismo, e por isso devemos defender uma PD com amor, com vivência real do Evangelho à luz do Espiritismo.   

5. EXEMPLOS DE KARDEC 
Nessa seção apresentaremos dois exemplos significativos de Kardec sobre sua postura doutrinária, como espírita, perante algumas novidades. Esses exemplos servem como referência de PD segundo o Kardec.  

Primeiro, vamos citar a reação de Kardec ao ler as obras de Roustaing, Os Quatro Evangelhos. Kardec, em matéria na Revista Espírita de Junho de 18668, assim se expressa quanto à sua apreciação geral: “É um trabalho considerado, e que tem, para os Espíritas, o mérito de não estar, sobre nenhum ponto, em contradição com a doutrina ensinada por O Livro dos Espíritos e o dos médiuns.” Esse comentário é importante, pois, mostra a imparcialidade de Kardec frente às novidades, ao mesmo tempo que revela o exemplo de leitura crítica sem desrespeito.   

Adiante, ele demonstra sua prudência dizendo que: “Conseqüente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa caminhada sobre o desenvolvimento da opinião, não daremos, até nova ordem, às suas teorias, nem aprovação, nem desaprovação, deixando ao tempo o cuidado de sancioná-las ou de contradizê-las. Convém, pois, considerar essas explicações como opiniões pessoais aos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, e que, em todos os casos, têm necessidade da sanção do controle universal, e até mais ampla confirmação não poderiam ser consideradas como partes integrantes da Doutrina Espírita.” Esse comentário é um exemplo de aplicação da PD perante o novo assunto: ao invés de lançar anátema, Kardec se abstém de aprovar ou não, aguardando o desenvolvimento futuro em que os Espíritos poderiam confirmar ou não o conteúdo das obras de Roustaing.   

Kardec esclarece que se de um lado Os Quatro Evangelhos não se afastam dos princípios contidos em O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, diferente se dá com as aplicações desses princípios a certos fatos. Daí Kardec cita o detalhe a respeito da proposta, contida na obra de Roustaing, de que o corpo de Jesus não era de carne, mas sim fluídico. Kardec, sobre isso, então, diz: “Sem dúvida, não há aí nada de materialmente impossível para quem conhece as propriedades do envoltório perispiritual; sem nos pronunciar pró ou contra essa teoria diremos que ela é ao menos hipotética, e que, se um dia ela fosse reconhecida errada, a base sendo falsa, o edifício desmoronaria.” Notem a honestidade de Kardec em reconhecer que a proposta não é de todo impossível. Mas, ao mesmo tempo, reconhece a importância dessa questão para todo um conjunto de explicações a respeito dos fenômenos realizados por Jesus. Apesar de conhecer objeções a essa proposta, e de considerar que ela é desnecessária para explicar os fatos realizados por Jesus, Kardec não a prejulga ou condena e propõe que se aguarde o futuro. Além disso, ele deixa claro que a obra contém outros pontos bons e que pode ser “consultada proveitosamente pelo Espíritas sérios.”  

Passados dois anos, Kardec publica A Gênese9 (1868) que retoma o assunto, agora, com mais estudo e conhecimento sobre a questão. No Cap. XV, ítens de 64 a 67, sob o título “Desaparecimento do Corpo de Jesus”,  Kardec mostra que além de desnecessária, a hipótese do corpo fluídico de Jesus não condiz nem com os fatos nem com a análise moral da situação. Reproduziremos apenas a conclusão de Kardec, ao final do ítem 66 do referido capítulo: “Jesus, pois, teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram a existência.”           

O segundo exemplo que queremos mencionar, decorre apenas de um comentário de Kardec sobre a proposta de alguns médicos de sua época de que a Homeopatia poderia curar males morais. Kardec, no artigo do mês de Março de 1867 da Revista Espírita expõe longo argumento sobre o assunto. Novamente, em resposta a uma carta de um médico homeopata, no número de Dezembro de 1867, Kardec novamente expõe seu argumento. Entretanto, ao final da matéria de Dezembro de 1867, Kardec diz que “Como em tudo, os fatos são mais concludentes do que as teorias, e são eles, em definitivo, que confirmam ou derrubam estas últimas, desejamos ardentemente que o Sr. o doutor Grégory publique um tratado especial prático da homeopatia aplicada ao tratamento das moléstias morais, a fim de que a experiência possa se generalizar e decidir a questão.” (Grifos nossos). Sabemos que nos dias de hoje, diversos grupos espíritas realizam a prática de terapias alternativas dentro do centro espírita. Realmente, o Espiritismo não trata de terapias alternativas, nem mesmo de Homeopatia, mas o comentário de Kardec acima contém implicitamente uma orientação segura e de acordo com o caráter progressivo do Espiritismo, para quem deseja se dedicar à prática de tais terapias dentro do Movimento Espírita. O destaque em negrito resume a orientação de Kardec: ao invés de simplesmente usar tais terapias alternativas, aqueles que se interessa por elas devem buscar realizar trabalhos sérios de pesquisa, buscando “publicar tratados práticos” sobre as mesmas, que possam ser analisadas por outros estudiosos permitindo que a “experiência possa se generalizar e decidir” sobre sua validade como prática dentro do contexto das atividades espíritas. Acreditamos que tem faltado ao Movimento Espírita um pouco do espírito investigativo de Kardec e que se manifesta claramente na colocação acima. Se ele fosse contrário à pesquisa, ele não diria que os fatos é que poderiam decidir sobre a validade de uma questão.   

No caso específico da Homeopatia, cumpre esclarecer que Kardec apenas questionou a idéia dela poder curar males morais, o que estaria em desacordo com a mensagem do Evangelho de que somos responsáveis pelos nossos atos. Isso não significa que, em si, a Homeopatia não pudesse ser usada pelos bons Espíritos no trabalho de ajuda à saúde das pessoas. A Homeopatia é um tipo de terapia alternativa à alopatia que é aceita pelos conselhos de medicina no Brasil e no mundo, tem sido pesquisada de modo sério perante as ciências ortodoxas, e tem o apoio da Espiritualidade através do fato de que muitos centros espíritas contam com trabalhos de receituário mediúnico. Acreditamos que a generalização do uso de outras terapias ou práticas dentro do Movimento Espírita requer semelhante trabalho de pesquisa (material e espiritual), para que elas não se tornem práticas místicas, isto é, feitas sem saber porque, como e para que.   

Entretanto, diante do fato de que poucas pessoas conhecem os requisitos de um trabalho de pesquisa mais profundo (Kardec os conhecia muito bem) sugerimos àqueles que se interessam pelas terapias alternativas, que contactem pesquisadores profissionais, que sejam espíritas, e que possam orientar um trabalho de pesquisa genuíno e que possa gerar os resultados de valor científico. Quem quiser conhecer uma introdução ao trabalho de pesquisa científica, pode consultar as aulas de Ciência e Espiritismo10 publicadas entre os Boletins do GEAE de 483 a 500, especialmente as aulas de número 14 a 18. A realização desse tipo de trabalho investigativo (que enfatizamos ter sido um dos fortes exemplos de Kardec perante as novidades) não só estaria em sintonia com o Espiritismo, mas removeria a capa de misticismo em que muitas dessas práticas se envolvem. E, se ao final de vários trabalhos de pesquisa, se concluir que determinadas terapias não são necessárias dentro do contexto de atividades espíritas, não há nada do que se envergonhar em reconhecer e modificar atitudes.   

Ainda servem de exemplos interessantes, a postura prudente e imparcial de Kardec com relação ao surgimento de romances espíritas11, 12 e o artigo de Kardec “Espiritismo Independente”, no número de Abril de 1866 da Revista Espírita.   

6. CONCLUSÃO  
Para ajudar no entendimento do que seria pureza doutrinária, segundo o próprio Espiritismo, utilizamos, ao longo do texto, a expressão “o Espiritismo” com destaque em negrito e no formato itálico. Isso foi feito com o propósito de realizar o seguinte teste. O significado de pureza doutrinária pode ser entendido bastando substituir a expressão “o Espiritismo”, pela expressão “pureza doutrinária”. Esse seria, a nosso ver, a melhor forma de entendermos o significado de pureza doutrinária segundo o Espiritismo.  

De modo a percebermos a preocupação da Espiritualidade com a fidelidade doutrinária, transcrevemos abaixo uma recomendação de Bezerra de Menezes6: “Enfrentais no momento dificuldades que se multiplicam. Tendes pela frente desafios inumeráveis. Lobos vestem-se de ovelhas para ameaçarem o rebanho. Permanecei vigilantes como estais demonstrando, a fim de passarmos às gerações do futuro a Doutrina dos Espíritos na pulcritude e nobreza com que a recebemos de Allan Kardec e dos Mensageiros que a compuseram.” (Grifos nossos). Outras mensagens recentes da espiritualidade têm chamado a atenção para o cuidado com o Espiritismo como, por exemplo, a recente mensagem chamando os Espíritas à “fidelidade aos projetos do Espírito de Verdade”13 

Se PD significa agir de acordo com o Evangelho, vamos incentivar a PD em nossas atividades espíritas. Os equívocos em torno do conceito de PD podem ser resumidos em duas palavras: orgulho e egoísmo. Orgulho e egoísmo estão por detrás das afirmativas em tom “rude”, do desrespeito e desprezo por quem pensa diferente e, também, ocorre com quem recebe críticas contrárias às suas idéias e não se dispõe a meditar sobre elas e discuti-las de modo saudável. Propomos a criação de uma campanha pela DEFESA DA PUREZA DOUTRINÁRIA COM AMOR (isso é redundante, mas ajuda a entender o objetivo principal). Não precisamos abrir mão da Doutrina Espírita para sermos fraternos uns com os outros e nos mantermos cada vez mais unidos.            

O autor agradece aos Profa. Dra. Maristela Olzon D. de Souza, Prof. Dr. Sylvio D. de Souza, e ao Amigo Carlos Iglesias (Editor do GEAE) pela leitura crítica deste trabalho e por valiosas discussões e sugestões.   

Referências  
[
1] Frase original, em inglês, obtida do capítulo IV da referência [2]: “On the contrary, the chief profit we can derive in these problems from the progress of modern science is to learn how cautious we have to be with language and with the meaning of the words.

[2] K. Wilber, Quantum Questions, Shambhala Publications, Boston, (2001).

[3] Frase original, em inglês, obtida do capítulo IV da referência [2]: “... Socrates was aware of how many misunderstandings can be engendered by a careless use of language, how important it is to use precise terms and to elucidate concepts before employing them.

[4] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Editora FEB, 76a. Edição, (1995).

[5] Emmanuel, Psicografia de Francisco C. Xavier, Pão Nosso, Editora FEB, 18a. Edição (1999).

[6] B. de Menezes, Psicofonia de Divaldo P. Franco, Reformador, Dezembro pp. 446-447 (2005).

[7] A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Editora FEB, 112a. Edição (1996).

[8] A. Kardec, Os Evangelhos Explicados, Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos Junho p. 19 (1866).

[9] A. Kardec, A Gênese, Editora FEB, 36ª Edição (1995).

[10] A. F. Da Fonseca, Aulas de Ciência e Espiritismo, Boletim do GEAE ns. 483 a 500 (2004-2005). Internet: http://www.geae.inf.br/pt/boletins/colecao.php

[11] A. Kardec, Os Romances Espíritas, Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos Dezembro p. 3 (1865).

[12] A. Kardec, Notícias Bibliográficas, Espírita, Revista Espírita Jornal de Estudos Psicológicos Março p. 17 (1866).

[13] Camilo, Psicografia de Raul Teixeira, Reformador, Janeiro pp. 30-31 (2006).   

Publicado no Boletim do GEAE n. 529, 15 de Setembro de 2007 http://www.geae.inf.br/pt/boletins/geae529.html   

.João Cabral
ADE-SERGIPE
Aracaju-Sergipe-Brasil
Em: 16.01.2008.

(atualizado em 01-12-09)

    


 

  

 Livros de Ramatis - erros doutrinários à luz do Espiritismo

17-02-2008

Há cerca de quarenta anos, surgiu, no Paraná, um médium até então desconhecido nos meios espíritas daquele Estado, por não militar na Federação ou em núcleos conhecidos.

Começou com algumas mensagens, recebidas sempre sozinho em sua residência, atribuídas a um espírito de oriental, cujo pseudônimo adotado foi Ramatis. A que mais aceitação obteve foi “Magia de redenção”, já então preocupado o autor com os problemas da magia e com os habitantes de outros astros.

Seu livro “A vida no planeta Marte” foi um verdadeiro sucesso. Tornou-se a coqueluche de milhares de espiritualistas. Queriam os crentes saber se os marcianos tinham mãos como as nossas, nariz iguais aos nossos, escudos etc. Entende-se o sucesso, conhecendo-se a tendência à fantasia, comum em nosso povo. Já estavam surgindo os filmes de ficção.

Ainda, por cima, os livros de Ramatis foram escritos com redação boa, agradável sequência, e, no meio dos absurdos, muitas noções exatas e conceitos interessantes.

Os livros de Ramatis passaram a ser muito vendidos e lotaram as livrarias e bibliotecas espíritas, praticamente do Brasil inteiro. Em muitos centros espíritas e federações, vendia-se mais Ramatis do que o total dos livros da Codificação! Diziam: “Kardec está superado, pois temos, agora, as novas revelações de Ramatis”.

Felizmente ainda existem pessoas equilibradas e que sabem analisar as coisas. J. Herculano Pires, esse brilhante sociólogo e jornalista, que brindou o mundo espírita com numerosos livros de valor, mantinha, no Diário de S. Paulo, durante muitos anos, uma coluna com o pseudônimo “Irmão Saulo”, lida por espíritas e não-espíritas. Herculano resolveu fazer uma oportuna campanha de esclarecimento, com relação aos livros de Ramatis, publicando numerosos comentários naquele jornal. Reconhecendo o valor intelectual de Ramatis, mas igualmente conhecendo o perigo das idéias exóticas, Herculano classificou-o como espírito “pseudo-sábio”. Realmente. “Perigoso não é o expositor ou autor que só diz tolices, vazadas em linguagem obscura, pobre, cheia de erros gramaticais e idéias pueris. Perigoso, sim, é o que expõe certo número de noções exatas, que usa argumentação brilhante, mas introduz, de permeio, idéias erradas e perigosas. Assim, tais idéias têm grande probabilidade de aceitação. É o que acontece com Ramatis”.

Vejamos o que diz “O Livro dos Médiuns” – pergunta 296 – Pergunta sobre os outros mundos: “Qual o grau de confiança que podemos ter nas descrições dos espíritos sobre os outros mundos?

R. – Isso depende do grau de adiantamento real dos espíritos que dão essas descrições. Porque compreendeis que os espíritos vulgares são tão incapazes de vos informar a respeito, como um ignorante o seria, entre vós, no tocante aos países da Terra. Formulais, muitas vezes, sobre esses mundos, questões científicas que esses espíritos não podem resolver. Se são de boa fé, falam a respeito disso, segundo suas idéias pessoais. Se são levianos, divertem-se a vos dar descrições bizarras e fantásticas, tanto mais que esses espíritos, tão imaginoso na erraticidade, como na Terra, tiram da própria imaginação o relato de muitas coisas que nada têm de real.” Retrato perfeito de Ramatis, traçado cem anos antes…

Em cada ano, vinha um novo livro de Ramatis. Em 1962, “O sublime peregrino”, contando a vida de Jesus. A diretoria da Federação Espírita do Estado de São Paulo preocupada com o rumo que as coisas tomavam, solicitou à Comissão de Doutrina que fizesse um estudo minucioso e desapaixonado sobre esse livro. A comissão, da qual fazíamos parte, elaborou o seguinte parecer, que foi aprovado unanimemente pelo Conselho Deliberativo da Feesp:

“O livro em apreço apresenta algumas facetas interessantes e vários capítulos perfeitamente aceitáveis; todavia contém erros doutrinários clamorosos à luz do Espiritismo, como os contidos nos capítulos 4 e 5, que poderá semear a confusão nos meios espíritas. Admite a influência astral sobre as criaturas como força decisiva no seu destino (páginas 36 e 54); admite que os destinos estão traçados há muito tempo (pág. 56); e, pior que tudo, faz distinção entre Jesus e o Cristo, dizendo que o “Cristo Planetário” é uma entidade arcangélica, enquanto Jesus de Nazaré foi o seu médium mais perfeito na Terra (pág.62). Ramatis usa, constantemente, imagens e expressões católicas, como: arcanjo planetário, comando angélico, empreitada satânica, angelitude, coletividades satânicas, espíritos diabólicos, Salvador dos homens, atender à vontade do Senhor, a fim de redimir a humanidade, Jesus se glorificou pela sua própria morte sacrificial na cruz, carregava nos ombros frágeis a cruz das dores e do sofrimento de todos os homens etc. A todo instante, valoriza a influência dos astros, coisa jamais aceita por Kardec. Introduz conceitos orientais na interpretação da vida de Jesus.

Para que não haja confusões doutrinárias, considera a Federação que a leitura do livro só deveria ser feita por pessoas bem esclarecidas na Doutrina, com capacidade para extrair as noções boas da obra, escoimando-as das graves falhas à luz da Codificação, a fim de que se evitem os perigosos desvios doutrinários, uma vez que a obra não pode ser considerada de teor espírita por vir profundamente eivada de expressões não-espíritas, essencialmente esotéricas e católicas”.

Ary Lex
Retirado do site Dupla Vista - uma semente espírita.
(atualizado em 01-12-09)

    


 

  

Platão: doutrina de escolha das provas

Revista Espírita, setembro de 1858.

Vimos, pelos curiosos documentos célticos que publicamos em nosso número de abril, a doutrina da reencarnação professada pelos Druidas, segundo o princípio da marcha ascendente da alma humana, à qual faziam percorrer os diversos graus da nossa escala espírita. Todo o mundo sabe que a idéia da reencarnação remonta à mais alta antigüidade, e que o próprio Pitágoras a hauriu entre os Indianos e os Egípcios. Não é, pois, de se admirar que Platão, Sócrates e outros, partilhassem uma opinião admitida pelos mais ilustres filósofos da época; mas o que, talvez, seja mais notável é encontrar, nessa época, o princípio da doutrina de escolha das provas, ensinada hoje pelos Espíritos, doutrina que pressupõe a reencarnação sem a qual não teria nenhuma razão de ser. Não discutiremos hoje essa teoria, que estava tão longe do nosso pensamento quando os Espíritos no-la revelaram, que nos surpreendeu estranhamente, porque o confessamos, com toda a humildade, que o que Platão havia escrito sobre esse assunto especial, nos era, então, totalmente desconhecido, prova nova, entre mil, que as comunicações que nos foram feitas não são o reflexo de nossa opinião pessoal.

Quanto à de Platão, constatamos simplesmente a idéia principal, podendo cada um facilmente convir quanto à parte da forma sob a qual ela é apresentada, e julgar os pontos de contato que pode ter, em certos detalhes, com a nossa teoria atual. Em sua alegoria do Fuso da necessidade, supõe uma conversa entre Sócrates e Glauco, e empresta ao primeiro o discurso seguinte sobre as revelações do Armênio Er, personagem fictício, segundo toda a probabilidade, embora alguns o tomem por Zoroastro.

Compreender-se-á, facilmente, que esse relato não é senão um quadro imaginado para conduzir à idéia principal: a imortalidade da alma, a sucessão das existências, a escolha dessas existências por efeito do livre arbítrio, enfim, as conseqüências felizes ou infelizes da escolha, freqüentemente imprudente, proposições que se encontram, todas, em O Livro dos Espíritos, e que vêm confirmar os numerosos fatos citados nesta revista.

"A narração que vou lembrar-vos, disse Sócrates a Glauco, é a de um homem de coração, Er, o Armênio, originário de Panfília. Foi morto em uma batalha. Dez dias depois, como se carregavam os cadáveres, já desfigurados, daqueles que tombaram com ele, o seu foi encontrado são e inteiro. Levaram-no para casa para fazerem seus funerais, e no segundo dia, quando estava sobre a fogueira, ele reviveu e contou o que vira na outra vida.

"Logo que a sua alma saiu de seu corpo, partiu com uma multidão de outras almas e chegou a um lugar maravilhoso, onde se viam, na terra, duas aberturas, vizinhas uma da outra, e duas outras aberturas no céu que correspondiam àquelas. Entre essas duas regiões estavam sentados os juízes. Desde que pronunciavam uma sentença, ordenavam aos justos para tomarem seu caminho à direita, por uma das aberturas do céu, depois de lhes afixar à frente um letreiro contendo o julgamento dado em seu favor, e aos maus de tomarem o caminho à esquerda, nos abismos, tendo atrás do dorso um escrito semelhante, onde estavam marcadas todas as suas ações. Quando, por sua vez, se apresentou, os juízes declararam que ele deveria levar aos homens a novidade do que se passava nesse outro mundo, e lhe ordenaram escutar e observar tudo o que se lhe oferecia.

"Viu primeiro as almas julgadas desaparecerem, umas subindo ao céu, outras descendo sob a terra pelas duas aberturas que se correspondiam: enquanto que, pela segunda abertura, via saírem as almas cobertas de pó e de imundície, ao mesmo tempo, pela segunda abertura do céu desciam outras almas puras e sem mácula. Todas pareciam vir de uma longa viagem e deterem-se com prazer na campina como num lugar de reunião. Aquelas que se conheciam, se saudavam, umas às outras, e perguntavam as novidades do que se passava nos lugares de onde vinham: o céu e a terra. Aqui, entre os gemidos e as lágrimas, evocava-se tudo o que se sofrerá, ou vira sofrer, viajando sob a terra; lá, contavam-se as alegrias do céu e a felicidade de contemplar as maravilhas divinas.

"Seria muito longo seguir o discurso inteiro do Armênio, mas eis, em suma, o que dizia. Cada uma das almas levava dez vezes a pena das injustiças que cometera durante a vida. A duração de cada punição era de cem anos, duração natural da vida humana, a fim de que o castigo fosse, sempre, o décuplo para cada crime. Assim os que fizeram perecer em grande quantidade seus semelhantes, atraiçoado cidades, exércitos, reduzido seus concidadãos à escravidão ou cometido outros crimes enormes, eram atormentados no décuplo para cada um dos seus crimes. Aqueles, ao contrário, que fizeram o bem ao seu redor, que foram justos e virtuosos, recebiam, na mesma proporção, a recompensa de suas boas ações. O que dizia das crianças que a morte levou pouco tempo após o seu nascimento, merece menos ser repetido; mas assegurava que ao ímpio, ao filho desnaturado, ao homicida, estavam reservadas as penas mais cruéis, e ao homem religioso e ao bom filho as maiores felicidades.

"Presenciara quando uma alma perguntou a uma outra onde estava o grande Ardieu. Esse Ardieu fora um tirano de uma cidade de Panfília mil anos antes; ele havia matado seu velho pai, seu irmão mais velho, e cometido, dizia-se, vários outros crimes enormes. "Ele não veio, respondeu a alma, e não virá jamais aqui. Todos fomos testemunhas, a esse respeito, de um horrível espetáculo. Quando estávamos sobre o ponto de sair do abismo, depois de cumprirmos nossas penas, vimos Ardieu e um grande número de outros, dos quais a maioria eram tiranos como ele ou seres que, numa condição particular, haviam cometido grandes crimes: faziam vãos esforços para subirem, e todas as vezes que esses culpados, cujos crimes eram irremediáveis, ou não haviam suficientemente expiado, tentavam sair, o abismo repelia-os rugindo. Então personagens horríveis, de corpo inflamado, que se achavam lá, acorriam a esses gemidos. Carregaram primeiro, com viva força, um certo número desses criminosos; quanto a Ardieu e aos outros, uniram-lhes os pés, as mãos e a cabeça, e os tendo lançado à terra e os esfolado à força de pancadas, arrastaram-nos fora do caminho, através de sarças sangrantes, repetindo às sombras, à medida que passava algum: "Eis tiranos e homicidas, nós os carregamos para lançá-los no Tártaro."

Essa alma acrescentou que, entre tantos objetos terríveis, nada lhe causou mais medo do que o mugido do abismo, e que foi uma extrema alegria para ela sair dali em silêncio. "Tais eram, mais ou menos, os julgamentos das almas, seus castigos e suas recompensas. "Depois de sete dias de repouso nessa campina, as almas deveram dali partir no oitavo, e se puseram na estrada. Ao cabo de quatro dias de caminho, perceberam no alto, sobre toda a superfície do céu e da terra, uma imensa luz, direita como uma coluna e semelhante à íris, mas mais brilhante e mais pura. Um único dia bastou-lhes para atingi-la, e elas viram, então, na direção do meio dessa muralha, a extremidade das correntes que nela prendem os céus.

Aí está o que a sustenta, é o envoltório do vaso do mundo, o vasto cinto que o rodeia. No topo, estava suspenso o Fuso da necessidade, ao redor do qual se formam todas as circunferências (1).( (1) Essas são as diversas esferas dos planetas ou os diversos estágios do céu, girando ao redor da Terra fixada ao próprio eixo do fuso. (V. COUSIN))

"Ao redor do Fuso, e a distâncias iguais, tinham assento sobre os tronos as três Parcas: Láqueis, C loto e Átropos, vestidas de branco e com a cabeça coroada com uma faixinha. Elas cantavam, unindo-se ao concerto das sereias: Láqueis o passado, Cloto o presente, Átropos o futuro. Cloto tocava, por intervalos, com a mão direita, o exterior do fuso; Átropos, com a mão esquerda, imprimia movimento aos círculos internos, e Láqueis, com uma e com a outra mão, alternativamente, tocava ora o fuso, ora as balanças interiores.

"Logo que as almas chegavam, era-lhes preciso se apresentarem diante de Láqueis. Primeiro um hierofante faziam-nas enfileirar em ordem, uma depois da outra. Em seguida, tendo tomado de sobre os joelhos de Láqueis as sortes ou números na ordem pela qual a alma deveria ser chamada, assim como as diversas condições humanas oferecidas à sua escolha, montado em um estrado, falava assim: " Eis o que disse a virgem Láqueis, filha da Necessidade; Almas passageiras, ides começar uma nova carreira e renascer na condição mortal. Não se vos assinalará vosso gênio, será vós que o escolhereis por vós mesmas.

Aquela primeira que a sorte chamar escolherá, e sua escolha será irrevogável. A virtude não está com ninguém: ela se prende a quem a honre, e abandona quem a negligencia. Cada um é responsável por sua escolha, Deus é inocente." A essas palavras esparramou os números, e cada alma pegou aquele que caiu diante dela, exceto o Armênio, aquém não se lhe permitiu.

Em seguida o hierofante expôs sobre a terra, diante delas, os gêneros de vida de toda espécie, em número muito maior que não havia de almas reunidas. A variedade deles era infinita; ali se achavam, ao mesmo tempo, todas as condições de homem, assim como de animais. Havia tiranias: umas que duram até a morte, as outras bruscamente interrompidas acabando na pobreza, no exílio e no abandono. A ilustração se mostrava sob várias faces: podia-se escolher a beleza, a arte de agradar, os combates, a vitória ou a nobreza de raça.

Condições sociais completamente obscuras por todos esses lugares, ou intermediárias, misturas de riqueza e de pobreza, de saúde e de enfermidade, eram oferecidas à escolha: haviam, também, condições de mulher da mesma variedade. "Evidentemente, aí está, caro Glauco, a prova terrível para a Humanidade. Que cada um de nós nela pense, e que deixe todos os vãos estudos, para não se entregar senão à ciência que faz a sorte do homem. Procuremos um mestre que nos ensine a discernir o bom e o mau destino, e a escolher todo o bem que o céu nos entrega. Examinemos com ele quais situações humanas, separadas ou reunidas, conduzem às boas ações: se a beleza, por exemplo, unida à pobreza ou à riqueza, ou se tal disposição da alma deve produzir a virtude ou o vício; que vantagem pode ter um nascimento brilhante ou comum, a vida privada ou pública, a força ou a fraqueza, a instrução ou a ignorância, enfim, tudo o que o homem recebe da Natureza e tudo o que tem de si mesmo. Esclarecidos pela consciência, decidamos qual destino nossa alma deve preferir. Sim, o pior dos destinos é aquele que a toma injusta, e o melhor aquele que a formará, sem cessar, para a virtude: tudo o mais nada é para nós. Iríamos esquecer que não há nenhuma escolha mais salutar depois da morte como durante a vida! Ah! que esse dogma sagrado se identifique para sempre com a nossa alma, a fim de que ela não se
deixe ofuscar, lá embaixo, nem pelas riquezas nem pelos outros males dessa natureza, e que ela não se exponha, lançando-se na condição do tirano ou em qualquer outra semelhante, a cometer um grande número de males sem remédio e a sofrê-los ainda maiores.

"Segundo o relato de nosso mensageiro, o hierofante dissera: Aquele que escolherá por último, contanto que o faça com discernimento, e que em seguida seja conseqüente em sua conduta, pode se prometer uma vida feliz. Aquele que escolherá primeiro, guarde-se de muita confiança, e que o último não se desespere." Então aquele que a sorte nomeou o primeiro avançou com diligência e escolheu a mais considerável tirania; levado por sua imprudência e sua avidez, e sem considerar suficientemente o que fazia, não viu essa fatalidade ligada ao objeto de sua escolha de ter que comer, um dia, a carne de seus próprios filhos e bem outros crimes horríveis. Mas quando ela considerou a sorte que havia escolhido, gemeu, lamentou-se, e esquecendo as lições do hierofante, acabou por acusar de seus males
a fortuna, os gênios, tudo, exceto ela mesma (1).

((1) Os Antigos não atribuíam a palavra tirano a mesma idéia que nós; davam esse nome a todos aqueles que se apoderavam do poder soberano, quaisquer que fossem suas qualidades, boas ou más. A história cita tiranos que fizeram o bem; mas como, mais freqüentemente, ocorria o contrário, e, para satisfazer sua ambição ou se manter no poder, nenhum crime lhes importava, essa palavra tomou-se, mais tarde, sinônimo de cruel, e se diz de todo homem que abusa de sua autoridade.

A alma da qual Er fala, escolhendo a mais considerável tirania, não buscara a crueldade mas, simplesmente, o poder mais vasto como condição de sua nova existência; quando sua escolha fez-se irrevogável, ela percebeu que esse mesmo poder a arrastaria ao crime, e lamentou fazê-lo, acusando de seus males todos, exceto ela mesma; é a história da maioria dos homens que são os artífices de sua própria infelicidade sem querer confessá-lo.) Essa alma era do número daquelas que vieram do céu: ela vivera, precedentemente, em um estado bem governado e fizera o bem pela força do hábito antes que por filosofia. Eis por que, entre aquelas que caíam em semelhantes decepções, as almas vindas do céu não eram as menos numerosas, por falta de terem sido experimentadas pelos sofrimentos. Ao contrário, aquelas que, tendo passado por moradas subterrâneas, sofreram e viram sofrer, não escolhiam assim às pressas. Daí, independentemente do risco das classes para serem chamadas a escolher, uma espécie de troca de bens e de males para a maioria das almas.

Assim, um homem que, a cada renovação da sua vida neste mundo, se aplicasse constantemente a sã filosofia e tivesse a felicidade de não ter as últimas sortes, aparentemente, depois desse relato, não somente seria feliz neste mundo, mais ainda que, em sua viagem daqui para lá embaixo, e em seu retorno, caminharia pela via unida ao céu e não pela vereda penosa do abismo subterrâneo.

"O Armênio acrescentava que era um espetáculo curioso de se ver a maneira pela qual cada alma fazia sua escolha. Nada de mais estranho e mais digno, ao mesmo tempo, de compaixão e de zombaria. Era, na maior parte do tempo, segundo seus hábitos da vida anterior, que fazia a sua escolha. Er vira a alma que havia pertencido a Orfeu escolher a alma de um cisne, por ódio das mulheres que lhe deram a morte, não querendo dever seu nascimento a nenhuma delas; a alma de Thomyres escolhera a condição de um rouxinol; e, reciprocamente, um cisne, assim como outros músicos como ele, adotaram a natureza do homem. Uma outra alma, a vigésima chamada a escolher, tomou a natureza de um leão: era Ajax, filho de Telamon.

Ele detestava a humanidade, recordando-se do julgamento que lhe tirara as armas de Aquiles. Depois desta, veio a alma de Agamenon, que suas infelicidades tomaram, também, o inimigo dos homens: ele tomou a condição de águia. A alma de Atalanta, chamada a escolher, pela metade, considerando as grandes honras prestadas aos atletas, não pôde resistir ao desejo de se tornar atleta. Epeu, que construiu o cavalo de Tróia, tomou-se uma mulher laboriosa. A alma do bobo Tersita, das últimas a se apresentarem, revestiu as formas de um macaco. A alma de Ulisses, a quem o acaso dera o último destino, veio também para escolher: mas a recordação de seus longos revezes, tendo-o desenganado da ambição, procurou por muito tempo e descobriu, com dificuldade, em um canto, a vida tranqüila de um homem privado, que todas as outras almas deixaram à parte. Descobrindo-o, disse que, mesmo que tivesse sido a primeira a escolher, não teria feito outra escolha. Os animais, quaisquer que sejam, passam igualmente uns nos outros ou nos corpos de homens: aqueles que foram maus, tornam-se bestas ferozes, e os bons, animais domésticos.

"Depois que todas as almas fizeram escolha de uma condição, elas se aproximaram de Láqueis, na ordem segundo a qual haviam escolhido. A Parca deu, a cada uma, o gênio que ela havia preferido, a fim de que lhe servisse de guardião durante a sua vida, e a ajudasse a cumprir o seu destino. Esse gênio primeiro a conduzia a Cloto que, com sua mão e com um giro do fuso, confirmava o destino escolhido. Depois de ter tocado o fuso, conduzia-a daí para Átropos, que enrolava o fio para tornar irrevogável o que fora tecido por Cloto. Em seguida avançava-se para o trono da Necessidade, sob o qual a alma e seu gênio passavam juntos.

Logo que todas passaram, elas seguiram para o espaço cheio de Letes (o Esquecimento) (1), ( (1) Alusão ao esquecimento que se segue à passagem de uma existência à outra.) onde toleraram um calor insuportável, porque não havia nem árvore e nem planta. Chegada a tarde, elas passaram a noite junto do rio Ameles (ausência de pensamentos sérios), rio do qual nenhum vaso podia conter a água: se era obrigado a dele beber mas os imprudentes dele beberam muito. Aqueles que dele bebem sem parar, perdem a memória. Dormiu-se depois; mas, pelo meio da noite, sobreveio um estrondo de trovão com um tremor de terra: logo as almas foram dispersadas, aqui e ali, para os diversos pontos de seu nascimento
terrestre, como estrelas que jorrassem, de repente, do céu. Quanto a ele, disse Er, impediram-no de beber da água do rio: entretanto, não sabia onde e nem como sua alma se reuniu ao seu corpo; mas pela manhã, tendo de repente aberto os olhos, percebeu que estava estendido sobre a fogueira.

"Tal é o mito, caro Glauco, que a tradição fez viver até nós. Ele pode nos preservar de nossa perda: se lhe acrescentarmos fé, passaremos felizes o Letes e manteremos nossa alma pura de toda mancha.".

(atualizado em 11-05-2010.)

    


 

  

Jesus na Samaria

Descendo Jesus de Jerusalém para Cafarnaum, seguido de alguns discípulos, nas suas habituais jornadas a pé, alcançou a Samaria*, quando o crepúsculo já se fazia mais sombrio.
( Nota: * Samaria- cidade sobre a montanha. Lugar escolhido pelo ponto de vista estratégico, econômico e urbanístico. De fato, agüentou o sítio dos assírios e só depois de três anos, foi conquistada. Daí seu nome Samaria (TORRE SEM GUARDA)

Felipe, André e Tiago, estando com fome, deixaram o Mestre a repousar junto de uma pequena herdade e demandaram o lugarejo mais próximo, em busca de alimento.

O Messias, olhando em torno de si, reconheceu que se encontrava ao lado da Fonte de Jacob. Envolvida nos revérberos do Sol que ia ceder lugar às sombras da noite que se aproximava, uma mulher acercou-se do antigo poço e observou que o Mestre lhe ia ao encontro com a bela e costumeira placidez do semblante, e lhe pedia de beber.
- Como sendo tu um judeu, me pedes um favor a mim, que sou samaritana?*
(Nota:* Havia uma inimizade ferrenha entre os judeus e os samaritanos naquela época. Os motivos eram vários. Religiosos, políticos e sociais. Depois da conquista da Samaria por outros povos, tornou-se até uma mistura de raças e crenças abominadas pelos judeus, que ao contrário dos samaritanos, era radicais quanto à raça e crença. Os samaritanos eram considerados à margem da sociedade (parias), sendo por isso desprezados.

Jesus descansou na interlocutora o olhar tranqüilo e redargüiu :
- Os judeus e samaritanos terão por ventura, necessidades diversas entre si? Bem se vê que não conheces os dons de Deus, porquanto se houvesse guardado os mandamentos divinos, compreenderias que te posso dar água viva.*
(Nota:* _ Serão as pessoas diferentes quanto às suas necessidades? Todos não sentem fome, sede, frio, calor anseios, alegrias, tristezas, dor, felicidade, etc.?).

- Bem se vê que és ignorante, não conhecendo os Dons de Deus – "Amor, Bondade, Justiça, Misericórdia, etc." Não Conhecendo os Dons de Deus não guardas os Mandamentos que resumidos são: AMAR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS E AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO. Se guardasses os Mandamentos, compreenderias que te posso dar ÁGUA VIVA.)

- Que vem a ser essa água viva? – inquiriu a samaritana impressionada. Onde a tens, se a água aqui existente é apenas a deste poço? Acaso serias maior que nosso pai Jacob que nô-la deu desde o princípio?

- Mulher, a água viva é aquela que sacia toda sede: vem do amor infinito de Deus e santifica as criaturas. E envolvendo a samaritana no doce magnetismo de seu olhar, continuou: Este poço de Jacob secará um dia. No leito da terra em que agora repousam suas águas claras, a serpente poderá fazer seu ninho. Não sentes a verdade de minhas afirmativas, ante a tua sede de todos os dias? Não obstante levares cheio o cântaro, voltarás logo ao poço, com uma nova sede. Entretanto, os que beberem da água viva estarão eternamente saciados. Para esses não mais haverá a necessidade material que se renova a cada instante da vida. Perene conforto lhes refrescará os corações através dos caminhos mais acidentados, sob o sol ardente dos desertos do mundo...

A mulher escutava presa de funda impressão, aquelas palavras que lhe chegavam ao santuário do espírito com a solenidade de uma revelação.
- Senhor, dá-me dessa água* ! - exclamou interessada.
(Nota:* Essa água viva que sacia a sede do Espírito imortal que está acima de todas as coisas materiais e perecíveis. Com a desenvoltura espiritual, terminam todas as vãs paixões e necessidades fisiológicas, porque toda sabedoria, toda boa obra, todo bom pensamento , é alimento para o espírito e se constitui em água viva. Não podemos esquecer que Jesus falava do futuro espiritual, das moradas elevadas das coisas celestiais. Não falava das coisas e necessidades materiais urgentes da criatura encarnada, sujeita a todas as vicissitudes da vida terrena, necessidades que se renovam a cada instante. O conhecimento de todas estas coisas traz grande conforto e aplaina os caminhos mais acidentados e ardentes dos desertos do mundo. "ÁGUA VIVA É A VERDADE "- "CONHECEREIS A VERDADE E ELA VOS LIBERTARÁ"

- Mas ouve! - disse-lhe Jesus.
E o Mestre passou a esclarecê-la sobre fatos e circunstâncias íntimas de sua vida particular, explicando-lhe o que se fazia necessário para que a sagrada emoção do amor divino lhe iluminasse a alma, afastando-a de todas as circunstâncias penosas da existência material.

Observando que não havia segredos para Jesus, a samaritana chorou e respondeu:
- Senhor, vejo que és de fato um profeta.

Quando Jesus disse: "Vai, chama o teu marido", ela lhe respondeu:
- Não tenho marido.

Jesus respondeu:
- Isto o dizes em verdade, porque cinco maridos já tiveste e este com quem vives não é teu marido. Com o poder de ver no tempo e no espaço, pode o Mestre saber esta questão.

Continuou a mulher :
- Meu espírito está cheio de boa vontade e, desde muito, penso na melhor maneira de purificar minha vida e santificar os meus atos. Entretanto, é tal a confusão que observo em torno de mim, que não sei como adorar a Deus. Os meus familiares e vizinhos afirmam que é indispensável celebrar o culto ao todo Poderoso neste monte (Garizim). Os judeus nos combatem e asseveram que nenhuma cerimônia terá valor fora dos muros de Jerusalém. As discórdias nesta Região têm chegado ao cúmulo. Já que tenho a felicidade de ouvir as tuas palavras, ensina-me o melhor caminho.

O Mestre observou-a compadecido e exclamou:
- Tens razão. As divergências têm implantado a maior desunião entre os membros da grande família humana. Entretanto, o pastor vem ao redil para reunir as ovelhas que os lobos dispersaram. Em verdade, afirmo-te que virá um tempo em que não se adorará a Deus nem neste monte, nem no templo suntuoso de Jerusalém. Porque o Pai é Espírito e só em espírito deve ser adorado. Por isso venho abrir o templo dos corações sinceros para que todo culto a Deus se converta em íntima comunhão entre o homem e seu criador.

- Meu desejo sincero é adorar a Deus, mas como e onde? Tantas religiões, tantas divergências e discórdias...

Jesus explica que o santuário não é nos templos de pedra ou nas montanhas. A verdadeira adoração se processa no santuário do espírito e no coração. Deus é espírito e não habita um templo de pedra. É AMOR, é BONDADE, é JUSTIÇA. O verdadeiro culto a Deus é a comunhão íntima do Homem com o seu criador.

Suave silêncio se fez entre ambos. Daí a alguns instantes, acompanhados de grande número de populares, chegavam os discípulos, admirando-se todos de encontrarem o Messias em conversação íntima com uma mulher. Nenhum deles todavia aventurou qualquer observação menos digna ou imprudente.
A samaritana impressionada com as suas revelações, solicitou a presença de seus familiares e vizinhos, a fim de lhe ouvirem a palavra.

Tiago e André haviam trazido pão e frutas, insistindo com Jesus para que se alimentasse. O Mestre, porém, aproveitou o instante pra mais uma vez ensinar o caminho do Reino, com as palavras amigas, compondo parábolas singelas.

Muita gente se aglomerava para ouvi-lo. Eram viajantes que demandavam regiões diferentes, a par de grande grupo de samaritanos de opiniões exaltadas. A enorme assembléia se pôs a caminho, mas o Messias continuou espalhando as suas promessas de esperança e consolação.

Nesse ínterim, Felipe consultou os companheiros e, aproximando-se de Jesus, rogou-lhe carinhosamente:
- Mestre, por favor, aceitai um pouco de pão.

- Não de preocupes, Felipe – disse o Messias. – Não tenho fome. Aliás, recebo um alimento que talvez meus próprios discípulos ainda não puderam conhecer.

- Qual? – atalhou o apóstolo com interesse.

- Antes de tudo, meu alimento é fazer a vontade daquele Pai misericordioso e justo que a este mundo me enviou, a fim de ensinar o seu amor e a sua verdade. Meu sustento é realizar sua obra.

- É verdade – observou o discípulo, olhando a multidão que os acompanhava. Levaremos para Cafarnaum mais este triunfo, porque é incontestável que obtiveste aqui entre os samaritanos um dos nossos maiores êxitos.

Tiago e André ouviam silenciosos o diálogo.

Às palavras entusiásticas do apóstolo, o Mestre sorriu e acrescentou:
- Não é isso propriamente o que me interessa. O êxito mundano pode ser uma ondulação de superfície. O que necessitamos em todas as situações é atender o que o Pai deseja de nós. Como todo o seu apelo é o do bem, eu trabalho, mas sem me prender ao anseio das vitórias imediatas. Acaso já poderíamos admitir que somos compreendidos? Calemos-nos por alguns instantes a fim de ouvirmos a opinião dos que nos seguem os passos.

Fez-se silêncio entre ele e os três discípulos, de modo que podiam ouvir distintamente os diálogos travados entre os que os acompanhavam.

- Este nazareno é um explorador da piedade popular – dizia um samaritano.

- É certo – concordava o outro – porque em sua terra, não chega a valer um denário. Pelos parentes é tido como inimigo do trabalho.

- É um louco de boa aparência – dizia uma mulher idosa para a filha.

- Para mim é grande velhaco – dizia um rapaz – porque se meteu com pescadores quando alega ser tão sábio? Por que não se transfere para Jerusalém ou Tiberíades? Bem sabe a razão disso. Lá encontraria homens cultos, que lhe confundiriam a presunção.

- E não tem caridade – acrescentou outro – pois ainda há pouco tempo, quando o procuraram em Cafaraum para um sinal do Céu, fugiu para o monte, sob o protesto de fazer orações.

A noite começava a cair de todo. No alto brilhavam as primeiras estrelas. Jesus sentou-se com os discípulos, à margem do caminho, para um momento de repouso. André , Tiago e Felipe estavam espantados com o que tinham visto e ouvido. Aparentemente o Mestre aureolado de imenso êxito; entretanto, verificaram a profunda incompreensão do povo. Foi então que Jesus, com a serenidade de todos os instantes os esclareceu cheio de sua bondade imperturbável:

Não vos admireis da lição deste dia. Quando veio o Batista, procurou o deserto, nutrindo-se de mel selvagem. Os homens alegaram que em sua companhia estava o espírito de Satanás. A mim, pelo motivo de participar das alegrias do Evangelho, chama-me glutão e beberrão. Esta é a imagem do campo onde temos que operar. Por toda parte encontraremos samaritanos discutidores, atentos aos êxitos e referências do mundo. Observai a estrada para não cairdes, porque o discípulo do Evangelho não se pode preocupar senão com a vontade de Deus, com o seu trabalho sob as vistas do Pai e com a aprovação de sua CONSCIÊNCIA.

Espírito Humberto de Campos
Médium Francisco Cândido Xavier.
(atualizado em 29-01-2010.)

    


 

  

Os Essênios

Eram originários do Egito, e durante a dominação do Império Selêucida, em 170 a.C., formaram um pequeno grupo de judeus, que abandonou as cidades e rumou para o deserto, passando a viver às margens do Mar Morto, e cujas colônias estendiam-se até o vale do Nilo. No meio da corrupção que imperava, os essênios conservavam a tradição dos profetas e o segredo da Pura Doutrina. De costumes irrepreensíveis, moralidade exemplar, pacíficos e de boa fé, dedicavam-se ao estudo espiritualista, à contemplação e à caridade, longe do materialismo avassalador. Segundo alguns estudiosos, foi nesse meio onde passou Jesus, no período que corresponde entre seus 13 e 30 anos(veja link Jesus). Os essênios suportavam com admirável estoicismo os maiores sacrifícios para não violar o menor preceito religioso. Procuravam servir à Deus, auxiliando o próximo, sem imolações no altar e sem cultuar imagens. Eram livres, trabalhavam em comunidade, vivendo do que produziam. Em seu meio não havia escravos.

Tornaram-se famosos pelo conhecimento e uso das ervas, entregando-se abertamente ao exercício da medicina ocultista. Em seus ensinos, seguindo o método das Escolas Iniciáticas, submetiam os discípulos à rituais de Iniciação, conforme adquiriam conhecimentos e passavam para graus mais avançados. Mostravam então, tanto na teoria quanto na prática, as Leis Superiores do Universo e da Vida, tristemente esquecidas na ocasião. Alguns dizem que eles preparavam a vinda do Messias. Eram uma seita aberta aos necessitados e desamparados, mantendo inúmeras atividades onde a acolhida, o tratamento de doentes e a instrução dos jovens eram a face externa de seus objetivos. Muitos estudiosos acreditam que a Igreja Católica procura manter silêncio acerca dos essênios, tentando ocultar que recebeu desta seita muitas influências. Não há nenhum documento que comprove a estada essênia de Jesus, no entanto seus atos são típicos de quem foi iniciado nesta seita. A missão dos seguidores do Mestre Verdadeiro foi a de difundir a vinda de um Messias e nisto contribuíram para a chegada de Jesus. Na verdade, os essênios não aguardavam um só Messias, e sim, dois. Um originário da Casa de Davi, viria para legislar e devolver aos judeus a pátria e estabelecer a justiça. Esse Messias-Rei restituiria ao povo de Israel a sua soberania e dignidade, instaurando um novo período de paz social e prosperidade. Jesus foi recebido por muitos como a encarnação deste Messias de sangue real.

No alto da cruz onde padeceu, lia-se a inscrição: Jesus Nazareno Rei dos Judeus. O outro Messias esperado nasceria deum descendente da Casa de Levi. Este Salvador seguiria a tradição da linhagem sacerdotal dos grandes mártires. Sua morte representaria a redenção do povo e todo o sofrimento e humilhação por que teria que passar em vida seria previamente traçado por Deus. O Messias-Sacerdote se mostraria resignado com seu destino, dando a vida em sacrifício. Faria purgar os pecados de todos e a conduta de seus atos seria o exemplo da fé que leva os homens à Deus. Para muitos, a figura do pregador João Batista se encaixa no perfil do segundo Messias. Até os nossos dias, uma seita do sul do Irã, os mandeanos, sustenta ser João Batista o verdadeiro Messias. Vivendo em comunidades distantes, os essênios sempre procuravam encontrar na solidão do deserto o lugar ideal para desenvolverem a espiritualidade e estabelecer a vida comunitária, onde a partilha dos bens era a regra. Rompendo com o conceito da propriedade individual, acreditavam ser possível implantar no reino da Terra a verdadeira igualdade e fraternidade entre os homens. Consideravam a escravidão um ultraje à missão do homem dada por Deus. Todos os membros da seita trabalhavam para si e nas tarefas comuns, sempre desempenhando atividades profissionais que não envolvessem a destruição ou violência.

Não era possível encontrar entre eles açougueiros ou fabricantes de armas, mas sim grande quantidade de mestres, escribas, instrutores, que através do ensino passavam de forma sutil os pensamentos da seita aos leigos. O silêncio era prezado por eles. Sabiam guardá-lo, evitando discussões em público e assuntos sobre religião. A voz, para um essênio, possuía grande poder e não devia ser desperdiçada. Através dela, com diferentes entonações, eram capazes de curar um doente. Cultivavam hábitos saudáveis, zelando pela alimentação, físico e higiene pessoal. A capacidade de predizer o futuro e a leitura do destino através da linguagem dos astros, tornaram os essênios figuras magnéticas, conhecidas por suas vestes brancas. Eram excelentes médicos também. Nos escritos dos rosacruzes, são considerados como uma ramificação da Grande Fraternidade Branca, fundada no Egito no tempo do faráo Akenaton. Em cada parte do mundo onde se estabeleceram, eles receberam nomes diferentes, às vezes por necessidades de se proteger contra as perseguições ou para manter afastados os difamadores. Mestres em saber adaptar seus pensamentos às religiões dos países onde se situavam, agiram misturando muitos aspectos de sua doutrina a outras crenças. O saber mais profundo dos essênios era velado à maioria das pessoas. É sabido também que liam textos e estudavam outras doutrinas. Para ser um essênio, o pretendente era preparado desde a infância na vida comunitária de suas aldeias isoladas. Já adulto, o adepto, após cumprir várias etapas de aprendizado, recebia uma missão definida que ele deveria cumprir até o fim da vida. Vestidos com roupas brancas, ficaram conhecidos em sua época como aqueles que “são do caminho”.

Foram fundadores dos abrigos denominados “beth-saida”, que tinham como tarefa cuidar de doentes e desabrigados em épocas de epidemia e fome. Os beth-saida anteciparam em séculos os hospitais, instituição que tem seu nome derivado de hospitaleiros, denominação de um ramo essênio voltado para a prestação de socorro às pessoas doentes. Fizeram obras maravilhosas, que refletem até os nossos dias. A notícia que se tem é de que a seita se perdeu, no tempo e memória das pessoas. Não sabemos da existência de essênios nos dias de hoje (não que seja impossível), é no mínimo, pelo lado social, é uma pena termos perdido tanto dos seus preceitos mais importantes. Se o que nos restou já significa tanto, imaginem o que mais poderíamos vir a ter aprendido. Como sempre, é o máximo que podemos dizer: “uma pena”.

A Doutrina do Deserto
Eles respeitavam a vida acima de tudo, escreveram os mais antigos textos
bíblicos e influenciaram o cristianismo. Com vocês, os essênios.


Em 1923, o húngaro Edmond Szekely obteve permissão para pesquisar os arquivos secretos do Vaticano. Estava à procura de livros que teriam influenciado São Francisco de Assis. Curioso e encantado, vagou pelos mais de 40 quilômetros de estantes com pergaminhos e papiros milenares. Viu evangelhos nunca publicados e manuscritos originais de muitos santos e apóstolos, condenados a permanecer escondidos para sempre. De todas essas raridades, uma obra em especial lhe chamou a atenção. Era o Evangelho Essênio da Paz. O livro teria sido escrito pelo apóstolo João e narrava passagens desconhecidas da vida de Jesus Cristo, apresentado ali como o principal líder de uma seita judaica até então pouco comentada - os essênios. Szekely não perdeu tempo. Traduziu o texto e o publicou em quatro volumes. Sentindo-se traída pelo pesquisador, a Igreja o excomungou.

Não foi uma punição tão grave. Considere o que aconteceu com o reverendo inglês Gideon Ouseley. Em 1880, ele achou um manuscrito chamado O Evangelho dos Doze Santos em um monastério budista na índia. O texto em aramaico - a língua que Jesus falava - teria sido levado para o Oriente por essênios refugiados.

Manuscrito achado no
Vaticano afirma que Jesus
era essênio e vegetariano.


Ouseley ficou eufórico e saiu espalhando que tinha descoberto o verdadeiro Novo Testamento. Afirmava que a Bíblia estava incorreta, pois Cristo era um essênio que defendia a reencarnação e o vegetarianismo. Se hoje essa tese soa estranha, dizer isso na Inglaterra vitoriana do século XIX era blasfêmia da pior espécie. Resultado: os conservadores atearam fogo na casa de Ouseley e o original foi destruído.

O mistério que envolve esses dois textos e o tom místico que os descobridores deram aos seus achados acabaram manchando seu crédito diante dos historiadores. Além do mais, teorias exóticas sobre Jesus é o que não falta. Em 1970, o pesquisador inglês John Allegro, que já havia estudado os essênios, tentou provar que Jesus nunca havia existido e que teria sido uma alucinação coletiva causada pela ingestão de cogumelos. Por motivos óbvios, essa teoria não foi muito bem aceita pelos seus colegas cientistas. Segundo eles, Allegro entendia mais de cogumelos do que de Cristo.

Para os historiadores, os essênios seriam até hoje uma note de rodapé na História se, em 1947, dois pastores beduínos não tivessem por acidente levado a uma das maiores descobertas arqueológicas do século. Escondidos em cavernas próximas ao Mar Morto, em Israel, 813 manuscritos redigidos pelos essênios entre 225 a.C.


Fragmento de um dos 813 manuscritos
redigidos pelos essênios entre 225 a.C. e 68 d.C.

E o ano 68 da nossa era guardavam as mais antigas cópias do Antigo Testamento, calendários e textos da Bíblia. Perto das cavernas, em Qumran, estavam as ruínas de um monastério essênio e um cemitério com cerca de 1200 esqueletos, quase todos masculinos.

O achado deu início a um longo e árduo esforço de tradução dos manuscritos por teólogos e cientistas de várias universidades no mundo. Milhares deles estavam em pedaços minúsculos, menores do que uma unha. "Hoje, 90% dos textos já foram transcritos", diz o teólogo Geza Vermes, da Universidade de Oxford, que pesquisa os manuscritos. O que já é suficiente para moldar uma imagem mais precisa da história, da doutrina, da crença e dos hábitos essênios, que ficaram séculos a fio esquecidos nas ruínas daquele monastério.

O surgimento da doutrina essênia aconteceu em tempos conturbados. Os judeus viveram sob dominação de diversos povos estrangeiros desde 587 a.C., quando Jerusalém foi devastada pelos babilônios, habitantes da atual região do Iraque. Por volta do século II a.C., o domínio era exercido pelos selêucidas, um povo grego que habitava a Síria. A cultura helenista proliferava e a tradição hebraica sofria fortes ameaças. Para recuperar o judaísmo, os israelitas acreditavam na vinda do Messias que chegaria ao final dos tempos para exterminar os infiéis e salvar os seguidores da Bíblia. A chegada do Salvador poderia se dar a qualquer instante.

Os mais ortodoxos seguiam tão à risca os preceitos religiosos e buscavam a ascese e a pureza com tal fervor que ficavam chocados com os hábitos mundanos dos gregos e a presença de leprosos, cegos, surdos e cachorros passeando pela cidade e pelos templos. Entre eles estavam os essênios. Um dia boa parte deles, liderados por um sacerdote, partiu para o Deserto da Judéia (atual Israel) para orar, meditar e estudar as leis sagradas. Longe, bem longe, de tudo o que eles consideravam impuro. Surgia assim o monastério de Qumran, uma das primeiras comunidades monásticas do Ocidente.

A região escolhida para a construção do monastério é a de menor altitude no planeta -400 metros abaixo do nível do mar. As chuvas são raras e o mar é tão salgado que é impossível mergulhar nele, pois a enorme densidade da água mantém o banhista na superfície. Para prosperar, os bens individuais e as tarefas foram divididos entre toda a comunidade e regras de disciplina e de hierarquia foram instituídas. A presença de mulheres em Qumran, por exemplo, era proibida. Transgressões eram duramente punidas. A interpretação das leis e profecias cabia amestre da justiça, o mesmo sacerdote que teria guiado os essênios até Qumran. Ele era respeitado e cultuado por todos e logo virou uma entidade mítica. O guardião, por sua vez, presidia as refeições e decidia as questões a respeito da doutrina, justiça e pureza. Essa figura inspirou a formação da palavra grega "epis copus" (aquele que olha de cima), que foi a origem de "bispo".

Os monges do deserto
tinham obsessão pela
pureza e pela disciplina.


É possível conhecer o dia-a-dia dos essênios a partir do legado do historiador judeu Flávio Josefo (37-100). Aos 16 anos Josefo recebeu lições de um mestre essênio, com quem viveu durante três anos. Os membros da seita acordavam antes do nascer do sol. Permaneciam em silencio e faziam suas preces até o momento em que um mestre dividia as tarefas entre eles de acordo com a aptidão de cada um. Trabalhavam durante 5 horas em atividades como o cultivo de vegetais ou o estudo das Escrituras. Terminadas as tarefas, banhavam-se em água fria e vestiam túnicas brancas. Comiam uma refeição em absoluto silêncio, só quebrado pelas orações recitadas pelo sacerdote no início e no fim. Retiravam então a túnica branca, considerada sagrada, e retornavam ao trabalho até o pôr-do-sol. Tomavam outro banho e jantavam com a mesma cerimônia.

Os essênios tinham com o solo uma relação de devoção. Josefo conta que um dos rituais comuns deles consistia em cavar um buraco de cerca de 30 centímetros de profundidade em um lugar isolado dentro do qual se enterravam para relaxar e meditar.

Diferentemente dos demais judeus, a comunidade usava um calendário solar de 364 dias, inspirado no egípcio. O primeiro dia do ano e de cada mês caía sempre um uma quarta-feira, porque de acordo com o Gênesis, o Sol e a Lua foram criados no quarto dia. O calendário diferente trouxe vários problemas para os essênios. Outros judeus poderiam atacar o monastério no shabbath – o dia sagrado reservado ao descanso, no qual era proibido qualquer esforço, inclusive o de se defender.

A correta observação das regras garantiria a salvação dos essênios quando chegasse o apocalipse, que seria a vitória dos puros “filhos da luz” contra os “filhos das trevas”. No mundo essênio, aliás, tudo era dividido segundo uma visão maniqueísta que tornava possível até mesmo determinar quantas porções de luz e de escuridão cada um possuía. Um sectário de dedos rechonchudos, coxas grossas e cheias de pêlos teria oito porções na casa das trevas para uma de claridade. No mesmo manuscrito, um outro membro obteve um placar mais favorável. Por ter olhos negros e brilhantes, voz suave, dentes alinhados, dedos longos e canelas lisas seu espírito foi condecorado com oito partes de luz para uma de trevas. Para os essênios, a beleza do corpo também era sinal de pureza espiritual.

Graças a essa organização toda, Qumran produzia tudo de que precisava. A dieta era vegetariana. Os essênios tinham um enorme respeito pela natureza. Nenhum homem poderia sujar-se comendo qualquer criatura viva. A regra permitia uma única exceção. Eles podiam comer peixe, desde que fosse aberto vivo e tivesse seu sangue retirado. As refeições eram frugais, com legumes, azeitonas, figos, tâmaras e, principalmente, um tipo muito rústico de pão, que quase não levava fermento. Eles possuíam pomares e hortos irrigados pela água da chuva, que era recolhida em enormes cisternas e servia como bebida. Além dela, as bebidas essênias se resumiam ao suco de frutas' e "vinho novo", um extrato de uva levemente fermentado. No shabbath, os sectários deveriam passar o dia inteiro em jejum. Os hábitos alimentares frugais e a vida metódica dos essênios garantiam-lhes uma vida saudável. Segundo Josefo, muitos deles teriam atingido idade extraordinariamente avançada.


As cavernas de Qumran, em Israel, onde beduínos encontraram,
em 1947, os mais antigos textos bíblicos de que se tem notícia.


A água também era canalizada para os banhos rituais, que eles tomavam duas vezes ao dia para se redimir dos pecados e das impurezas do corpo. O ritual consistia em relatar todas as faltas e então submergir. "Essa prática influenciou o batismo e a confissão dos católicos", diz a historiadora Ruth Lespel, da Universidade de São Paulo. Outro ponto em comum entre os essênios e o catolicismo seria a figura de São João Batista, o profeta que batizou Jesus Cristo. O santo promovia batismos no Rio Jordão numa região próxima a Qumran.

Sua postura messiânica era muito próxima à dos essênios. Há quem acredite que, quando foi batizado, Jesus teria visitado o monastério e sido influenciado por sua doutrina.

Há outras relações entre essênios e cristãos. "Existem passagens dos Manuscritos do Mar Morto, aqueles encontrados em 1947 nas cavernas de Qumran, que soam como as do evangelho cristão", afirma James Vanderkam, da Universidade de Notre Dame, Estados Unidos. Traços da doutrina dos primeiros seguidores de Jesus - como o elogio de uma vida humilde, a proibição do divórcio e a invocação a Deus como um pai - têm ressonância na fé de Qumran. "É possível que essênios e cristãos tenham entrado em contato", diz o cônego Celso Pedro da Silva, do Mosteiro da Luz, em São Paulo.

Quanto a Jesus Cristo, apesar das descobertas e polêmicas levantadas por Ouseley e Szekely, não há nos manuscritos encontrados nas cavernas do Mar Morto uma única menção a ele. É por isso que o maioria dos pesquisadores duvida da teoria de que Jesus tenha se aproximado dos essênios. "Não existe nenhuma evidência concreta disso", diz o historiador Nachman Falbel, da USP Para o exegeta Valmor da Silva, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Jesus pode ter recebido influência das mais diversas correntes do judaísmo, inclusive deles. "Mas não dá para garantir que ele tenha freqüentado uma de suas comunidades".

Afirmar que Jesus se alimentava apenas de vegetais é ainda mais complicado.

"Eu duvido muito que Cristo tenha sido vegetariano, pois ele celebrou a páscoa judaica, que envolve alimentos como ovo, patas de cordeiro e frango", diz Vanderkam. Fernando Travi, líder da pequena igreja essênia do Brasil, tem um ponto de vista oposto ao de Vanderkam. "Cristo pregava o amor a todos os seres vivos e não matava animais para aliviar a sua fome", afirma. Assim como ele, os seguidores de Szekely e Ouseley duvidam da veracidade das passagens do Novo Testamento em que Jesus se alimenta de carne. Eles acreditam que essas histórias não passam de invenções criadas pelo apóstolo Paulo, já na segunda metade do século I. A doutrina do vegetarianismo não seria bem recebida pelos judeus, acostumados a fazer sacrifícios e a comer carne, e Paulo teria modificado os evangelhos para tornar o cristianismo mais popular. Um exemplo dessas alterações estaria na passagem do Novo Testamento em que Jesus multiplica pães e peixes para alimentar uma multidão. O Evangelho dos Doze Santos, encontrado por Ouseley traz uma outra versão desse milagre, na qual os peixes são substituídos por uvas.

No ano de 68 o monastério de Qumran foi aniquilado numa devastadora investida do exército romano que arrasou a Judéia e destruiu Jerusalém. O ataque era dirigido principalmente aos judeus zelotes, que se insurgiram contra o domínio romano. Qumran, que não era nenhuma fortaleza, foi presa fácil para as legiões do César. Mas nem todos os essênios morreram aí. Alguns fugiram para Massada onde, aí sim, no ano de 73, descobriram o que é um final trágico. O esconderijo, uma fortaleza zelote ao sul de Qumran, localizada no alto de uma colina, parecia impenetrável. Mas 15000 romanos fizeram um cerco que durou dois anos e metodicamente construíram uma rampa de terra e areia para alcançar o topo da fortaleza. Quando os soldados finalmente invadiram Massada tiveram uma surpresa: todos os 1000 rebeldes estavam mortos. Em um sorteio, os zelotes haviam escolhido um grupo de soldados para assassinar todos os habitantes da fortaleza e, em seguida, cometer suicídio. Eles preferiram morrer entre os judeus a se tomar escravos dos romanos. Sobraram para contar a história apenas duas mulheres e cinco crianças, que haviam se escondido nos reservatórios de água. O episódio foi relatado por Josefo e provou ser verdadeiro em 1965, quando arqueólogos pesquisaram a região. Eles acharam as marcas dos oito acampamentos romanos e pedaços de cerâmica com inscrições dos nomes dos zelotes, utilizados no dramático sorteio.


Filosofia enterrada na areia
Um pouco antes de um ataque romano destruir o monastério
de Qumran, os essênios esconderam seus manuscritos em
potes de cerâmica e os enterraram em cavernas.


Segundo Josefo, os essênios existiam em grande número em diversas cidades da Judéia. Mas algumas variações da seita podem ter ocupado regiões ainda mais distantes. Uma comunidade egípcia do século 1, os terapeutas, possuía um modo de vida semelhante ao da seita de Qumran e a mesma divisão entre luz e trevas. Também é possível que ebionitas e nazarenos, duas das primeiras seitas cristãs, sejam descendentes dos essênios. Há quem acredite que os nazarenos formaram uma grande comunidade em Monte Carmel, no norte da Israel atual, que seguia os ensinamentos de Qumran, mas com algumas diferenças. As regras seriam muito próximas daquelas encontradas nos escritos de Szekely e Ouseley. Ao contrário de Qumran, eles não praticavam o celibato e até mesmo formavam famílias. Fanáticos pelo princípio de amar todos os seres vivos, eram muito mais rigorosos em relação ao vegetarianismo: não comiam peixes nem matavam os vegetais para comer (comiam folhas de alface, por exemplo, sem arrancar o pé!).


Para os essênios, as
refeições devem ser uma
Comunhão com Deus.


“Eles viviam em tendas, que mudavam Del lugar freqüentemente, pois construções permanentes matariam a relva”, afirma Fernando Travi. Ele acredita que Jesus, apesar de ter passado por Qumran, viveu muito mais tempo em Monte Carmel. A região em que teria existido essa comunidade está próxima ao local em que Jesus nasceu e realizou muitos de seus milagres. Afirma também que Cristo não era conhecido como “Jesus de Nazaré”, mas sim como “Jesus, o Nazareno”.

Algumas dessas comunidades essênias existem, de certa forma, até hoje.
 

Flavio Josefo
A Filosofia Essênia.


Szekely pesquisou o pensamento dos essênios durante toda a vida. Uma de suas principais obras é a tradução de um manuscrito encontrado em 1785 pelo historiador francês Constantine Volney em viagens pelo Egito e pela Síria. É um diálogo entre Josefo e o mestre essênio Banus a respeito das leis da natureza. Eis alguns trechos:

Bem - Tudo aquilo que preserva ou produz coisas para o mundo, como "o cultivo dos campos, a fecundidade de uma mulher e a sabedoria de um professor".

Mal - O que causa a morte, como a matança de animais. Por esse motivo, o sacrifício de bichos, mesmo que para a alimentação, é condenável.

Justiça - O homem deve ser justo porque na lei da natureza as penalidades são proporcionais às infrações. Deve ser pacífico, tolerante e caridoso com todos, "para ensinar aos homens como se tornarem melhores e mais felizes".

Temperança - Sobriedade e moderação das paixões são virtudes, pois os vícios trazem muitos prejuízos à saúde.

Coragem - Ela é essencial para "rejeitar a opressão, defender a vida e a liberdade".

Higiene - Uma outra virtude essencial dos essênios é a limpeza, "para renovar o ar, refrescar o sangue e abrir a mente à alegria".

Perdão - No caso de as leis não serem cumpridas, a penitência é simples. Banus afirma que, para se obter perdão, deve-se "fazer um bem proporcional ao mal causado".

Na região sul do Iraque e do Irã, cerca de 38000 pessoas, os mandeans, mantêm uma tradição muito semelhante à doutrina essênia. Eles afirmam ser seguidores de João Batista e praticam o batismo. Sua origem, no entanto, ainda não é de todo compreendida.

No Ocidente, o essenismo surgiu com a divulgação dos escritos de Szekely e Ouseley. Na sua época, Szekely quase abandonou seus planos de difundir a doutrina quando a tradução rigorosa e detalhada que fez do segundo volume do Evangelho Essênio da Paz não contou com a aprovação de um amigo seu, o escritor Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo. "Isto está muito, muito ruim", disse-lhe Huxley, "é até pior do que o mais chato dos tratados enfadonhos dos escolásticos, que ninguém lê hoje em dia". Szekely ficou sem fala. Huxley continuou: "Faça-a literária, legível e atraente para os leitores do século XX. Tenho certeza de que os essênios não falavam uns com os outros em notas de pé de página".

A critica abalou Szekely e ele pôs de lado o trabalho durante muito tempo. Mas, anos mais tarde, seguiu o conselho do amigo e reescreveu o manuscrito inteiro em linguagem contemporânea, mais coloquial. Foi um sucesso. O livro, publicado em 1928, já foi traduzido para dezenas de línguas e vendeu milhões de exemplares em todo o mundo. Com o respaldo editorial, Szekely construiu em 1940 um spa no México onde praticava tratamentos com base nas práticas essênias. Cerca de 350.000 pessoas já se hospedaram no chamado Rancho La Puerta nos seus sessenta anos de existência. Até hoje, muitas pessoas vão ao lugar em busca de um estilo de vida baseado nos ensinamentos de Szekely, que inclui exercícios, meditação e, principalmente, dieta vegetariana.

A alimentação possui um papel central na doutrina encontrada nos evangelhos de Szekely e Ouseley. Ao afirmarem que Jesus era frugívero, ou seja, que ingeria apenas alimentos que não significavam a morte de nenhum ser vivo, como folhas e frutos, eles pregam que as refeições devem ser um momento de compaixão e comunhão com Deus. O contato com a natureza é essencial. Tanto que os novos essênios (veja o quadro nesta página) possuem uma planta em todos os cômodos da casa.
Os essênios permanecem como um assunto vivo. Os pergaminhos e evangelhos que eles deixaram são exaustivamente estudados por cientistas e religiosos do mundo inteiro. Seus ensinamentos recrutam milhares de fiéis e, qualquer que seja a relação que mantiveram com Cristo, deixaram, sem dúvida, sua influência impressa no coração e na mente do cristianismo.


Os Essênios Hoje.

Em 1984, o teólogo e filósofo americano Abba Nazariah fundou a Igreja Essênia de Cristo na cidade de Creswell, no Estado do Oregon, Estados Unidos. Tudo começou em 1966, quando tinha apenas 8 anos de idade. Naquele ano, Abba, que então se chamava David Owen, teria recebido a visita de Jesus Cristo, que, em carne e osso, teria lhe passado a missão de preparar a sua segunda vinda à Terra. Mais tarde, com 17 anos, Owen teria encontrado um egípcio de nome Zadok pedindo carona numa estrada da Califórnia, sentado na posição de lótus-a mesma do Buda. Ele afirmava ser um essênio e acabou ajudando Owen a formar a nova igreja.


Abba Nazariah

Desde então, Abba (o nome significa "pai" em aramaico) tem professado sua teoria e recrutado muitos seguidores. Seus adeptos vivem hoje de acordo com os ensinamentos contidos nas obras de Szekely e Ouseley. Diferentemente dos antigos habitantes da Judéia, os fiéis de hoje não habitam monastérios, mas, assim como os que os precederam, estudam com rigor as escrituras sagradas e reservam o shabbath ao descanso e às orações.

Os novos essênios são despojados. Vestem-se de branco, usam barba longa e cabelos que em alguns casos tocam o chão. Pregam uma vida saudável que passa por uma dieta absolutamente vegetariana e por exercícios espirituais. Fazem relaxamentos, meditações e preces. O reverendo Abba Nazariah foi treinado em várias técnicas de Yôga, com especial ênfase no que considera a mais holística e compreensível de todas, a ioga essênia - uma união de dezesseis modalidades da prática indiana. "A saúde depende do amor por todos os seres. Inclusive pelos animais", diz o líder dos essênios americanos.

Segundo a Igreja Essênia de Cristo, depois de dez anos de constante aperfeiçoamento, os féis se tornam aptos a receber a visita de Jesus. Eles também acreditam em reencarnação. Para o psicólogo paulista Fernando Travi, líder da igreja essênia no Brasil, "todas as pessoas iniciadas estão aptas a conhecer suas vidas passadas".

As atividades no Brasil são mais modestas. Elas se resumem a reuniões semanais para discutir a doutrina essênia e formas de melhorar a saúde de acordo com os evangelhos de Ouseley e Szekely. "Os essênios ensinam a nos relacionarmos melhor com a natureza e com o Cosmo", afirma Travi.

Artigo retirado da revista Super Interessante / agosto de 2000
Por Rafael Kenski e Duda Teixeira

(atualizado em 03-04-2010.)

    


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Atualizado em: 27-05-2010
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