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 O Culto do Evangelho no Lar
 

artigo publicado na revista “Reformador”, Ed. FEB
 
JAQUELINE S. LEAL FONSECA

 “Orar em família é ver derramar-se sobre ela o cálice aurífico dos céus, acondicionando-nos nesse imenso bojo de ventura que o Cristo traz a visitar-nos.” – Tereza de Brito (1) 

Conta-nos o Espírito Neio Lúcio (2), pela psicografia de Francisco C. Xavier, que Jesus, quando se asilava provisoriamente na casa de Simão Pedro, percebendo que o teor das conversações já descambava para a improdutividade, tomou das Sagradas Escrituras e, após colocações simples, por meio das quais trouxe à realidade daqueles Espíritos a importância do instituto doméstico, desenrolou os Escritos Divinos e convidou os familiares de Simão à palestra edificante e à meditação.

Iniciava-se o primeiro culto cristão no lar.

Mas, o que é o Culto do Evangelho no Lar?

Segundo André Luiz, na obra Desobsessão (3), trata--se de “estudo da Doutrina Espírita, à luz do Evangelho do Cristo e sob a cobertura moral da oração”.

O Culto do Evangelho no Lar (CEL) é o momento semanal em que, beneficiando-nos da companhia dos nossos familiares que comungam dos mesmos princípios religiosos que nós, podemos elevar o nosso pensamento ao Mais Alto através da prece reconfortante e do estudo e debate de problemas corriqueiros, do âmbito familiar ou social, à luz do Evangelho de Jesus decodificado pelo Espiritismo. É “a festiva oportunidade de conviver algumas horas com os Espíritos de Luz que virão ajudar-te nas provações purificadoras, em nome daquele que é o Benfeitor vigilante e Amigo de todos nós ”. (4)

Bom, mas para que serve o CEL?

André Luiz, no livro Conduta Espírita (5), diz que “quem cultiva o Evangelho em casa, faz da própria casa um templo do Cristo.”

Em primeiro lugar, podemos colocar o que os Espíritos nos dizem com relação às bênçãos familiares que podem ser recolhidas desta prática cultivada em várias religiões, que é a da leitura e interpretação dos textos do Evangelho.

Os momentos de culto são dedicados exclusivamente ao reduto doméstico. Portanto, ali os seus componentes estão à vontade para discutir suas dores e seus problemas, as dificuldades vividas no dia-a-dia e interpretá-las à luz da Doutrina Espírita. É um momento de intimidade, de troca de boas vibrações e de bons sentimentos, é um momento em que a Espiritualidade Amiga se destaca para acompanhar aqueles Espíritos que estão em luta juntos, na romagem carnal, a fim de que eles possam recolher os melhores benefícios daqueles minutos.

Orando juntos, segundo a nossa querida Tereza de Brito, no livro Vereda Familiar (6), nós nos utilizamos “das formidáveis bênçãos que movimentamos para o equilíbrio e para a presença da luz em nosso cenário doméstico”. Então, podemos concluir que o CEL contribui para a manutenção do equilíbrio e da paz doméstica.

Joanna de Ângelis, no livro Florações Evangélicas (7), coloca que, mesmo num ambiente familiar conturbado, em que existe a evidente reunião de Espíritos não afinados, quando se institui a presença de Jesus naquele lar, esta “(...) produz sinais evidentes de paz, e aqueles que antes experimentavam repulsa pelo ajuntamento doméstico descobrem sintomas de identificação, necessidade de auxílio mútuo.”

Durante o CEL, a família restaura suas forças despendidas ao longo da semana, enquanto eleva o padrão vibratório da casa, unificando os laços familiares por terem a oportunidade de partilhar conhecimentos e dores.

E no Âmbito Espiritual, qual a repercussão do CEL?

André Luiz, no livro Os Mensageiros (8), cap. 37, conta-nos que, após presenciar o CEL de D. Isabel, uma devotada companheira de Nosso Lar que ainda estava encarnada, cuidando de três filhos, e cujo marido a amparava e guardava o seu lar do Plano Espiritual, foi para o jardim de sua casa e observou curiosa cena. Ameaçava tempestade e, naquele momento, entidades de aspecto desagradável, algumas com formas até um tanto quanto aterradoras, arrastavam-se para sua direção, mas quando se aproximavam, recuavam, amedrontadas. Intrigado, perguntou ao seu Mentor, Aniceto, a razão daquela fuga repentina, como se tivessem aquelas entidades se encontrado com algo aterrorizante.

Aniceto, com toda a sua paciência e amor, disse a André Luiz que aqueles irmãos eram os “seres vagabundos da sombra”, que procuravam asilo nos dias de tormenta, porque ainda muito ligados às sensações grosseiras da carne, e por isso, os aguaceiros os incomodavam tanto quanto a nós encarnados. Disse que eles buscavam preferencialmente as casas de diversão noturna, sendo que as residências abertas também eram por eles penetradas, porque as viam como que da mesma matéria que lhes constituía o perispírito.

Aumentando, ainda, os conhecimentos de André Luiz, complementou Aniceto:

“Toda vez que se ora num lar, prepara-se a melhoria do ambiente doméstico. Cada prece do coração constitui emissão eletromagnética de relativo poder. Por isso mesmo, o culto familiar do Evangelho não é tão-só um curso de iluminação interior, mas também processo avançado de defesa exterior, pelas claridades espirituais que acende em torno. O homem que ora traz consigo inalienável couraça. O lar que cultiva a prece transforma-se em fortaleza, compreenderam? As entidades da sombra experimentam choques de vulto, em contato com as vibrações luminosas deste santuário doméstico, e é por isso que se mantêm a distância, procurando outros rumos...” (Destaque nosso.)

Joanna de Ângelis diz, em seu livro Messe de Amor (9), página “Jesus Contigo”, que nós distendemos da nossa casa a luz do Evangelho para o “mundo atormentado”. E diz, ainda mais, que a casa que ora beneficia a rua inteira, e que num prédio, um único apartamento em que haja CEL é capaz de iluminar todo o edifício.

Portanto, para que resguardemos o nosso lar dos Espíritos salteadores e vagabundos das Trevas, formando barreiras vibratórias capazes de os isolar, e para que possamos distender aos nossos irmãos que sofrem os benefícios que colhemos com a prece, mantenhamos o Culto do Evangelho.

E como podemos fazê-lo?

Joanna de Ângelis, na mesma página (10), fala-nos: “Prepara a mesa, coloca água pura, abre o Evangelho, distende a mensagem da fé, enlaça a família e ora.”

Todavia, indispensável que tomemos das palavras de Jesus como base para os comentários principais da noite.

André Luiz, no livro Os Mensageiros (11), cap. 35, conta--nos o que assistiu no Culto do Evangelho em casa de D. Isabel.

Disse o nosso Benfeitor Amigo que, primeiramente, a filha mais jovem proferiu a prece, ao que se seguiu que a filha mais velha leu uma página instrutiva consoladora e, logo após, uma nota triste do noticiário comum. Quando a leitura acabou, D. Isabel abriu o Novo Testamento, como se estivesse procedendo ao acaso, mas, em verdade, André Luiz viu que o marido de Isabel, do Plano Espiritual, intervinha diretamente na abertura do Livro Sagrado, ajudando a focalizar o assunto da noite.

E D. Isabel leu um versículo do Evangelho e o comentou, com o amparo de um Benfeitor Espiritual que a inspirava, fazendo alusão ao que a filha mais velha lera como página inicial e ao episódio triste do jornal leigo.

No livro Renúncia (12), romance mediúnico ditado por Emmanuel ao nosso querido Chico Xavier, Alcíone, protagonista da citada obra, em Culto do Evangelho na casa de seu pai, contara que quando vivia sob tutela do Padre Damiano e de sua mãe, na Espanha, “nunca nos reunimos no culto doméstico sem suplicar o socorro da inspiração divina” e que liam “apenas um versículo de cada vez e esse mesmo, não raro, fornecia cabedal de exame e iluminação para outras noites de estudo.” Dá agora para perceber por que Emmanuel escreveu quatro livros* comentando apenas um versículo de cada vez, em cada leitura edificante que fazemos...

Podemos, assim, concluir que, ao colocarmo-nos confortavelmente em torno da mesa com copos de água pura, a fim de que seja devidamente fluidificada, podemos proferir uma prece simples, e proceder à leitura de página edificante, de um recorte de jornal ou alguma reportagem de revista, além do versículo do Novo Testamento para que possamos, através dele, elucidar o que lemos previamente.

Contudo, podemos utilizar-nos dos recursos literários disponíveis na Doutrina Espírita, quais sejam: livros cujas páginas ou mensagens são lidas antes da prece inicial; leitura e comentários de O Evangelho segundo o Espiritismo ou do Novo Testamento; livros infantis que poderão ser utilizados por aqueles que têm filhos pequenos, dando-lhes, assim, o ensejo de participação ativa no CEL, lendo eles próprios alguma passagem de um livro infantil edificante, que conte alguma história do seu dia-a-dia na escola e que tenha a ver com o tema da noite, além do contato com o conhecimento espírita e a moral cristã contida no Evangelho de Jesus.

Ao final, que seja proferida a prece de agradecimento.

E não podemos esquecer de fixar um horário e um dia da semana específicos para o mister, o qual não deverá ser burlado nem relegado ao esquecimento. Joanna de Ângelis, na já citada página do livro Messe de Amor (13), é clara ao nos informar: “Não demandes a rua, nessa noite, senão para os inevitáveis deveres que não possas adiar.

Demora-te no Lar para que o Divino Hóspede aí também se possa demorar.” (Destaque nosso.)

É importante frisar que o CEL não é um momento para manifestações mediúnicas, salvo em situações extremas, em que se faça necessário a um Mentor Espiritual dar algum recado mais importante. Apesar de o CEL beneficiar alguns companheiros desencarnados que, porventura, estejam em nossa casa ou sejam trazidos até ela para se beneficiarem dos ensinamentos da noite, como exemplifica André Luiz no livro Entre a Terra e o Céu14, é muito importante que nos abstenhamos de dar passividade a Espíritos sofredores no âmbito doméstico, por ser medida de resguardo do lar, que não possui os aparatos devidos para as medidas de socorro necessárias a esses irmãos. Que os nossos companheiros desencarnados em sofrimento se manifestem na reunião mediúnica do Centro Espírita, que é a sua clínica de psicoterapia em grupo, sob a égide dos ensinamentos de Jesus.

Mas, e se só eu em casa sou espírita? Então não há CEL na minha casa?

Tereza de Brito, por intermédio de José Raul Teixeira, no livro Vereda Familiar (15), fala que “caso os seus familiares não concordem, por serem adultos e pensarem de maneira diferente, não se iniba. Ore e vibre com Jesus você sozinho, seja nos seus aposentos de dormir ou em alguma parte da casa onde você possa recolher-se por alguns momentos.” E se nos lembrarmos de que Joanna de Ângelis disse que podemos beneficiar um prédio inteiro, uma rua toda, o que não faremos àqueles que não participam do CEL mas vivem sob o mesmo teto que nós! “Se os teus se negarem compartir o ministério a que te propões, a sós, reservadamente na limitação de tua peça de dormir, instala a primeira lâmpada do estudo evangélico e porfia...” 16

Em contrapartida, diz que não devemos assim proceder quando temos filhos sob nossa tutela: “Se, todavia, os teus filhos estiverem, ainda, sob a tua tutela, não creias na validade do conceito de deixá-los ir, sem religião, sem Deus... Como lhes dás agasalho e pão, medicamento e instrução, vestuário e moedas, oferta-lhes, igualmente, o alimento espiritual (...)”.

Nós somos responsáveis pelos nossos tutelados e responderemos se, por acaso, eles falharem por omissão nossa. É nosso dever levar a eles uma educação moral com base na Lei Natural, que é a Lei de Deus, contida no Evangelho de Amor que o Cristo nos legou. Portanto, eles têm que participar do CEL, preferencialmente desde bem pequenos, quando já comecem a ensaiar o entendimento das coisas, para que se habituem à rotina semanal e para que incorporem tal hábito, levando-o, a posteriori, ao íntimo de seus futuros lares.

E afinal, é importante mesmo que o espírita faça o CEL todas as semanas, ou basta só freqüentar o Centro e ler os livros doutrinários?

Por vezes, o espírita desavisado, em especial quando pouco estuda as obras da Codificação e complementares, acha que, para que seu lar esteja devidamente protegido dos ataques dos Espíritos levianos e zombeteiros, basta que esteja cumprindo sua “escala” semanal no Centro Espírita e que, antes de dormir, faça a sua prece.

Entretanto, é importante, imprescindível mesmo, que todo espírita faça o CEL, independentemente do número de vezes que compareça ao Centro Espírita, porque a sua prática significa a proteção que o lar necessita contra as investidas das trevas. É mediante o CEL que o nosso lar adquire aquelas barreiras magnéticas mencionadas por André Luiz no cap. 37 de Os Mensageiros 17, citadas anteriormente. É através do CEL que colhemos os benefícios de apaziguamento das animosidades no lar, o aumento da cordialidade entre os que vivem sob o mesmo teto, a força necessária para resolver os problemas familiares de difícil solução, o estreitamento dos laços de consangüinidade.

Vale ressaltar que, independentemente do número de membros da família que ora unida, o importante, e que realmente dá valia às potencialidades magnéticas e vibratórias do Culto do Evangelho no Lar, é a boa intenção na sua prática, é a verdadeira ligação com os Mentores Espirituais, é a freqüência na sua realização e a mudança de atitude dentro de casa, que muito contribuirão para que se mantenha o clima de paz e harmonia que se segue aos minutos de leitura do Evangelho.

Instituamos o Culto do Evangelho em nossos lares, cuidando de nossos filhos para que lhes seja dado o devido encaminhamento religioso, o “pão da vida” de que Jesus nos falou, aquele que realmente nos sacia a fome de luz. E levemos aos irmãos que ainda não o cultivam a informação dos benefícios que ele proporciona, ensinando-os, ajudando-os nos dois ou três primeiros cultos, para que, assim, mais famílias possam recolher as luzes que nós já começamos a receber.

 Referências Bibliográficas:

1 TEIXEIRA, José Raul. Vereda Familiar. Pelo Espírito Tereza de Brito. 3. ed. Niterói: Ed. Fráter, 1995. 134 p., cap. 25, p. 99.

2 XAVIER, Francisco Cândido. Jesus no Lar. Pelo Espírito Neio Lúcio. 22. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1997. 213 p., cap. 1.

3 _______. Desobsessão. Pelo Espírito André Luiz. 15. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995. 248 p., cap. 70, p. 239.

4 FRANCO, Divaldo Pereira. S.O.S. Família. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 8. ed. Salvador: LEAL, 1998. 158 p., cap. Estudo Evangélico no Lar, p. 63.

5 XAVIER, Francisco Cândido. Conduta Espírita. Pelo Espírito André Luiz. 19. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1996. 155 p., cap. 5, p. 33.

6 Op. cit., cap. 25, p. 99.

7 FRANCO, Divaldo Pereira. Florações Evangélicas. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 3. ed. Salvador: LEAL, 1987. 192 p., cap. 3, p. 20.

8 XAVIER, Francisco Cândido. Os Mensageiros. 37. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. 268 p., cap. 37.

9 FRANCO, Divaldo Pereira. Messe de Amor. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 6. ed. Salvador: LEAL, 1993. 166 p., p. 162, cap. 59.

10 Idem, ibidem.

11 XAVIER, Francisco Cândido. Os Mensageiros, 37. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001, cap. 35.

12 ________. Renúncia. Pelo Espírito Emmanuel. 23. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1994. 464p., 2a parte, cap. III, p. 333.

13 FRANCO, Divaldo Pereira. Messe de Amor, cap. 59, p. 163.

14 XAVIER, Francisco Cândido. Entre a Terra e o Céu, 19. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001, cap. VI, p. 37.

15 Teixeira, José Raul. Vereda Familiar, cap. 24, p. 96.

16 Op. cit.. cap. Estudo Evangélico, p. 62.

17 XAVIER, Francisco Cândido. Os Mensageiros, 37. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001, cap. 37.

      


  

BIBLIOGRAFIA DE APOIO AO EVANGELHO NO LAR

Na realização do Evangelho no Lar, o grupo familiar deve apoiar-se em obras de conteúdo edificante, que serão comentadas à luz do conhecimento e da moral cristã.

A escolha do livro fica a critério do grupo, que optará por aquele com que mais se afinize e que provoque nos participantes maior interesse em ler e estudar.

Para alcançar o objetivo da reunião, "O Evangelho Segundo o Espiritismo", de Allan Kardec, tem sido o grande eleito. Nele encontramos as leis morais, universais e eternas, isto é, independentes de cultura, de raça, de religião e de época. São os textos do Evangelho de Jesus, comentados à luz da Doutrina Espírita, que funcionam como bússola, norteando nosso viver de acordo com as leis do Criador.

Além deste, os demais livros da Codificação podem ser utilizados, servindo principalmente à ampliação do conhecimento da Doutrina, como, por exemplo, o Livro dos Espíritos.

Para leitura complementar, visando à reflexão recomendam-se os livros de mensagens e outros, como, por exemplo:

Fonte Viva, de Emmanuel;

Palavras de Vida Eterna, de Emmanuel;

Estude e Viva, de Emmanuel e André Luiz;

Encontro Marcado, de Emmanuel;

Luz no Lar, de diversos autores;

Sinal Verde, de André Luiz;

Calma, de Emmanuel;

Roteiro, de Emmanuel;

Mais Luz, de Batuíra;

Coragem, de diversos autores;

Minutos de Sabedoria, de C. Torres Pastorino;

Minutos de Luz, de C. Torres Pastorino; etc.


ROTEIRO


Iniciar a reunião com uma prece simples e espontânea.

Proceder à leitura de um tema edificante, buscando sempre a essência dos ensinamentos de Jesus e aplicação na vida diária.

Fazer comentários ao tema lido.

Fazer vibração pelo lar onde realizada a reunião, pelos presentes, familiares, amigos e necessitados, no sentido de harmonia, paz, tranqüilidade e equilíbrio.

Encerrar com uma prece.

OBSERVAÇÕES, CUIDADOS E SUGESTÕES


Observações:

A escolha do local, na casa, deve atender exclusivamente à conveniência do grupo familiar, podendo variar à vontade.

O dia da semana e o horário mais adequados a todos os participantes devem ser escolhidos livremente.

O tempo de duração é flexível.

Cuidados:

Uma vez escolhidos, o dia da semana e o horário de realização do Evangelho no Lar devem ser respeitados. Assiduidade e pontualidade são importantes para o bom contato com o Plano Espiritual.

Não transferir ou suspender a reunião em virtude de visita inesperada, hóspedes (podendo-se convidá-los a participar da reunião), compromissos de última hora, etc.

Não transformar a reunião em trabalho mediúnico.

Tomar todo o cuidado para não criar polêmicas, acusações ou desvio para outros assuntos.

Sugestões:

Pode-se colocar água para ser fluidificada pelos Espíritos presentes, no transcorrer da reunião.

Música suave pode contribuir para melhor ambientação, auxiliando as vibrações e preces.

Quando houver crianças, é recomendável que se escolham livros apropriados com "Jesus no Lar", "Alvorada Cristã", "O Evangelho da Meninada".

Podem ser feitas leituras complementares alternativas (jornais, revistas, atualidades) que ofereçam conteúdo adequado à reflexão, conforme os objetivos do Evangelho no Lar.

Grupo Espírita Batuíra – São Paulo

    


  

Disciplinar educando

 Texto de José Francisco Costa Rebouças

É bastante comum nos dias de hoje, o comentário de pais, professores e, da sociedade em geral sobre o comportamento indisciplinado de crianças e jovens de todas as faixas etárias; palavrões, brigas, desrespeito aos mais velhos, desleixo, indiferença, preguiça, teimosia, iniciação sexual precoce, gravidez na adolescência, fumo, bebida, pichações, etc., entre outros tantos exemplos que podem ser citados, que caracterizam esse comportamento inadequado que infesta nossa sociedade em todas as suas camadas, não sendo privilégio de negro, branco, rico, pobre, sexo feminino ou masculino.

Infelizmente, olhando o problema de forma neutra e raciocinada, chegaremos à triste conclusão de que nós pais somos os grandes responsáveis pelo comportamento equivocado de nossas crianças e jovens, pois eles são tão somente o reflexo de uma sociedade desordeira que ajudamos a construir, investindo tudo na formação intelectual dos nossos filhos e esquecendo-nos de que eles são antes de tudo filhos de Deus, seres eternos, trazendo consigo tendências e aptidões, que devem ser lapidadas por todos nós responsáveis perante Deus pela sua educação e aprimoramento.

A formação moral, é normalmente relegada a segundo plano ou transferida para a escola, como se a escola tivesse a capacidade de substituir o papel de nós pais, na formação moral de nossos filhos, para que tivéssemos mais tempo para a busca desenfreada de aquisições da posse de bens materiais para nosso deleite.

Há, ainda, a situação das crianças filhas de pais separados, que empurram um para o outro a responsabilidade da educação dos filhos, e que por razões diversas nem sempre conseguem atender convenientemente as carências das crianças, e ainda colaboram para esse comportamento rebelde, pois se tratam em muitos casos de forma desrespeitosa na frete dos próprios filhos, com brigas infindáveis, ódios, disputas judiciais, desejo de vingança, atitudes tais que nada de positivo acrescentam na formação de um comportamento educado, como deveria ser.

Por conta dessa atitude irresponsável, a televisão assumiu na atualidade o papel de companheira e educadora de muitas de nossas crianças e jovens, que passam mais tempo assistindo a programas sem nenhum conteúdo moral e quase sempre recheados de pornografia e violências, do que em sala de aula ou com atividades úteis à formação de seu caráter como membro ativo da nossa sociedade.

Considerando essa variedade de fatores, que até certo ponto explicam os problemas apresentados por nossas crianças e jovens, não podemos esquecer também que eles são Espíritos reencarnados, trazendo tendências e aptidões desenvolvidas em vidas passadas e que os mesmos possuem afetos e desafetos no mundo espiritual, influenciando-lhes direta ou indiretamente o comportamento e como em regra geral somos devedores da Lei maior, essa influência é na maioria das vezes prejudicial, perniciosa, negativa.

Foi por essa razão que Deus, a Inteligência Suprema, entregou-nos esses espíritos em forma de criancinhas indefesas, prontas para que pudéssemos amoldá-las sob nossos cuidados desde cedo, para que cresçam e se desenvolvam de forma equilibrada, não somente no aspecto físico do pequenino ser, mais e principalmente no aspecto moral, espiritual, que é na verdade do que mais carece, motivo pelo qual aqui está de volta.

Por isso é que se faz imprescindível procurarmos desenvolver a disciplina no aspecto Preventivo, que é aquela trabalhada pelos pais desde a gestação, manifestando o sincero desejo de receber o futuro filho, acariciando-o desde sua concepção quando ainda na barriga de sua futura mãe, envolvendo-o em vibrações de amor e paz, estendendo-se por todas as fases do desenvolvimento biopsicossocial da criança.

À medida em que o pequenino ser vai crescendo, faz-se mister que os pais comecem a estimular em seu filho a disciplina externa que é necessária para estruturar a interna pois que a criança entregue a sí mesma dificilmente se disciplina, a presença e o exercício da autoridade paterna e materna é indispensável na construção da sua autonomia, destacando-se nessa fase a colocação de limites, de regras a serem respeitadas.

É agindo desde cedo no cuidado com a educação de nossos filhos, que evitaremos mais tarde o recurso duro da disciplina no seu sentido Punitivo, que é aquela aplicada nos presídios, nos lares onde os pais corrigem com violência seus filhos, nos países onde o crime é punido com outro crime (pena de morte, etc...), e que, inevitavelmente não promove, nem remove as causas da indisciplina.

O homem deve se espelhar no exemplo que nos dá a mãe natureza que possui uma disciplina sem a qual os mares invadiriam as regiões continentais, os continentes gelados se derreteriam, as cadeias alimentares entrariam em desequilíbrio, os planetas colidiriam uns com os outros e que o não seguimento das lições que recebemos por obra da vida incessante, nos leva a incorrer num grave erro de associar disciplina a surras e agressões, o que não é recomendado, pois esse tipo de postura já é violência e não disciplina.

Como bem descreveu a respeito dessa forma de disciplinar Pedro de Camargo no livro O Mestre na Educação, "Para bem agirmos em prol do saneamento, precisamos partir do seguinte princípio: o crime não é o criminoso, o vício não é o viciado, o pecado não é o pecador, o doente não é a doença. Assim como se combatem as enfermidades e não os enfermos, assim também se deve combater o crime, o vício, e o pecado, e não o criminoso, o viciado e o pecador".

Theobaldo Miranda Santos no livro Noções de filosofia da Educação, afirma: "os castigos ministrados com raiva até acentuam a revolta da criança. É necessário que ela perceba na correção de que é objeto o propósito de seu aperfeiçoamento”.

A verdadeira disciplina a ser desenvolvida por nós pais há de ser um dia aquela que leve com amor e carinho os nossos rebentos a Reparar, o mal que hajam praticados de maneira a corrigir o que errou, consertar o que quebrou, repor o que retirou, desculpar-se com quem ofendeu, fazendo sempre a ação contrária e correta a que foi considerada uma indisciplina, conscientizado do seu erro, e buscando de maneira adequada a extinção da ação negativa.

Esta é a única forma que entendemos como capaz de ir até as causas reais da indisciplina, que se localizam no Espírito Imortal que Allan Kardec, diz que residem no instinto de conservação exagerado e no desconhecimento do passado e do futuro do Espírito, só esse conhecimento pode minimizar a crença na superioridade individual, o orgulho e o egoísmo, que conduzimos em nosso cerne.

É com a disciplina reparadora que a criança conseguirá ser um adulto realizado, nas palavras de Joanna de Angelis, libertando-se de sentimentos de culpa, da censura social, estruturando sua disciplina interna e utilizando seu livre-arbítrio sempre para o bem, para o positivo.

Allan Kardec, diz-nos em O Céu e o Inferno, "Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas conseqüências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; mas só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa".

Finalizando, queremos enfatizar a necessidade urgente de investirmos cada vez mais na educação do espírito imortal, se pretendemos fazer da terra um mundo feliz, habitado por homens inteligentes e bons regidos pela disciplina da paz e do amor. Agindo assim, estejamos certos de que contribuiremos de maneira positiva para uma sociedade mais justa e equilibrada, solidificada nas ações nobres do respeito, do trabalho e da justiça, contribuindo para a saúde psíquica da nossa juventude e por conseqüência da nossa sociedade e por fim do nosso planeta.

 

(atualizado em 22-08-08)

    


  

Psicologia Infantil

 Texto extraído do Capítulo 14 do livro Mais Além de Meu Olhar, por Luiz Sérgio.

(...) Uma jovem psicóloga iniciou uma palestra sobre educação da criança, isto é, o ser, desde o berço, ou melhor, o ventre. Com que carinho ela mostrava o desenvolvimento da criança, do jovem e do adolescente:

Muitos pais, ou a maioria deles, não estão preparados para educar, porque também são doentes, também receberam educação errada. Muitos pais não gostam de dar uma palmada no seu filho, mas abusam do chicote verbal, usando palavras duras, que a criança jamais esquecerá. Todos os pais devem tomar cuidado especial com as palavras usadas para qualificar os filhos. Existem pais que adoram chamar o filho de débil mental. Vindo dos pais, essa agressão surte um efeito dramático na criança ou no jovem, que começa a construir sua própria identidade: se os pais o consideram um débil mental, imagine os outros, os seus amigos, os seus professores! Hoje os pais julgam estranho o comportamento dos filhos, mas estes não são os únicos culpados. Portanto, a família deve urgentemente voltar a viver como família: pais respeitando filhos e filhos respeitando pais. O suicídio entre adolescentes tem aumentado e os jovens estão sofrendo distúrbios emocionais, sendo tratados com tranqüilizantes São muitos os exemplos de mães que, por se julgarem mal amadas, adoram gritar com as crianças, as vezes dizendo por dizer: você é má, você não presta! E se estão-se separando dos maridos, há o desabafo infeliz: você é mau, igualzinho ao seu pai! Muitas vezes essas crianças tornam-se neuróticas, vindo a sofrer de depressão, por efeito da baixa estima.

Muitas crianças hoje quase não conversam com os pais. As mães não querem assumir a maternidade, pois vivem se embelezando e raras noites ficam em casa. Estas crianças sentem o abandono dos pais e vão ficando agressivas nos colégios, junto aos coleguinhas; são crianças que mordem, batem e falam palavrões. Elas querem agredir o mundo, pois se julgam agredidas, por sentirem-se abandonadas. Os pais, principalmente os espíritas, não têm o direito de tratar os filhos com violência; eles não devem se descontrolar diante dos filhos, porque vão provocar graves danos psicológicos. Hoje culpa-se muito o adolescente, mas eles, as crianças, o adolescente e o jovem estão sem orientação, principalmente sem ídolos, sem exemplos. Muitos pais estão distantes dos filhos, ignorando mesmo se eles existem.

A busca de conforto está levando a família a uma falta de amor. Os ocupantes de um lar quase não se encontram e quando isso ocorre não sabem dialogar. E os jovens estão cada vez mais distantes dos mais velhos. Existe hoje uma separação, o jovem parece ter aversão aos mais idosos, como se estes não soubessem falar a sua língua. De quem é a culpa? Da família, que evita participar da vida dos filhos, ignora os seus amigos, os seus sonhos, enfim, existem pais que levam os filhos à insegurança. E eles, lá fora, na sociedade, fazem tudo para aparecer, são agressivos, duros e mal educados.

Está na hora de se debater a relação entre pais e filhos e os especialistas alertam para a violência verbal. A irritação que vem acompanhada de palavras, gritos e gestos tende a aumentar o trauma nas discussões. A família tem de respeitar a criança, o adolescente, o jovem, enfim, quem respeita é respeitado. Os pais têm de ensinar aos filhos o que é o amor, não ter vergonha de pedir desculpas e dizer o quanto o filho é amado e importante na sua vida.

Quando a criança é pequena, o maior mal que a mãe lhe causa é a verborragia não só as palavras agressivas ferem a criança, mas também o excesso de palavras, ditas sem parar e com pouco conteúdo, provocam em qualquer ouvinte impaciência, cansaço e revolta, e a comunicação entre pais e filhos se perde. A mãe que fala ininterruptamente serve de deboche aos filhos, que riem dela. É, para eles, uma coitada.

A mãe que a todo momento grita o nome do filho, este faz de conta que é surdo. Ele tem razão, para que escutar o que nada de bom lhe traz? Por isso as mães têm de tomar cuidado para não ficar gritando: 'Fulano! Fulano! Fulano, não faça isso!' O certo é a mãe aproximar-se e dizer: 'filho, não faça isso, porque não está certo'. Explicar por que ele não deve fazer aquilo. Porém, mãe que “ Mia” é tão agressiva como a que grita e fala palavrão. Educar um filho não é difícil, quando os pais têm educação e não são neuróticos.

A finalidade das nossas aulas é a de que, em todos os grupos de evangelização infanto-juvenil os educadores passem aos educandos confiança, mostrando-lhes que a Casa Espírita está ciente do que a vida está-lhe passando; que a Casa Espírita conhece o mundo lá fora, o que está ocorrendo com eles. Falar a verdade, sem crendices; fazer a criança, o adolescente, o jovem, se abrirem, contar o que se passa na sua escola, no seu grupo de colegas e no seu lar. Se não for assim, a Casa Espírita não conseguirá trazê-los para suas fileiras. Eles têm de amar a Doutrina, encontrar Jesus e respeitar as leis de amor a Deus. O trabalho da Doutrina é com a família, é educá-la, Hoje, entristece os Espíritos que trabalham nas Casas Espíritas o comportamento de muitas juventudes ditas espíritas: as meninas quase nuas, sem o mínimo respeito a uma Casa de Oração. Os meninos na deles indo à Mocidade apenas para se divertir. A finalidade é tornar a criança de hoje o grande Espírita de amanhã. Os instrutores devem estar cientes da influência que suas palavras podem ter no discernimento de seus
educandos. Não que devam dar conselhos, pois o excesso de conselhos às vezes causa revolta na juventude, que reage com indiferença ou críticas. O professor é referência.

Se ele tem um discurso agressivo e ofensivo, só falando de Umbral, de obsessores, de influenciação, o aluno perde a vontade de freqüentar o Centro Espírita. Porém, se o instrutor colocar-se ao lado do educando, ele se sentirá protegido e verá que, mesmo convivendo com os ditos “ mortos” , o instrutor é um homem igual a ele. No momento atual, não podemos dar uma aula de Evangelização como se estivéssemos à frente de inocentes crianças. Elas estão em busca de apoio. Uma criança de seis anos, às vezes, fica defronte da televisão umas dez horas, e quanta informação ela recebe? Será que ela deve ser educada como se inocente fosse? Claro que não.

Temos de informá-la de acordo com o que vê em casa, com o que assiste no vídeo. As aulas de Evangelização devem falar do que hoje assusta os pais e educadores: a gravidez precoce, não só mais das adolescentes, as doenças sexualmente transmissíveis, que levam as meninas de quatorze anos a contraírem o vírus HPV, que lesa o útero e causa o câncer.

Quantas meninas estão tendo os seus úteros e ovários retirados, sem esperança mais de engravidar! Já imaginou a cabeça de uma adolescente nesse estado, de ter de sofrer a perda de seus órgãos? Precisamos levar até o mundo físico um pouco de esperança e de fé. Os espíritas têm de levar para seus lares a Doutrina. Por que só os
Espíritas têm dificuldade em contagiar a sua família com as verdades do Cristo?”

A palestrante fez uma pequena pausa e  Luiz Sérgio aproveitou para refletir sobre tudo o que escutara.

"Aquela psicóloga alertava os encarregados da Evangelização infanto-juvenil, para que os espíritas se inteirem do que acontece na sociedade, porque os encarregados de levar a palavra de Deus aos homens não podem se refugiar em suas Casas ou templos, longe do mundo louco de hoje".

Dando continuidade a sua preleção, prosseguiu:

Pais e avós não podem viver culpando os companheiros dos seus filhos como responsáveis pelo que lhes acontece de errado. De quem é a culpa, então? perguntamos.

Dos pais, que não estão atentos às informações erradas que seus filhos vêm recebendo da mídia. As imagens claras de sexo chegam às crianças, aos adolescentes, jovens e adultos, nas capas dos principais semanários, revistas, out-doors nas ruas, nas propagandas de tevê. A publicidade hoje traduz a época atual, ou melhor, as transgressões atuais. Não somente as telenovelas passam ao público o adultério como um fato comum, onde casais não têm vínculo moral um como outro, como as revistas de homens e mulheres sem roupas fazem apologia às perversões, tendo o sexo como tema principal da vida. Que quer a publicidade? Vender seu produto ao público ou chocar a sociedade? Achamos que o que se vê na mídia é uma realidade cruel de falta de valores morais do homem. Será que a sociedade de hoje está aceitando costumes que ontem considerava obscenos, perversões? Será que ninguém pára um pouco e pensa em analisar a poluição visual que vem ocorrendo, quando os valores morais da família estão sendo abafados, oprimidos, pelos excessos de uma propaganda descontrolada do sexo, como se este fizesse parte da vida do homem vinte e quatro horas por dia? Sabemos que isso não é verdade. O homem luta, estuda, trabalha, portanto, tem muito mais deveres a cumprir do que se perder no mundo irreal do sexo atual. Crianças, adolescentes e jovens, e mesmo os adultos, estão sendo iludidos por uma propaganda enganosa.

Sabemos que existem aqueles que estão resistindo a essa poluição visual, aqueles que ainda possuem família, que estão preocupados com a imagem que criam. Esses sabem que a sociedade violenta de hoje tem por causa a liberdade excessiva dada aos filhos, porque surgiu uma teoria de que, para não se tornarem neuróticas, seus pais tinham de deixar as crianças destruírem seus lares, criá-las sem limites. E é isso o que estamos colhendo hoje. Se ontem as crianças quebravam os brinquedos, os adornos dos lares, brigavam entre si, enfim, tomavam os lares um inferno, com o passar dos anos a violência saiu dos lares e chegou às escolas e à sociedade. Hoje, mulheres em pose sensual fazem propaganda de refrigerante, de caramelos, só faltam fazer de mamadeiras.

Mesmo sabendo que não é ético, as agências de publicidade acham que sexo vende. Acreditamos que o homem logo estará saturado de todo esse lixo que hoje polui a mente de todos. Até quando isso irá acontecer, e as autoridades competentes o que fazem para defender a família? Porém, quem deve hoje defender o seu lar é a família, dando aos filhos explicações seguras do que é certo e do que é errado. Existe algo certo e algo errado? O que pode ser considerado errado para um é certíssimo para outro. O melhor é analisarmos se todos aqueles que se dizem liberados, que acham tudo amoral correto, são felizes. Temos a certeza de que não.

O tempo se encarrega de provar que tudo o que não tem um freio se precipita no abismo da dor e do remorso, e a mulher é a maior vítima da libertinagem que atualmente assola o Planeta. As mulheres de hoje, que lutam com os homens no mercado de trabalho, não podem deixar de lado as obrigações familiares: filhos e casa.

Portanto, estas mulheres têm problemas sérios de estresse. Não têm tempo de se dedicar às práticas sexuais vinte e quatro horas por dia e se sentem fracassadas, porque a mídia cobra da mulher um comportamento completamente impossível de ser real: a mulher fatal, a mulher desejada. E sabemos que, se elas existem, são minoria. As verdadeiras mulheres, com M maiúsculo, são boas mães, boas filhas, boas irmãs e ótimas profissionais. Porém, as mulheres que enfeitam as capas das revistas e dão conselhos sobre sexo, que enfeitam os outdoors com poses sensuais, não são as preferidas dos homens? Podem até ser, mas todos os homens adoram um colo materno e sonham com uma mulher inteligente e digna.

Principalmente a mulher mãe de família não deve esquecer que aquela que está nua nas revistas, endeusada pela mídia, é uma profissional, ganha para isso, é o seu trabalho. Não podem as donas de casa, as crianças, as adolescentes, as jovens ou as adultas desejar imitá-la, porque a realidade da vida do homem não está só no sexo. Sua parte intelectual é muito mais ativa do que muitos pensam. Se ninguém faz sexo vinte e quatro horas do dia, por que tanta propaganda, tanto chamado para a libertinagem? Onde fica a verdade para as crianças, para os adolescentes e para os jovens?

Os Espíritos que trabalham no plano físico sabem que há crianças de sete anos que dizem ao namoradinho do colégio que lhe dá um beijo no rosto: eu não quero só beijo, eu quero “ ficar” . E os pais riem, acham engraçadinho. Por que isso vem ocorrendo? E a publicidade excessiva da sexualidade, as maiores vítimas são as crianças, os adolescentes e os jovens e ninguém está tentando fazer algo por eles. A cada hora dão entrada nos hospitais crianças estupradas, violentadas, agredidas por namorados, amigos e familiares. A sociedade, antes, assustava-se quando isso acontecia, mas agora ninguém se assusta mais. É comum encontrarmos nos lugares públicos pais e avós cuidando de netos, de bisnetos, porque os verdadeiros pais são crianças ainda, sem maturidade para assumir um filho. Só que não param por aí, continuarão “ ficando” , porque as imagens claras do sexo provocante estão por toda parte, e eles, moderninhos, não podem ficar de fora. E a família, passiva, nem mais se importa se a filha não volta para casa, se o filho chega “ doidão” ; tudo está-se tornando mais que natural. Isso passa, é coisa de adolescente ...... comentam alguns e dizem os publicitários: a sociedade está mais sofisticada, exige mais. E a poluição visual está na rua e nos lares.

Por que muitos que falam a palavra do Senhor também não encontram tempo para educar seus filhos? São espíritas nas Casas Espíritas, mas ninguém da família vai ao Centro, a não ser quando está precisando. A Espiritualidade sempre escuta alguns Espíritas dizerem: somos liberais, não obrigamos nossos filhos a nada. O “ nada” é a Doutrina, é o acesso às leis morais. Com pesar, a Espiritualidade vem constatando que a família de poucos espíritas freqüenta uma Casa Espírita. Mesmo os trabalhadores, seus filhos e netos nada querem com Jesus, estão no mar do materialismo, dizendo aproveitar a vida. Eis por que os irmãos aqui se encontram: para serem alertados e levarem o pedido de socorro para que os espíritas se unam. Que todas as Casas se levantem em prol da família. Vamos avaliar os atos de nossos filhos, quais são os seus valores, o que acham da Doutrina.

Se eles consideram seus pais apenas espíritas, que não conseguiram transformá-los em homens de fé, está na hora de alertá-los de que ninguém deve viver sem Deus. Se não gostam do Espiritismo, que busquem outra crença. O Espiritismo precisa de corações que amem e que lutem para viver as lições do Mestre . Se a família acha que não tem condição de postular os ensinos espíritas, que não brinque com os Espíritos. É comum filhos de espíritas se dizerem espíritas, mas não possuírem valores morais, encontrando-se bem longe de compreender a grandeza da Doutrina.

Será que o jovem espírita está-se conscientizando do que a Doutrina ensina: o respeito à encarnação? Quantos espíritas ainda acham que alguns tragos de bebida nenhum mal lhes causam, que a Doutrina nada proíbe, que qualquer espírita pode dar festas regadas pelos mais finos licores, champanhe e vinhos caros!... Eles têm razão, a Doutrina nada proíbe, mas esclarece o quanto o álcool, o fumo e a droga fazem mal ao homem, como destroem a família. Vamos conscientizar a família das belezas do Espiritismo. Devemos levar até a criança, o adolescente, o jovem, o adulto, a grandeza dos livros doutrinários, mostrar os caminhos por onde passaram os grandes homens e
descobrir o valor dos verdadeiros espíritas que já tivemos e temos em nossas fileiras.

Sabemos que a Doutrina é uma cascata de luz, por isso não devemos esquecer as nossas Casas. Será que elas vêm recebendo o amor que deve fluir dos corações quando nos propomos a trabalhar em prol dos nossos irmãos? Hoje, na era moderna, a Casa Espírita não pode ignorar a droga, o sexo e a gravidez na adolescência, porque esses fatos estão em quase todas as famílias. O verdadeiro espírita já foi apresentado a Deus e bem conhece Suas leis: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Se ele ainda não sabe amar, não pode ensinar ninguém a ser bom. Por isso, frisamos: vamos sair um pouco dos nossos gabinetes e olhar o mundo lá fora, buscando as informações, enfrentando a realidade; e não é preciso ir longe, basta assistir, em nossos lares, às ditas novelas de televisão, que mostram um garoto sendo ridicularizado porque é bom aluno e não tem tempo de namorar; sua idade: dez anos. Também nos lares chegam, através da televisão, imagens de outras crenças falando horrores do Espiritismo. Como ignorar esses fatos? Por isso precisamos amar a Doutrina como ela é: pura e cristalina. O que precisamos é olhar quem busca a Doutrina e dar-lhe o muito que aprendemos, sem colocar armadura de soldados romanos, vestes de antigos cardeais, roupa de Pilatos, ornamentos de Herodes e ficar atirando pedras nos companheiros. A Doutrina está bem longe dessas coisas.

Digamos aos jovens espíritas brasileiros que, mesmo vivendo em um mundo difícil, não se contaminem e lutem pela Doutrina, pois alcançarão muitas vitórias. E àqueles que só desejam celeuma, as nossas preces, para que Jesus consiga colocar as mãos sobre os seus olhos, cegos de orgulho e vaidade. Muitos momentos difíceis viverão os espíritas em terras brasileiras. Algumas Casas Espíritas serão caluniadas, médiuns respeitáveis serão vítimas de obsessores encarnados, porém, o Cristo não deixará sem amparo o exército de Deus, que vem protegendo os homens desde os primórdios da Humanidade, exército este composto de plêiades de Espíritos que têm, Por incumbência levar o homem à Terra Prometida. Esses Espíritos mensageiros estarão sempre ditando mensagens para que os carteiros levem até os médiuns as orientações do mais Alto.

O que mais preocupa a Espiritualidade é a falta de orientação familiar. O certo seria a família colocar limites em seus filhos e orientá-los de que, antes de fazer sexo, deve-se pensar nas conseqüências. Também nos colégios, é preciso levar grupos para fazer palestras, distribuir panfletos e responder perguntas dos alunos. Os pais, mesmo se dizendo modernos, ainda não acreditam que seus filhos de treze, catorze anos já têm vida sexual ativa. As autoridades têm de lembrar que uma menina de onze ou doze anos, que se julga madura o suficiente para fazer sexo, não possui corpo nem mente prontos para isso. Se hoje deparamos com o crescimento da gravidez na adolescência, significa que os jovens estão mal informados, pois não estão usando preservativos, expondo-se a doenças sexualmente transmissíveis. E todos sabem que no Brasil a Aids já afeta mais de quatro mil e quinhentos jovens, entre treze e dezenove anos. Se perguntarmos aos jovens: “ seus pais lhes passam alguma informação?” Eles responderão: “ não, na minha casa meus pais são muito fechados; eles nem imaginam que há muito já tenho vida sexual ativa” .

Por que os Espíritos estão alertando a família e mandando às Casas Espíritas o alerta? Porque sua finalidade é salvar o homem, é fazê-lo reencontrar-se com Deus, jogar fora o materialismo, tomar-se melhor. A Doutrina Espírita não existe para que alguns julguem que apenas as suas palavras terão o poder de transformar um espírito
trevoso e mau. Não é essa a tarefa da Doutrina. Ela veio à Terra com a mesma tarefa de Moisés e de Jesus: a de levar o homem à Terra Prometida, isto é, torná-lo bom. Infelizmente, muitos espíritas não conhecem a verdadeira finalidade da Doutrina. A missão do Espiritismo é a de apresentar o homem a Deus. Se um Espírito levanta a bandeira contra as drogas, o sexo livre, a falta de limite nos lares, alguns espíritas fazem campanhas contra os livros que tratam do assunto, dizendo que não é essa a finalidade da Doutrina. A pureza doutrinária está na dignidade dos homens que têm a incumbência de usar a tribuna, os jornais, a televisão, as rádios, para divulgação das belezas dos ensinamentos do Cristo. O de que mais está precisando no Espiritismo é estudo, estudo, estudo.

O que buscam as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos nas Casas Espíritas? o caminho. Que caminho é esse? O caminho do amor, da perfeição, guiados pelo Mestre verdadeiro, que não critica, que não mata sonhos, que não destrói criaturas. É isso o que o homem está buscando, e muitos deles o estão encontrando nas promessas de um “ reino de Deus” e tudo fazendo por essas seitas, porque esperam voltar a ter esperança na salvação. Portanto, não vamos fazer ameaças com umbrais, com obsessores, e sim falar da beleza da Doutrina, o quanto ela elucida sobre a vida e a morte, o quanto consola, o quanto é verdadeira. A Doutrina cristalina esclarece quando diz ao homem que ele é eterno e o túmulo, a porta para a verdadeira vida, mas nem por isso devemos desejar “ morrer” . Certos oradores dizem que os espíritas cantam e dançam de alegria quando alguns dos seus desencarnam. Por mais espiritualizado seja o homem, ele está no mundo físico e teme deixá-lo, e aqueles que ficam choram e sofrem. Essa é a realidade que o verdadeiro espírita tem de passar, e não a fantasia da indiferença com a morte. Perguntemos a um médium sério se ele tem medo de “ morrer” e responderá que sim. E por que alguns oradores espíritas desejam passar para o público que a morte é natural para todos os espíritas? Não é verdade. Por estar trancafiado em um corpo carnal, a alma teme o momento do desencarne, como o Espírito teme a reencarnação.

As Casas espíritas precisam alertar a todos que a finalidade da Doutrina Espírita é a melhoria do homem, a busca da verdade, e que o compromisso de uma alma é intransferível; que todos os que estão mergulhados em um corpo de carne, o estão para aprender a viver as leis morais. Espiritismo não é entretenimento nem busca do sobrenatural. O Espiritismo é o encontro com Deus. Ao chegarmos à Doutrina, tiramos o véu que oculta as verdades divinas, que trazemos na consciência. Aí, não podemos nos dizer ignorantes, porque só éramos simples e ignorantes quando estávamos caminhando pelos reinos da Natureza. Desde o momento em que se acendeu a luz da nossa consciência, deixamos de ser ignorantes. A Doutrina tem por finalidade nos instruir; só estudando-a vamos nos conhecendo e, ao nos conhecer, envergonhados ficamos com tantos defeitos que ainda possuímos. Se ela não adentrou nossos corações e nada aprendemos, então nada mudou em nossas vidas. Ao contrário, estaremos fazendo um mal imenso a esta Doutrina divina, que Jesus prometeu fazer brilhar no coração da Humanidade. Com pesar constatamos que poucos ainda são os que a respeitam como ela merece. Se Deus nos mandou Seu filho primogênito para que nEle pudéssemos mirar, sentirmos o Criador, enxergá-Lo, para nos tornarmos realmente Seus filhos, mas até hoje não encontramos Jesus, talvez por isso ainda não compreendemos a Doutrina Espírita. Mesmo nos dizendo espíritas, atiramos pedras na cruz e no próximo.

A cada dia o manto da verdade se aproxima dos ombros curvados dos homens do Planeta Terra, e feliz aquele que não se curvar diante das responsabilidades a que foi chamado, pois quão dura é a jornada e quão áspero o caminho. Jamais aquele que ficou parado para observar o trabalho do próximo foi o vencedor nem os que crucificaram o Cristo receberam o aplauso da Humanidade, ao contrário, receberam, sim, o desprezo. Também os que se armaram para defender a “ Igreja” que diziam ser do Cristo, estes escreveram os seus nomes com a tinta do sangue dos inocentes. Todos aqueles cuja vaidade, soberba e ganância fizeram com que se apossassem das revelações, julgando-as de sua propriedade, tiveram seus nomes apagados no Plano Maior. Aos espíritas foi dado saber de onde tirar as informações sobre o Universo de Deus, sobre Sua bondade, sobre a vida e a morte, sobre a imortalidade da alma, a sua peregrinação pelas vidas sucessivas. Não queremos acreditar que falte aos espíritas estudo e trabalho, porque a pedra que não é usada se perde nas estradas da vida. Preciso e que aquele simpatizante, curioso ou espírita se conscientize de que o Espiritismo é o encontro com Deus, e Ele, como o grande Pai, não Se cansa de ensinar aos Seus filhos a viver as leis morais. O espírita precisa somente disso: ser bom e digno.

Quando o Cristo voltou para o Mundo Maior, Ele prometeu aos Seus apóstolos que não os deixaria sozinhos, que o Consolador viria até o plano físico, e cumpriu Sua promessa, não depositando os ensinamentos em um só homem, mas deixando cair do Alto, em forma de estrelas cadentes, as palavras divinas, trazidas pelos Espíritos, por toda a Terra. Não foram os espíritas que criaram os Espíritos, foi Deus, o Criador incriado de todos nós, que entregou as cartas aos Espíritos mensageiros, os Seus apóstolos, os Seus discípulos, e eles chegaram em época certa, trazendo as mensagens. Os homens encarnados, assombrados, não conseguiram saber o que fazer. Mas ele, o ungido por Jesus, Allan Kardec, e outros encarnados, captaram as mensagens, e foi então que surgiu a Doutrina Espírita. Antes só existia o mediunismo, na figura dos videntes, dos feiticeiros, dos profetas. Mas a Doutrina surgiu, derrubando a fantasia, o faz-de-conta, o misticismo, os ídolos, as estátuas, enfim, ela chegou como fonte de luz, espantando as trevas da morte. Os homens, inebriados, foram catalogando as estrelas cadentes repletas de luz e as levando até Allan Kardec, para que ele as juntasse, como faz um zeloso jardineiro. E isso ele fez.

Juntou o primeiro buquê de estrelas, chamado carinhosamente de o Livro dos Espíritos. Outros ramalhetes foram-se formando, até completar o Pentateuco Espírita, do mesmo modo que, no primeiro chamado, Moisés recebeu os cinco primeiros livros da Bíblia.

A história se repete e o edifício vai sendo construído. Agora, os espíritas precisam lutar para colocar o telhado. Que este não seja um telhado de vidro e sim um telhado de bons exemplos; que cada pai de família ofereça a seus filhos as verdades espíritas. Essa nossa palestra é uma súplica para que os ocupantes de um lar aprendam a
dialogar para que não ocorra a separação, que com pesar estamos presenciando nos tempos modernos: os jovens julgando os pais antiquados, os avós decrépitos, enfim, não amando seu lar como deva ser amado: o único lugar onde ele é resguardado realmente, quando assim o deseja. É preciso que cada um seja um facho de luz por onde passa. Se a maior propaganda que Jesus fez foram os Seus exemplos, os espíritas têm de fazer o mesmo. A hora é agora! Os contraditores não falam mansamente, são acusações sérias, que denigrem o Espiritismo, e ninguém está vendo o que vem acontecendo em todas as cidades brasileiras. Por que os espíritas não estão se unindo, carregando uma só bandeira, a do Amor. Só esta bandeira derruba as desavenças religiosas. As trevas não estão preocupadas com as outras crenças, sim com o Espiritismo, que age como se fosse uma lixa que alisa a alma do homem, tirando-lhe as imperfeições.

Os espíritas precisam se unir para a grande jornada da renovação do Planeta. O Plano Maior está envidando esforços para a unificação da palavra de Deus no coração da Humanidade. Lutemos em levar a verdade para o plano físico, não importando se nossas mensagens serão guardadas no coração dos nossos irmãos. Que Deus nos ampare” .

(atualizado em 22-09-08)

    


 
  

Jovens Difíceis

 José Argemiro da Silveira.


“A ingratidão é um dos frutos mais imediatos do egoísmo: revolta sempre os corações honestos; mas a dos filhos com relação aos pais, tem um caráter ainda mais odioso; é sob esse ponto de vista especialmente que vamos encará-la para analisar-lhe as causas e os efeitos. Aqui, como por toda a parte, o Espiritismo veio lançar luz sobre um dos problemas do coração humano”. Item 9, cap. 14, do Evangelho Segundo o Espiritismo)


Tema atual o comportamento dos jovens. Muito se fala no problema da “crise da adolescência”. É bom refletir sobre a contribuição da Doutrina Espírita para o assunto.

Os filhos, antes de serem filhos dos pais terrenos, já eram filhos de Deus, cujo Amor Infinito vela por todos nós. A carne procede da carne, mas o Espírito não procede do Espírito. Este vem ao plano físico para evoluir. O fato de o Espírito renascer nesta, ou naquela família, obedece a planejamento cuidadoso efetuado no plano espiritual. Ele pode renascer numa determinada família por questões de afinidade, para realização de tarefas em conjunto, mas pode ocorrer também que espíritos inimigos, que prejudicaram ou forma prejudicados no passado, e ainda conservando ódio, desejos de vingança, reencarnem no mesmo lar de suas vítimas, ou algozes do passado, exatamente para tentarem a reconciliação. Para desfazer a inimizade, para acabar com estas desavenças que impedem o progresso espiritual. Pode acontecer, ainda, de um determinado casal aceitar, ou mesmo pedir como tarefa, receber como filhos Espíritos menos evoluídos, portadores de dificuldades diversas, com a finalidade de auxiliá-los na evolução espiritual. Nesses casos, não só a convivência se torna difícil, como também o trabalho da educação, devido a bagagem que o Espírito traz do passado.

A maneira como a criança é recebida no lar, os exemplos, a educação que recebe são fatores importantes para o seu encaminhamento na vida, mas a bagagem que o Espírito traz, o seu grau evolutivo, muito influirá no seu comportamento e desempenho, na atual existência. Diz Emmanuel: “Compadece-te dos filhos que pareçam diferentes de ti. Aceita-os como são e auxilia a cada um deles na integração com o trabalho em que se façam dignos da vida que vieram viver. Ampara-os sem imposição e sem violência. Antes de te surgirem à frente por filhos de teu amor, são filhos de Deus, cujo Amor Infinito vela em nós e por nós. Ainda mesmo quando evidenciem características inquietantes, abençoa-os e orienta-os, quanto possível, a fim de que se mantenham por esteios vivos de rendimento do bem no Bem Comum”. (1)

E Herculano Pires, sobre o assunto, considera: “O amparo dos pais não pode ser dado por meio de imposição e autoritarismo, sob pena de deixar de ser amparo para se transformar em tirania. Se o “conflito de gerações” sempre existiu no mundo, agora se mostra mais violento porque o tempo da tirania está no fim e porque a era de transição em que vivemos acentua nos jovens os anseios do futuro. Os pais só poderão ampará-los se tiverem amor suficiente para compreendê-los e ajudá-los sem exigências. Esta é também uma hora de aprendizado para os pais. E só o amor verdadeiro pelos filhos pode socorrê-los”. (1)

Ouvimos, numa palestra, a narração do seguinte fato, contado como verídico:

'Um senhor adentra o consultório de um psiquiatra, invade sua sala de consultas, e muito nervoso diz ao médico: Dr., estou para dar um fim em minha vida, mas resolvi, como último recurso, lhe pedir ajuda. Meu filho, jovem de 18 anos, se rebelou contra mim e a mãe dele; não nos obedece, não estuda e não trabalha, e, o pior, ultimamente se envolveu com drogas. Está vendendo utensílios de nossa casa para adquirir a droga. O que fazer?

- O médico, sem se alarmar, indagou-lhe: Há quanto tempo você não conversa com seu filho?

- Há muito tempo, pois ele não dá condições de diálogo, respondeu.

O médico volta a indagar:

- Qual a última vez que você abraçou seu filho?

- Há muito tempo, pois se nem sequer conversamos.

O médico sugeriu:

- Vá para sua casa, abrace seu filho, diga-lhe que o ama, e quer ajudá-lo, apesar de tudo. Se você não conseguir abraçar o filho, vai treinando, abraçando árvores. Nós só gostamos de abraçar aqueles que correspondem ao nosso afeto. Como o relacionamento com o seu filho não está bom, ele pode não lhe corresponder ao abraço. Assim, vai treinando, abraçando árvores, que também não correspondem, e quando abraçar seu filho não se desapontará se ele não lhe retribuir.

O consulente achou estranha a orientação, mas resolveu tentar.

Algum tempo depois, encontrou seu filho, em sua casa, na companhia de outro jovem que lhe vendia a droga. Aquele homem, numa crise de desespero, esforçando-se para não tomar uma atitude violenta, foi ao encontro do filho e o abraçou; aproximou-se do companheiro do filho e o abraçou; sua esposa adentra a sala e ele também a abraça, de sorte que sua esposa, seu filho, e o companheiro deste, perceberam que algo importante estava ocorrendo ali.

Era um esforço muito grande daquele homem, tentando a solução de um problema que parecia insolúvel. E começaram a chorar, emocionados. A situação criada acabou por sensibilizar o jovem, filho do casal, que, dali por diante, procurou mudar de vida.

Herculano Pires tem razão quando acentua que “os pais só poderão ampará-los se tiverem amor suficiente para compreendê-los e ajudá-los, sem exigências”.

(1) Na Era do Espírito - Francisco C. Xavier e J. Herculano Pires (item 8).

(Jornal Verdade e Luz Nº 169 de Fevereiro de 2000)
(atualizado em 23-09-08)

    


 
  

As crianças e o futuro

 Heloísa Pires.

Os pais provavelmente farão a grande viagem antes dos filhos. É necessário torná-los independentes, integrados à sociedade, preparados para continuarem a caminhada com tranqüilidade.

O egoísmo faz com que muitos pais estimulem a submissão nos seus filhos, a incapacidade de resolverem problemas sozinhos. Algumas vezes os pais lutam para conseguirem a independência dos filhos mas problemas vários, inclusive reencarnatórios impedem que as crianças e jovens consigam o seu desenvolvimento pleno.

Os pais precisam permanecer atentos para identificarem os processos de desequilíbrio nos filhos auxiliando-os com os recursos da "horizontal" e da "vertical" para libertá-los dos problemas. Não dispensamos o tratamento médico, psiquiátrico, psicológico, pedagógico e, sobretudo o espiritual para que o indivíduo consiga a expressão necessária ao desenvolvimento das suas potencialidades.

Para ilustrar melhor o que escrevemos vamos relembrar histórias reais de indivíduos que estão com dificuldades várias na possibilidade da conquista da paz interior.

Mônica
A menina foi rejeitada pela mãe que já possuía dois filhos e não queria mais nenhum.

A ciência oficial prova que Mônica sentiu no útero a não aceitação de sua mãe e a indiferença do seu pai.

Nasceu muito miúda e chorona. A mãe contratou uma babá e entregou a menina para a estranha. A moça realizava todas as tarefas com propriedade mas sem amor.

O bebê estava sempre impecável, limpo, bem vestido, bem alimentado. Tecnicamente falando a babá era ótima; faltava o principal: AMOR.

Aos cinco anos Mônica era uma menina antipática, melancólica e indiferente para com todos. Foi para a escola e logo criou antipatia em relação à sua pessoa. Não conseguia fazer amigos, não conseguia ficar interessada nos desenhos e brincadeiras que encantavam as outras crianças.

A mãe demonstrava claramente que amava os dois meninos e que não suportava Mônica. O pai agia da mesma forma. Mônica começou a afastar-se da vida. Continuou desinteressada pelas lições e pelos colegas.

Na adolescência continuou isolada e difícil; queria fazer amigos mas não conseguia. Desejava melhorar na escola e parecia impossível. Considerava-se incapaz, desagradável, indesejável; transformou-se em uma mocinha insuportável.

Aos dezoito anos encontrou uma professora bondosa que a orientou para comparecer a uma casa espiritualista. Por sorte encontrou uma casa na qual alguns indivíduos especiais estavam aprendendo a entender Jesus. Perceberam por trás da antipatia de Mônica a necessidade de ser amada. A jovem foi orientada a passar por um tratamento espiritual. Encontrou alguns jovens que a aceitaram embora com reservas. Começou a participar de um grupo e pela primeira vez sentiu-se uma no meio do grupo que a amparava. Iniciou também uma terapia com uma psicóloga e uma mudança começou a ocorrer lentamente.

Mônica melhorou muito mas ainda traz as seqüelas do desamor que enfrentou na infância e juventude. Uma mágoa a afasta da família que não a amou ou compreendeu. Com dificuldade está reconstruindo a auto imagem positiva e a certeza de que todos somos especiais, dignos de amor e respeito. Conseguiu alguns amigos, tem medo de amar e ser rejeitada. Por causa da família Mônica vai enfrentar problemas dispensáveis que teriam sido evitados se os pais, que vieram preparados para a vitória auxiliassem Mônica em suas necessidades básicas: amar e ser amada, ser respeitada para conseguir se expressar no respeito ao próximo. Uma encarnação que se tornou difícil por causa do egoísmo do grupo familiar.

Mônica luta para resolver seus conflitos e inseguranças. Como a vida seria mais fácil se entendêssemos que "é necessário fazer aos outros o que desejamos que os outros nos façam..." Apenas isso: tratar os nossos filhos com o respeito e amor que desejamos para nós...

Murilo
Ainda no útero Murilo começou a sentia a rejeição da mãe. Ela não o aceitava de maneira alguma; egoísta achava que ele viera para atrapalhar; deformara o seu corpo e perturbava o seu sucesso profissional. A revolta criou dificuldades para o feto e os problemas aumentaram: desejava abortar e só não tentou de forma mais eficiente com medo de complicações físicas. Mas inúmeras vezes expulsou Murilo do pensamento. Ordenava a ele que saísse do seu corpo e ele retrucava telepaticamente que não sairia.

Foi uma guerra mental. Sete meses se passaram e o feto não resistiu às agressões e nasceu. Os problemas continuaram. A mãe continuava criança mimada e incapaz de amor e dedicação. Tentou empurrar Murilo para as avós mas elas não aceitaram. O pai fora embora por não suportar o egoísmo e agressões daquela mulher estranha e Murilo ficou só.

O seu desenvolvimento foi realizado em creches nas quais, infelizmente, não conseguia aceitar o amor que lhe era oferecido pois estava muito magoado com o desamor que o deixara doente.

Repetiu vários anos escolares o que mais enfurecia a mãe que não o amava e dizia em alto e bom som que filhos só servem para dar trabalho.

Aos dezenove anos iniciou a sua dependência de drogas, aos dezoito foi internado em uma clínica especializada e começou a desejar sarar. A luta continua com períodos de internação e outros fora do hospital. Agora iniciou também o tratamento espiritual. A mãe continua mergulhada nela. É a nossa Mônica da outra historinha.

Vibramos para que Murilo, que foi, como diz O Livro dos Espíritos, preparado para a vitória, consiga atingí-la; e que Mônica entenda a importância da maternidade. E o pai? Ele vai ser o próprio juiz quando amadurecer mais.

Quantos problemas poderiam ser evitados através de atitudes maduras e realmente civilizadas...


(Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 361 de Fevereiro de 2001)
(atualizado em 27-09-08)

    


 
  

O doutor Muhr

Morto do Cairo, em 4 de junho de 1857. - Evocado a pedido do senhor Jobard. Era, disse ele, um Espírito muito elevado em sua vida; médico homeopata; um verdadeiro apóstolo espírita;deve estar pelo menos em Júpiter.

1. Evocação. - R. Estou aqui.

2. Teríeis a bondade de nos dizer onde estais? - R. Eu estou errante.

3. Foi no dia 4 de junho deste ano que morrestes? - R. Foi no ano passado.

4. Lembrai-vos do vosso amigo, o senhor Jobard? - R. Sim, estou freqüentemente perto dele.

5. Quando eu lhe transmitir essa resposta, isso o fará feliz, porque ele tem sempre uma grande afeição por vós? - R. Eu o sei; esse Espírito me é dos mais simpáticos.

6. Que entendeis, em vossa vida, pelos gnomos? - R. Entendia por seres que podiam se materializar e tomar formas fantásticas.

7. Credes nisso sempre? - R. Mais do que nunca; disso tenho agora a certeza; mas gnomo é uma palavra que pode parecer ter muito da magia; gosto melhor de dizer agora Espírito em vez de gnomo. Nota. - Durante a sua vida, ele acreditava nos Espíritos e em suas manifestações; somente que os designava sob o nome de gnomos, ao passo que agora ele se serve da expressão mais genérica de Espírito.

8. Credes ainda que esses Espíritos, que chamáveis gnomos durante vossa vida, possam tomar formas materiais fantásticas? -R. Sim, mas sei que isso não se faz freqüentemente, porque há pessoas que poderiam se tornar loucas se vissem as aparências que esses Espíritos podem tomar.

9. Quais aparências podem tomar? - R. Animais: diabos.

10. É uma aparência material tangível, ou uma pura aparência como nos sonhos ou nas visões? - R. Um pouco mais material do que nos sonhos; as aparições que poderiam muito amedrontar não podem ser tangíveis; Deus não o permite.

11. A aparição do Espírito de Bergzabem, sob forma de homem ou de animal, era dessa natureza? - R. Sim, e desse gênero.Nota. - Não sabemos se, em sua vida, ele acreditava que os Espíritos podiam tomar uma forma tangível; mas é evidente que agora ele entende falar da forma vaporosa e impalpável das aparições.

12. Credes que quando reencarnardes, ireis a Júpiter? - R. Irei para um mundo que não se iguala ainda com Júpiter.

13. Será por vossa própria escolha que ireis para um mundo inferior a Júpiter, ou por que não mereceis ainda ir para esse planeta? - R. Prefiro acreditar não merecê-lo, e cumprir uma missão em um mundo menos avançado. Sei que chegarei à perfeição, é o que faz com que eu goste mais de ser modesto. Nota. - Essa resposta é uma prova da superioridade desse Espírito; ela concorda com que nos disse o padre Ambroise: que há mais mérito em pedir uma missão num mundo inferior, que querer avançar muito depressa num mundo superior.

14. O senhor Jobard nos pede vos perguntar se estais satisfeito com o artigo necrológico que escreveu sobre vós? - R. Jobard me deu uma nova prova de simpatia, escrevendo isso; eu lhe agradeço muito, e desejo que o quadro, um pouco exagerado de virtudes e de talentos que ele fez, possa servir de exemplo àqueles que, dentre vós, seguem o rastro do progresso.

15. Uma vez que, em vossa vida, eras homeopata, que pensais agora da homeopatia? - R. Homeopatia é o começo das descobertas de fluidos latentes. Muitas outras descobertas tão preciosas se farão e formarão um todo harmonioso, que conduzirá vosso globo à perfeição.

16. Que mérito dais ao vosso livro intitulado: O Médium c/o povo? - R. E a pedra do obreiro que dei à obra. Nota. - A resposta desse Espírito sobre a homeopatia vem em apoio da idéia dos fluidos latentes que já nos foi dada pelo Espírito do senhor Badel, com respeito à sua imagem fotografada. Disso resulta que ha fluidos cujas propriedades nos são desconhecidas ou passam desapercebidas, porque sua ação não é ostensiva, mas nem por isso menos real; a Humanidade se enriquece de conhecimentos novos, à medida que as circunstâncias lhe fazem
conhecer suas propriedades.


(Publicado na Revista Espírita - Novembro de 1.858 )
(atualizado em 19-10-08)

    


  

Como criar um Delinqüente

Eurípedes Kühl

Dez Regras Fáceis:

1. Comece na infância a dar ao seu filho tudo o que ele quiser. Assim, quando crescer, ele acreditará que o mundo tem obrigação de lhe dar tudo o que deseja.

2. Quando ele disser nomes feios, ache graça. Isso o fará considerar-se interessante.

3. Nunca lhe dê qualquer orientação religiosa. Espere até que ele chegue aos 21 anos e "decida por si mesmo".

4. Apanhe tudo o que ele deixar jogado: livros, sapatos, roupas. Faça tudo para ele, para que aprenda a jogar sobre os outros a responsabilidade.

5. Discuta com freqüência na presença dele. Assim não ficará muito chocado quando o lar se desfizer mais tarde.

6. Dê-lhe todo o dinheiro que ele quiser.

7. Satisfaça todos os seus desejos de comida, bebidas e conforto. Negar pode acarretar frustrações prejudiciais.

8. Tome o partido dele contra vizinhos, professores, policiais. (Todos tem má vontade para com seu filho).

9. Quando ele se meter em alguma encrenca séria, dê esta desculpa: "Nunca consegui dominá-lo!".

10. Prepare-se para uma vida de desgosto. É o seu merecido destino. Ele foi criado livre e com maus costumes.

 
Feal - Fundação Espírita André Luiz
(atualizado em 19-10-08)

    


  

O Gobelins - lendas

A intervenção de seres incorpóreos nas minúcias da vida privada, faz parte das crenças populares de todos os tempos. Não pode, sem dúvida, caber no pensamento de uma pessoa sensata tomar ao pé da letra todas as lendas, todas as histórias diabólicas e todos os contos ridículos, que se gosta de contar ao lado do fogo.

Entretanto, os fenômenos, dos quais somos testemunhas, provam que esses próprios contos repousam sobre alguma coisa, porque o que se passa em nossos dias, pôde e deveu se passar em outras épocas. Que se aparte, desses contos, o maravilhoso e o fantástico dos quais a superstição os vestiu ridiculamente, e se encontrarão todos os caracteres, fatos e gestos dos nossos Espíritos modernos; uns bons, benevolentes, prestativos em servir, como os bons Brownies', outros mais ou menos traquinas, espertos, caprichosos e mesmo maus, como os Gobelins da Normândia, que se encontra sob os nomes de Bogles na Escócia, de Bogharts na Inglaterra, de Cluricaunes na Irlanda, de Puckas na Alemanha. Segundo a tradição popular, esses duendes se introduzem nas casas, onde procuram todas as ocasiões de brincar maldosamente: "Eles batem nas portas, deslocam os móveis, dão golpes sobre os barris, batem no teto e no assoalho, assoviam baixinho, produzem suspiros lamentosos, tiram as cobertas e as cortinas dos que estão deitados, etc."

O Boghart dos Ingleses exerce particularmente suas malícias contra as crianças, às quais parece ter aversão: "Arranca, freqüentemente, sua fatia de pão com manteiga e sua tigela de leite, agita, durante a noite, as cortinas de seu leito; sobe e desce as escadas com grande ruído, joga sobre o assoalho as baixelas e os pratos, e causa muitos outros estragos nas casas."

Em alguns lugares da França, os Gobelins são considerados como uma espécie de fantasmas domésticos, que se tem o cuidado de nutrir com iguarias, as mais delicadas, porque eles trazem, aos seus senhores, o trigo que furtam dos celeiros de outrem. É verdadeiramente curioso encontrar essa velha superstição, da antiga Gália e entre os Borussianos do século X (os Prussianos de hoje). Seus Koltkys, ou gênios domésticos, vinham também roubar trigo dos celeiros para levarem à aqueles de quem gostavam.

Quem não reconhece, nessas traquinagens, - à parte da indelicadeza do trigo roubado, do qual é provável que os autores se desculpavam em detrimento da reputação dos Espíritos - quem, dizemos, não reconhecerá nossos Espíritos batedores e aqueles que podem, sem lhes injuriar, ser chamados de perturbadores? Que um fato semelhante àquele que nos reportamos, mais acima, dessa jovem de Panoramas, tivesse se passado no campo, teria sido, sem nenhuma dúvida, levado à conta do Gobelin do lugar, depois de amplificado pela imaginação fecunda das comadres; não faltará ter visto o pequeno demônio pendurado na campainha, zombando e fazendo caretas aos tolos que iam abrir a porta.

 
Revista Espírita - Janeiro de 1.858.
(atualizado em 19-10-08)

    


  

Entrevista - Divaldo  Franco e os 'elementais'

Entrevista com Divaldo Pereira Franco, com importantes informações acerca dos chamados gnomos, trasgos, duendes, elfos, etc. Vale lembrar que dentro da Codificação Espírita, estes seres são denominados como Espíritos Elementares, fruto de estudo e pesquisa realizadas por Allan kardec, médiuns e espíritos que o auxiliaram a 'trazer' as obras Básicas da Codificação e os números da Revista Espírita. Diante destas pesquisas, Allan kardec pôde assimilar muitas coisas, dentre elas que nada de místico há. Para a Doutrina Espírita, portanto, Elementais são designados de Espíritos Elementares. A razão desta re-nomeação, deve-se ao fato de que a partir de então especificousse suas características reais e não fruto de folclore, lendas ou imaginações diversas.*

- Existem os chamados Espíritos elementais ou Espíritos da Natureza?
Divaldo P. Franco – Sim, existem os espíritos que contribuem em favor do desenvolvimento dos recursos da Natureza. Em todas as épocas eles foram conhecidos, identificando-se através de nomenclatura variada, fazendo parte mitológica dos povos e tornando-se alguns deles ‘deuses’ , que se faziam temer ou amar.

- Qual é o estágio evolutivo desses espíritos?
DPF – Alguns são de elevada categoria e comandam os menos evoluídos, que se lhes submetem docilmente, elaborando em favor do progresso pessoal e geral, na condição de auxiliares daqueles que presidem aos fenômenos da Natureza.

- Então eles são submetidos hierarquicamente a outra ordem mais elevada de Espíritos?
DPF – De acordo com o papel que desempenham, de maior ou menor inteligência, tornam-se responsáveis por inúmeros fenômenos ou contribuem para que os mesmos aconteçam. Os que se fixam nas ocorrências inferiores, mais materiais, são, portanto, pela própria atividade que desempenham, mais atrasados submetidos aos de grande elevação, que os comandam e orientam.

- Estes Espíritos se apresentam com formas definidas, como por exemplo fadas, duendes, gnomos, silfos, elfos, sátiros, etc?
DPF – Alguns deles, senão a grande maioria dos menos evoluídos, que ainda não tiveram reencarnações na Terra, apresentam-se, não raro, com formas especiais, pequena dimensão, o que deu origem aos diversos nomes nas sociedades mitológicas do passado. Acreditamos pessoalmente, por experiências mediúnicas, que alguns vivem o Período Intermediários entre as formas primitivas e hominais, preparando-se para futuras reencarnações humanas.

- Quer dizer que já passaram ou passam, como nós, Espíritos humanos, por ciclos evolutivos, reencarnações?
DPF – A reencarnação é lei da Vida através de cujo processo o psiquismo adquire sabedoria e ‘desvela o seu Deus interno’. Na questão no. 538 de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec interroga: “Formam categoria especial no mundo espírita os Espíritos que presidem os fenômenos da Natureza? Serão seres à parte ou Espíritos que foram encarnados como nós?” E os Benfeitores da Humanidade responderam: “Que foram ou que serão”.

- Algum dia serão ou já foram homens terrestres?
DPF – Os mais elevados já viveram na Terra, onde desenvolveram grandes aptidões. Os outros, menos evoluídos, reencarnar-se-ão na Terra ou outros mundos, após se desincumbirem de deveres que os credenciem moral e intelectualmente, avançando sempre, porque a perfeição é meta que a todos os seres está destinada.

- O elementais são autóctones ou vieram de outros planetas?
DPF – Pessoalmente acreditamos que um numero imenso teve sua origem na Terra e outros vieram de diferentes mundos, a fim de contribuírem com o progresso do nosso planeta.

- Que tarefas executam?
DPF – Inumeráveis. Protegem os vegetais, os animais, os homens. Contribuem para acontecimentos diversos: tempestades, chuvas, maremotos, terremotos... interferindo nos fenômenos “normais” da Natureza sob o comando dos Engenheiros Espirituais que operam em nome de Deus, que “não exerce ação direta sobre a matéria. Ele encontra agentes dedicados em todos os graus da escala dos mundos”, como responderam os Venerandos Guias a Kardec, na questão 536-b de “O Livro dos Espíritos”.

- Todos eles sabem manipular conscientemente os fluidos da Natureza?
DPF – Nem todos. Somente os condutores sabem o que fazem e para o que fazem, quando atuam nos elementos da Natureza. Os mais atrasados “oferecem utilidade ao conjunto” não suspeitando sequer que são “Instrumentos de Deus”.

- Nós não os vemos normalmente. Isto significa que não se revestem de matéria densa?
DPF – O conceito de matéria na atualidade, é muito amplo. A sua “invisibilidade” aos olhos humanos, a algum indivíduo, demonstra que sejam constituídos de maneira equivalente aos demais espíritos da Criação. Encontram-se em determinada fase de desenvolvimento, que são perceptíveis somente aos médiuns, as pessoas de percepção especial, qual ocorre também com os Espíritos Nobres, que não são detectados por qualquer pessoa destituída de faculdade mediúnica.

- Qual é o habitat natural desses Espíritos?
DPF – A erraticidade, o mundo dos Espíritos , pertencendo a uma classe própria e, portanto, vivendo em regiões compatíveis ao seu grau de evolução. “Misturam-se” aos homens e vivem, na grande maioria, na própria Natureza, que lhes serve de espaço especial.

- Uma das grandes preocupações da humanidade, atualmente, é a preservação do equilíbrio ecológico. Qual a atitude ou providência que tomam quando a Natureza é desrespeitada pelos homens?
DPF – Quando na infância do desenvolvimento, susceptíveis às reações mais primitivas, tornam-se agressivos e revoltados. À medida que evoluem, fazem-se benignos e se apiedam dos adversários da vida em qualquer forma pela qual esta se expressa. Assim, inspiram a proteção à Natureza, o desenvolvimento de recursos que a preservem, , a sua utilização nobre em favor da vida em geral, em suma, “fazem pela Natureza o que gostariam que cada qual fizesse por si mesmo”.

*Nossa nota (Fiorella Romana).

 
Transcrito da Revista  Allan Kardec
ano V - agosto a outubro/92 
(atualizado em 19-10-08)

    


  

A difícil arte de dizer não aos filhos

Você costuma dizer "não" aos seus filhos?

Considera fácil negar alguma coisa a essas criaturinhas encantadoras e de rostos angelicais que pedem com tanta doçura?

Uma conhecida educadora do nosso País alerta que não é fácil dizer não aos filhos, principalmente quando temos os recursos para atendê-los.

Afinal, nos perguntamos, o que representa um carrinho a mais, um brinquedo novo se temos dinheiro necessário para comprar o que querem?

Por que não satisfazê-los?

Se podemos sair de casa escondidos para evitar que chorem, por que provocar lágrimas?

Se lhe dá tanto prazer comer todos os bombons da caixa, por que fazê-lo pensar nos outros?

E, além do mais, é tão fácil e mais agradável sermos "bonzinhos"...

O problema é que ser pai é muito mais que apenas ser "bonzinho" com os filhos. Ser pai é ter uma função e responsabilidade sociais perante os filhos e perante a sociedade em que vivemos.

Portanto, quando decidimos negar um carrinho a um filho, mesmo podendo comprar, ou sofrendo por lhe dizer "não", porque ele já tem outros dez ou vinte, estamos ensinando-o que existe um limite para o ter.

Estamos, indiretamente, valorizando o ser.

Mas quando atendemos a todos os pedidos, estamos dando lições de dominação, colaborando para que a criança aprenda, com nosso próprio exemplo, o que queremos que ela seja na vida: uma pessoa que não aceita limites e que não respeita o outro enquanto indivíduo.

Temos que convir que, para ter tudo na vida, quando adulto, ele fatalmente terá que ser extremamente competitivo e provavelmente com muita "flexibilidade" ética, para não dizer desonesto.

Caso contrário, como conseguir tudo? Como aceitar qualquer derrota, qualquer "não" se nunca lhe fizeram crer que isso é possível e até normal?

Não se defende a idéia de que se crie um ser acomodado sem ambições e derrotista. De forma alguma. É o equilíbrio que precisa existir: o reconhecimento realista de que, na vida às vezes se ganha, e, em outras, se perde.

Para fazer com que um indivíduo seja um lutador, um ganhador, é preciso que desde logo ele aprenda a lutar pelo que deseja sim, mas com suas próprias armas e recursos, e não fazendo-o acreditar que alguém lhe dará tudo, sempre, e de "mão beijada".

Satisfazer as necessidades dos filhos é uma obrigação dos pais, mas é preciso distinguir claramente o que são necessidades do que é apenas consumismo caprichoso.

Estabelecer limites para os filhos, é necessário e saudável.

Nunca se ouviu falar que crianças tenham adoecido porque lhes foi negado um brinquedo novo ou outra coisa qualquer.

Mas já se teve notícias de pequenos delinqüentes que se tornaram agressivos quando ouviram o primeiro não, fora de casa.

Por essa razão, se você ama seu filho, vale a pena pensar na importância de aprender a difícil arte de dizer não.

Vale a pena pensar na importância de educar e preparar os filhos para enfrentar tempos difíceis, mesmo que eles nunca cheguem.

O esforço pela educação não pode ser desconsiderado.

Todos temos responsabilidades no contexto da vida, nas realizações humanas, nas atividades sociais, membros que somos da família universal.


Do livro "Repositório de Sabedoria" vol I, Educação
(atualizado em 19-10-08)

    


  

O Fantasma de Bayonne

Revista Espírita, janeiro de 1859


Em nosso último número, dissemos algumas palavras sobre essa estranha manifestação. Essas notícias nos foram dadas, de viva voz e muito sucintamente, por um de nossos assinantes, amigo da família onde tais fatos ocorreram. Prometera-nos ele os detalhes mais circunstanciais, e devemos à sua cortesia a comunicação das cartas que delas contém um relato mais detalhado.

Essa família mora perto de Bayonne, e essas cartas foram escritas pela própria mãe da jovem, criança de uma dezena de anos, ao seu filho que mora em Bordeaux, para lhe dar conhecimento do que se passava em sua casa. Este último consentiu a se dar ao trabalho de transcrevê-las para nós, a fim de que a autenticidade não pudesse ser contestada; foi uma atenção da qual lhe somos reconhecidos. Concebe-se a reserva à qual tivemos quanto aos nomes próprios, reserva que sempre para nós foi uma lei a observar, a menos que recebamos uma autorização formal. Todo q mundo não se preocupa em atrair sobre si a multidão de curiosos. Àqueles a quem essa reserva seria um motivo de suspeição, diremos que é preciso fazer uma diferença entre um jornal eminentemente sério e aqueles que não tem em vista senão agradar o público. Nosso objetivo não é o de contar os fatos para encher nosso quadro, mas para esclarecer a ciência; se estivéssemos enganados, estaríamos de boa fé: quando, aos nossos olhos, uma coisa não está formalmente averiguada, nós a damos sob o benefício de inventário; não poderia ser assim quando ela emana de pessoas sérias, cuja honorabilidade nos é conhecida, e que longe de terem algum interesse em nos induzirem em erro, elas mesmas querem se instruir.

A primeira carta é a do filho ao nosso assinante, dirigindo-lhe as de sua mãe.

Saint-Esprit, 20 de novembro de 1858.
Meu caro amigo,
"Chamado em minha família pela morte de um de meus irmãozinhos, que Deus acaba de nos levar, essa circunstância, que me distanciou desde algum tempo de minha casa, é o atraso que tive em vos responder. Ficaria penalizado em vos fazer passar por um contador de histórias junto ao senhor Allan Kardec, por isso vou dar-vos alguns detalhes sumários sobre os fatos acontecidos em minha família. Creio já haver dito que as aparições cessaram há muito tempo, e não se manifestam mais à minha irmã. Eis as cartas que minha mãe escreveu a esse respeito. Devo observar que muitos dos fatos nelas foram omitidos, e não são os menos interessantes. Escrever-vos-ei de novo para completar a história se, por vós mesmo, não puderes fazê-lo, lembrando-vos do que vos disse de viva voz."

23 de abril de 1855.
Há mais ou menos três meses que, uma tarde, tua irmã X. teve necessidade de sair para fazer uma compra. O corredor da casa que é muito comprido, tu o sabes, não está jamais iluminado, e o grande hábito que temos de percorrê-lo sem luz faz com que evitemos tropeçar sobre os degraus da escada. X. já nos dissera que cada vez que ela saía ouvia uma voz que lhe fazia discursos dos quais ela não compreendeu de início o sentido, mas que, mais tarde, tornaram-se inteligíveis. Algum tempo depois ela viu uma sombra, e não cessou, durante o trajeto, de ouvir a mesma voz. Os discursos feitos por esse ser invisível tendiam sempre a tranqüilizá-la e dar-lhe conselhos muito sábios. Uma boa moral era o fundo de suas palavras. X. ficou muito perturbada e, freqüentemente, nos disse que não tinha mais força para continuar seu caminho. Minha criança, dizia-lhe o invisível, cada vez que ela estava perturbada, não tema nada, porque não te quero senão o bem. Ensinou-lhe um lugar onde, durante vários dias, ela encontrou algumas peças de moedas; de outras vezes não encontrava nada. X. estava conformada com a revelação que lhe fizera e, durante muito tempo, ela encontrou, se não peças de moedas, alguns brinquedos que tu verás. Esses dons, sem dúvida lhe foram dados para encorajá-la. Tu não foste esquecido nas conversações desse ser falava freqüentemente de ti e nos dava de tuas novidades por intermédio de tua irmã. Várias vezes nos informou do emprego de tuas noites; viu-te lendo no quarto; outras vezes nos disse que teus amigos estavam reunidos contigo; enfim, ele nos tranqüilizava sempre que a preguiça te impedia escrever-nos.

Desde há algum tempo, X. tem relações quase contínuas com o invisível. De dia ela não vê nada; ouve sempre a mesma voz que lhe faz discursos sábios, que não cessa de encorajá-la ao trabalho e ao amor a Deus. À noite, ela vê, na direção de onde parte a voz, uma luz rosa que não ilumina mas que, segundo ela, poderia ser comparada ao brilho de um diamante na sombra. Agora todo o medo desapareceu nela; se lhe manifesto dúvidas: "Mamãe, diz-me ela, é um anjo quem me fala, e se, para te convenceres, queres te armar de coragem, ele me pede dizer-te que esta noite te fará erguer. Se ele te falar, deveras responder. Vá onde ele te disser para ir; verás diante de ti pessoas, não tenhas nenhum medo." Não quis colocar minha coragem à prova: tive medo, e a impressão que isso me fez impediu-me de dormir. Muito freqüentemente, durante a noite, parece-me ouvir um sopro na cabeceira de minha cama.

Minhas cadeiras se movem sem que nenhuma mão as toque. Meus temores desapareceram completamente desde há algum tempo, e tenho grande pesar por não haver me submetido à prova, que me fora proposta, para ter relações diretas com o invisível, e também por não ter que lutar continuamente contra as dúvidas.

Convidei X. a interrogar o invisível sobre a sua natureza; eis a conversa que tiveram em conjunto:
X. Quem és tu? Inv. Sou teu irmão Elisée.

X. Meu irmão está morto há doze anos. Inv. É verdade; teu irmão está morto há doze anos; mas havia nele, como em todos os seres, uma alma que não morre e que está diante de ti neste instante, que te ama e te
protege em tudo.

X. Gostaria de te ver. Inv. Estou diante de ti.

X. Não vejo nada, entretanto. Inv. Tomarei uma forma visível para ti. Depois do ofício religioso tu descerás, ver-me-ás,então eu te abraçarei.

X. Mamãe gostaria de conhecer-te também. Inv. Tua mãe é a minha; ela me conhece. Teria antes querido manifestar-me a ela que a ti: era meu dever; mas não posso mostrar-me a várias pessoas, porque Deus no-lo proíbe; lamento que tenha faltado coragem à mamãe. Prometo dar-te provas de minha existência e, então, todas as dúvidas desaparecerão.

À noite, no momento marcado, X. se colocou à porta do templo. Um jovem se lhe apresentou e lhe disse: "Sou teu irmão. Pediste ver-me; eis-te satisfeita. Abraça-me, porque não posso conservar por muito tempo a forma que estou vivendo."

Como tu o penses bem, a presença desse ser deveu espantar X. ao ponto de impedir-lhe fazer alguma observação. Logo que o abraçou, ele desapareceu no ar.

No dia seguinte, de manhã, o invisível, aproveitando o momento em que X. foi obrigada a sair, se manifestou de novo a ela e disse-lhe: "Deveis estar bem surpresa com a minha desaparição. Pois bem! Quero te ensinar a elevar-te no ar, e ser-te-á possível seguir-me."

Qualquer outro senão X., sem dúvida, apavorar-se-ia com a proposição. Ela aceitou a oferta apressadamente e logo se sentiu elevar como uma andorinha. Ela chegou, em pouco tempo, a um lugar onde havia uma multidão considerável. Ela viu, disse-nos, ouro, diamantes, e tudo o que, sobre a Terra satisfaz nossa imaginação. Ninguém considera essas coisas mais do que fazemos quanto aos paralelepípedos sobre os quais andamos. Ela reconheceu várias crianças de sua idade, que habitaram a mesma rua nossa, e que morreram há muito tempo.

Em um apartamento ricamente decorado, onde não havia ninguém, o que chamou sobretudo a sua atenção, foi uma grande mesa onde, de distância em distância, havia papel. Diante de cada caderno havia um tinteiro; ela via as penas, por si mesmas, umedecerem-se e traçarem caracteres, sem que nenhuma mão as movesse.

Em seu retorno, eu a recriminei por ter se ausentado sem minha autorização, e lhe proibi expressamente recomeçar semelhantes excursões. O invisível testemunhou-lhe muito lamentar haver me descontentado, e prometeu-lhe formalmente que, doravante, não a convidaria mais a ausentar-se sem disso me prevenir.

26 de abril.
O invisível transformou-se sob os olhos de X. e ele tomou tua forma, se bem que tua irmã acreditou que estavas no salão; para disso assegurar-se, ela disse-lhe que retomasse sua forma primitiva; logo tu desapareceste e foste substituído por mim. Seu espanto foi grande; ela me perguntou como eu me encontrava ali, estando a porta do salão fechada a chave.

Então uma nova transformação ocorreu; ele tomou a forma do irmão morto e disse a X.: Tua mãe e todos os membros de tua família não vêem sem espanto, e mesmo sem o sentimento de medo, todos os fatos que se cumprem pela minha intervenção. Meu desejo não é ocasionar pavor; entretanto, quero provar minha existência, e te colocar ao abrigo na incredulidade de todos, porque se poderia tomar por uma mentira de tua parte o que não seria da sua senão uma obstinação em não se render à evidência. A senhora C. é uma merceeira; sabes que se tem necessidade de comprar botões, nós iremos, ambos, comprá-los. Eu me transformarei em teu irmãozinho (ele tinha então 9 anos) e quando retornares à casa, pedirás a mamãe enviar à casa da senhora C. perguntar com quem te encontravas no momento em que ela te vendeu os botões." X. não deixou de se conformar com essas instruções. Mandei à casa da senhora C.; ela me respondeu que tua irmã estava com teu irmão, do qual fez um grande elogio dizendo que não se podia figurar que, em sua idade, fosse possível ter respostas tão fáceis, e, sobretudo, com tão pouca timidez. É bom dizer que o irmãozinho estivera na escola desde a manhã e não deveria retornar senão à tarde, pela sete horas, e que além disso é muito tímido e não tem essa facilidade que se lhe queria conceder. É muito curioso, não é? Creio que a mão de Deus não é estranha a essas coisas inexplicáveis.

7 de maio de 1855.
Não sou mais crédula do que se deve ser, e não me deixo dominar por idéias supersticiosas. No entanto, não posso me recusar a crer em fatos que ocorrem sob meus olhos. Necessitaria de provas bem evidentes para não infligir, à tua irmã, punições que lhe apliquei algumas vezes com pesar, com medo de que quisesse se divertir conosco, abusando de nossa confiança.

Ontem, eram cinco horas mais ou menos, quando o invisível disse à X.: "É provável que mamãe vá te enviar para alguma parte para fazer uma encomenda. Em teu curso serás agradavelmente surpreendida pela chegada da família de teu tio." X. me transmitiu logo o que o invisível dissera, eu estava bem longe de esperar essa chegada, e mais surpresa ainda de saber por esse modo. Tua irmã saiu e as primeiras pessoas que ela encontrou, efetivamente, foram meu irmão, sua mulher e seus filhos, que vinham nos ver. X. se apressou a dizer que eu deveria ter uma prova a mais da veracidade de tudo o que ela me dizia.

10 de maio de 1855.
Não posso mais duvidar, hoje, de qualquer coisa extraordinária na casa; vejo cumprirem-se todos esses fatos singulares sem medo, mas deles não posso retirar nenhum ensinamento, porque esses mistérios são inexplicáveis para mim.

Ontem, depois de ter posto ordem em todos os apartamentos, e tu sabes que é uma coisa à qual me prendo essencialmente, o invisível disse a X., que malgrado as provas que ele havia dado de sua intervenção, em todos os fatos curiosos que contei, eu tinha sempre dúvidas que ele queria fazer cessar completamente. Sem que nenhum ruído se fizesse ouvir, um minuto bastou para colocar a maior desordem nos apartamentos. Sobre o soalho, uma matéria vermelha fora derramada; creio que era sangue. Se fossem algumas gotas somente, creria que X, houvesse picado ou houvera sangrado o nariz, mas figura-te que o soalho estava inundado. Essa prova bizarra nos deu um trabalho considerável para colocar no salão seu brilho primitivo.

Antes de deslacrar as cartas que tu nos endereças, X. conhece-lhes o conteúdo. O invisível lho transmite.

16 de maio 1855.
X. não aceitou uma observação que sua irmã lhe fez, não sei a propósito de quê; ela deu uma resposta tanto menos conveniente quanto a censura era fundada. Infligi-lhe uma punição e ela foi dormir sem jantar. Antes de se deitar tem o hábito de orar a Deus. Essa noite ela o esqueceu; mas poucos instantes depois que foi ao leito, o invisível lhe apareceu; apresentou-lhe uma tocha e um livro de preces semelhante àquele que tinha o hábito de servir-se, disse lhe que, malgrado a punição que ela bem merecera, não devia esquecer de cumprir o seu dever. Então ela se levantou, fez o que lhe foi ordenado, e tão logo sua prece terminara, tudo desapareceu.

No dia seguinte, pela manhã, X., depois de ter me abraçado, perguntou-me se o castiçal que se achava sobre a mesa no andar acima de seu quarto, havia sido tirado. Ora, essa tocha, semelhante àquela que fora apresentada na véspera, não havia mudado de lugar, não mais que seu livro de preces.

4 de junho de 1855.
Desde há algum tempo, nenhum fato muito saliente ocorreu, senão o seguinte. Eu estava resfriada estes dias; anteontem, todas as suas irmãs estavam ocupadas, eu não dispunha de ninguém para mandar comprar a pasta peitoral. Disse a X. que, quando terminasse seu trabalho, faria bem ir procurar-me alguma coisa na farmácia mais próxima. Ela esqueceu a minha recomendação, e eu mesma nisso não pensei mais. Estava certa de que ela não saíra e não deixara seu trabalho senão para ir buscar uma sopeira de que tínhamos necessidade.

Sua surpresa foi grande, tirando a tampa, de aí encontrar um pacote de bala de cevada que o invisível havia depositado para poupar-lhe uma caminhada, e também para satisfazer um desejo meu que se havia perdido de vista.

Evocamos esse Espírito em uma das sessões da Sociedade e lhe endereçamos as perguntas seguintes. O senhor Adrien viu-o com os traços de uma criança de 10 a 12 anos; bela cabeça, cabelos negros e ondulados, olhos negros e vivos, tez pálida, boca zombadora, caráter leviano, mas bom. O Espírito disse não saber muito porque foi evocado.

Nosso correspondente, que estava presente à sessão, disse que são bem esses os traços sob os quais a jovem o pintou em várias circunstâncias.

1. Ouvimos contar a história de tuas manifestações numa família de Bayonne, e desejamos dirigir-te, a esse respeito, algumas perguntas. - R. Fazei-as e eu responderei; fazei-as depressa, estou com pressa, quero ir-me.

2. Onde pegaste o dinheiro que deste à jovem? - R. Fui tirar na bolsa de outros; compreendeis bem que não vou divertir-me cunhando moeda. Tomo daqueles que podem dar.

3. Por que te ligaste a esta jovem? - R. Grande simpatia.

4. E verdade que foste seu irmão morto com a idade de 4 anos? - R. Sim.

5. Por que era visível para ela e não para sua mãe? - R. Minha mãe deve estar privada de minha visão; mas minha irmã não tinha necessidade de punição; de resto, foi por permissão especial que lhe apareci.

6. Poderias explicar-nos como te tornas visível ou invisível à vontade? - R. Não sou bastante elevado, e estou muito preocupado com aquilo que me atrai, para responder a essa questão.

7. Poderias, se quisesses, aparecer aqui no meio de nós, como te mostraste à merceeira? - R. Não.

8. Nesse estado, seria sensível a dor se ferido? - R. Não.

9. Que teria acontecido se a merceeira quisesse ferir-te? - R. Ela não feriria senão o vazio.

10. Sob qual nome poderíamos designar-te quando falarmos de ti? - R. Chamai-me Fantasma se quiserdes. Deixai-me, é preciso que me vá.

11. (A São Luís). Seria útil ter às suas ordens um Espírito semelhante? - R. Freqüentemente, tende-os ao vosso redor, que vos assistem sem que disso desconfiais.

Considerações sobre o Fantasma de Bayonne.

Se aproximarmos esses fatos dos de Bergzabern, dos quais nossos leitores, sem dúvida, não perderam a lembrança, ver-se-á uma diferença capital. Ali era mais que um Espírito batedor;era, e é neste momento, um Espírito perturbador em toda a acepção da palavra. Sem fazer o mal, era um comensal muito incômodo e muito desagradável, sobre o qual voltaremos, no nosso próximo número, tendo novidades de suas recentes proezas. O de Bayonne, ao contrário, é eminentemente benevolente e prestativo; é o tipo desses bons Espíritos serviçais, dos quais as lendas alemãs nos cotamaltos fatos, nova prova de que pode haver, nas histórias legendárias, um fundo de verdade. Convir-se-á, de resto, 3 a imaginação teria pouca coisa a fazer para colocar esses fatos à altura de uma lenda, e que se poderia tomá-los por um conto da Idade Média, se não se passassem, por assim dizer, sob nossos olhos.

Um dos traços mais salientes do Espírito ao qual demos o nome de fantasma de Bayonne, são suas transformações. Que se dirá, agora, da fábula de Proteu? Há, ainda, esta diferença entre ele e o Espírito de Bergzabem, que esse último jamais se mostrou senão em sonho, ao passo que o nosso pequeno duende se tornava visível e tangível, como uma pessoa real, não somente à sua irmã, mas a estranhos: testemunhou a compra de botões na mercearia. Por que não se mostrava a todo o mundo e a toda hora? É o que não sabemos; parecia que isso não estava em seu poder e que não podia mesmo permanecer muito tempo nesse estado.

Talvez fosse preciso para isso um trabalho íntimo, um poder de vontade acima de suas forças.

Novos detalhes nos estão sendo prometidos sobre esses estranhos fenômenos; teremos ocasião de a eles retornar.


(atualizado em 22-10-08)

    


  

Os Agêneres

Revista Espírita, fevereiro de 1859

Repetimos muitas vezes a teoria das aparições, e a lembramos em nosso último número a propósito de fenômenos estranhos que relatamos. A eles remetemos nossos leitores, para a inteligência do que se vai seguir.

Todo mundo sabe que, no número das manifestações extraordinárias produzidas pelo senhor Home, estava a aparição de mãos, perfeitamente tangíveis, que cada um podia ver e apalpar, que pressionava e estreitava, depois que, de repente, não ofereciam senão o vazio quando as queriam agarrar de surpresa. Aí está um fato positivo, que se produziu em muitas circunstâncias, e que atestam numerosas testemunhas oculares. Por estranho e anormal que pareça, o maravilhoso cessa desde o instante em que se pode dele dar conta por uma explicação lógica; entra, então, na categoria dos fenômenos naturais, embora de ordem bem diferente daqueles que se produzem sob nossos olhos, e com os quais é preciso guardar-se para não confundi-los. Podem-se encontrar, nos fenômenos usuais, pontos de comparação, como aquele cego que se dava conta do clarão da luz e das cores pelo toque da trombeta, mas não de similitudes; é precisamente a mania de querer tudo assimilar àquilo que conhecemos, que causa decepções a certas pessoas; pensam poder operar sobre esses elementos novos como sobre o hidrogênio e o oxigênio. Ora, aí está o erro; esses fenômenos estão submetidos a condições que saem do círculo habitual de nossas observações; é preciso, antes de tudo, conhecê-las e com elas conformar-se, se se quiser obter resultados. É preciso, sobretudo, não perder de vista esse princípio essencial, verdadeira pedra principal da ciência espírita; é que o agente dos fenômenos vulgares é uma força física, material, que pode ser submetida às leis do cálculo, ao passo que nos fenômenos espíritas, esse agente é constantemente uma inteligência que tem sua vontade própria, e que não podemos submeter aos nossos caprichos.

Nessas mãos haviam a carne, pele, ossos, unhas reais? Evidentemente, não, não eram senão uma aparência, mas tal que produzia o efeito de realidade. Se um Espírito tem o poder de tornar uma parte qualquer de seu corpo etéreo visível e palpável, não há razão que não possa ser do mesmo modo com os outros órgãos. Suponhamos, pois, que um Espírito estenda essa aparência a todas as partes do corpo, creríamos ver um ser semelhante a nós, agindo como nós, ao passo que isso não seria senão um vapor momentaneamente solidificado. Tal é o caso do fantasma de Bayonne. A duração dessa aparência está submetida a condições que nos são desconhecidas; ela depende, sem dúvida, da vontade do Espírito, que pode produzi-la ou fazê-la cessar à sua vontade, mas em certos limites que não está sempre livre para transpor. Os Espíritos, interrogados quanto a esse assunto, assim também sobre todas as intermitências de quaisquer manifestações, sempre disseram que agem em virtude de uma permissão superior.

Se a duração da aparência corporal é limitada para certos Espíritos, podemos dizer que, em princípio, ela é variável, e pode persistir por um maior ou menor tempo; que pode produzir-se em todos os tempos e a toda hora. Um Espírito, cujo corpo todo fosse assim visível e palpável, teria para nós todas as aparências de um ser humano, e poderia falar conosco, sentar-se em nosso lar como uma pessoa qualquer, porque, para nós, seria um dos nossos semelhantes.

Partimos de um fato patente, a aparição de mãos tangíveis, para chegarmos a uma suposição que lhe é a conseqüência lógica; e, todavia, não a teríamos insinuado se a história da criança de Bayonne não tivesse sido colocada em nosso caminho, mostrando sua possibilidade. Um Espírito superior, perguntado sobre esse ponto, respondeu que, com efeito, podem-se encontrar seres dessa natureza sem disso duvidar; acrescentou que é raro, mas que isso se vê. Como para se entender é preciso um nome para cada coisa, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas chama-os agêneres para indicar que sua origem não é o produto de uma geração. O fato seguinte, que se passou recentemente em Paris, parece pertencer a essa categoria:

Uma pobre mulher estava na igreja de Saint-Roch, e pedia a Deus vir em ajuda de sua aflição. Em sua saída da igreja, na rua Saint-Honoré, ela encontrou um senhor que a abordou dizendo-lhe: "Minha brava mulher, estaríeis contente por encontrar trabalho? - Ah! meu bom senhor, disse ela, pedia a Deus que me fosse achá-lo, porque sou bem infeliz. - Pois bem! Ide em tal rua, em tal número; chamareis a senhora T...; ela vo-lo dará." Ali continuou seu caminho. A pobre mulher se encontrou, sem tardar, no endereço indicado - Tenho, com efeito trabalho a fazer, disse a dama em questão, mas como ainda não chamei ninguém, como ocorre que vindes me procurar? A pobre mulher, percebendo um retrato pendurado na parede, disse: - Senhora, foi esse senhor ali, que me enviou. - Esse senhor! Repetiu a dama espantada, mas isso não é possível; é o retrato de meu filho, que morreu há três anos. - Não sei como isso ocorre, mas vos asseguro que foi esse senhor, que acabo de encontrar saindo da igreja onde fui pedir a Deus para me assistir; ele me abordou, e foi muito bem ele quem me enviou aqui.

No que acabamos de ver, não haveria nada de surpreendente em que esse Espírito, do filho dessa dama, para prestar serviço a essa pobre mulher, da qual havia, sem dúvida, ouvido a prece, apareceu-lhe sob sua forma corporal para lhe indicar o endereço de sua mãe. Em que se tornou depois? Sem dúvida, no que era antes: num Espírito, a menos que não tenha julgado oportuno se mostrar as outras sob a mesma aparência, continuando seu passeio. Essa mulher, assim, teria encontrado um agênere, com o qual conversou. Mas, então, dir-se-á, por que não se apresentou à sua mãe? Nessas circunstâncias, os motivos determinantes dos Espíritos nos são completamente desconhecidos; eles agem como melhor lhes parece, ou melhor, como disseram, em virtude de uma permissão sem a qual eles não podem revelar sua existência de maneira material. Compreende-se, de resto, que sua visão poderia causar uma emoção perigosa à sua mãe; e quem sabe se não se apresentou a ela, seja durante o sono, seja de outro modo? E, aliás, esse não era o meio de revelar-lhe sua existência? É mais que provável que foi testemunha invisível da entrevista.

O Fantasma de Bayonne parece-nos dever ser considerado como um agênere, pelo menos nas circunstâncias em que se manifestou; porque para a família sempre teve o caráter de um Espírito, caráter que ele jamais procurou dissimular: era seu estado permanente, e as aparências corporais que tomou não foram senão acidentais; ao passo que o agênere, propriamente dito, não revela sua natureza, e não é, aos nossos olhos, senão um homem comum; sua aparição corporal pode, se for preciso, ter longa duração para poder estabelecer relações sociais com um ou com vários indivíduos.

Pedimos ao Espírito de São Luís consentir em nos esclarecer diferentes pontos, respondendo às nossas perguntas.

1. O Espírito do Fantasma de Bayonne poderia se mostrar corporalmente em outros lugares e a outras pessoas senão em sua família? - R. Sim, sem dúvida.

2. Isso depende de sua vontade? - R. Não precisamente; o poder dos Espíritos é limitado; não fazem senão o que lhes é permitido fazerem.

3. Que ocorreria se fosse apresentado a uma pessoa desconhecida? - R. Seria tomado por uma criança comum. Mas vos direi uma coisa, é que existe, algumas vezes, na Terra, Espíritos que revestem essa aparência, e que são tomados por homens.

4. Esses seres pertencem aos Espíritos inferiores ou superiores? - R. Podem pertencer aos dois; esses são fatos raros. Deles tendes exemplos na Bíblia.

5. Raros ou não, basta que sejam possíveis para merecerem a atenção. Que ocorreria, tomando semelhante ser por um homem comum, se lhe fizesse um ferimento mortal? Seria morto? - R. Desapareceria subitamente, como o jovem de Londres. (Ver o número de dezembro de 1858, Fenômeno de bi-corporeidade.)

6. Têm eles paixões? - R. Sim, como Espíritos, têm as paixões de Espíritos segundo a sua inferioridade. Se tomam um corpo aparente, algumas vezes, é para gozarem as paixões humanas; se são elevados, é para um fim útil.

7. Podem eles procriar? - R. Deus não lhes permitiria; seria contrário às leis que estabeleceu para a Terra; elas não podem ser elididas.

8. Se um semelhante ser a nós se apresentasse, haveria um meio para reconhecê-lo? - R. Não, apenas pela sua desaparição, que se faz de modo inesperado. É o mesmo fato do transporte de móveis de um térreo ao sótão, fato que já lestes.

Nota. Alusão a um fato dessa natureza reportado no começo da sessão.

9. Qual é a finalidade que pode levar certos Espíritos a tomarem esse estado corporal; é antes para o mal que para o bem? - R. Freqüentemente para o mal; os bons Espíritos dispõem da inspiração; agem sobre a alma e pelo coração. Vós o sabeis, as manifestações físicas são produzidas por Espíritos inferiores, e estas são desse número. Entretanto, como já disse, os bons Espíritos também podem tomar essa aparência corpórea com um fim útil; falei de modo geral.

10. Nesse estado, podem tomar-se visíveis ou invisíveis à vontade? - R. Sim, uma vez que poderão desaparecer quando o quiserem.

11. Têm um poder oculto, superior ao dos outros homens? - R. Não têm senão o poder que lhes dá sua posição como Espíritos.

12. Têm eles uma necessidade real de se alimentarem? - R. Não; o corpo não é um corpo real.

13. Entretanto, o jovem de Londres não tinha um corpo real, e todavia almoçou com os amigos, e lhes apertou a mão. Em que se tornou a alimentação ingerida? - R. Antes de apertar a mão, onde estavam os dedos que pressionam? Por que não quereis compreender que a matéria desaparece também? O corpo do jovem de Londres não era uma realidade, uma vez que estava em Boulogne; era, pois, uma aparência; ocorria o mesmo com o alimento que parecia ingerir.

14. Tendo-se um semelhante ser em casa, seria um bem ou um mal? - R. Seria antes um mal; de resto, não se podem adquirir muitos conhecimentos com esses seres. Não podemos dizer-vos muito, esses fatos são excessivamente raros e não têm, jamais, um caráter de permanência. Suas desaparições corpóreas instantâneas, como as de Bayonne, o são muito menos.

15. Um Espírito familiar protetor, algumas vezes, toma essa forma? - R. Não; não tem ele as cordas interiores? Toca-as mais facilmente do que o faria sob forma visível, ou se o tomássemos como um dos nossos semelhantes.

16. Perguntou-se se o conde de Saint-German não pertencia à categoria dos agêneres. - R. Não; era um hábil mistificador.

A história do jovem de Londres, narrada em nosso número de dezembro, é um fato de bicorporeidade, ou melhor, de dupla presença, que difere essencialmente daquele em questão. O agênere não tem corpo vivo na Terra; somente seu perispírito toma forma palpável. O jovem de Londres estava perfeitamente vivo; enquanto seu corpo dormia em Boulogne, seu espírito, envolvido pelo perispírito, foi a Londres, onde tomou uma aparência tangível.

Um fato quase análogo nos é pessoal. Enquanto estávamos pacificamente em nossa cama, um dos nossos amigos viu-nos várias vezes em sua casa, embora sob uma aparência não tangível, sentado ao seu lado e conversando com ele como de hábito. Uma vez nos viu com roupão, outras vezes com paletó. Transcreveu nossa conversa, que nos comunicou no dia seguinte. Ela era, pensando bem, relativa aos nossos trabalhos prediletos. Para fazer uma experiência, ofereceu-nos refrescos, e eis nossa resposta: "Deles não necessito, uma vez que não é meu corpo que aqui está; vós o sabeis, não há nenhuma necessidade de vos produzir uma ilusão." Uma circunstância, bastante bizarra, se apresentou na ocasião. Seja predisposição natural, seja resultado de nossos trabalhos intelectuais, sérios desde nossa juventude, poderíamos dizê-lo desde a infância, o fundo do nosso caráter sempre teve uma extrema gravidade, mesmo na idade em que não se pensa mais do que no prazer. Essa preocupação constante nos dá um encontro muito frio, excessivamente frio mesmo; ao menos é pelo que somos freqüentemente censurados; mas, sob essa falsa aparência glacial, o Espírito sente, talvez mais vivamente, como se tivesse mais expansão exterior. Ora, em nossas visitas noturnas ao nosso amigo, este ficou surpreso por nos achar diferente; éramos mais aberto, mais comunicativo, quase alegre. Tudo respirando, em nós, a satisfação e a calma do bem-estar. Não está aí um efeito do Espírito desligado da matéria?

(atualizado em 03-11-08)

    


  

Dignidade - Fator de resgate (fato verídico)

Liana Aguiar

Estudo para resgatar dignidade

Wallison Ricardo dos Santos, 25, abandonou a escola ainda cedo, aos 16 anos. O vício nas drogas o fez parar na 7ª série. Com as constantes brigas familiares por causa do ritmo de vida que levava, saiu de casa e passou a trabalhar como catador de papel. Morou em um barracão nos fundos do depósito de material reciclável. Naquela época, pegava a carroça às 4 horas da manhã e só parava às 10 da noite. Mas tudo o que ganhava era gasto com o vício. Numa madrugada, assistiu a um programa evangélico na TV e decidiu mudar: entrou para a igreja e voltou à sala de aula.

O rapaz se matriculou no Programa Nacional de Inclusão de Jovens e Adultos (ProJovem). Foi a primeira vez que teve contato com computador. Recebeu aulas de informática e, com o auxílio de 100 reais que recebia no programa, pagou mais um curso na área. Com o aprendizado, tornou-se instrutor de informática e hoje trabalha como auxiliar administrativo em um escritório que presta serviços de manutenção a usinas.

Era a oportunidade que ele precisava. Além de aprender uma profissão, o curso foi um incentivo para buscar um emprego melhor. Wallison não para os estudos por aí. Já fez a matrícula no ensino médio, em uma escola estadual que oferece Educação de Jovens e Adultos (EJA) e planeja fazer faculdade de Teologia.

Dos tempos de catador de papel, lembra-se de um episódio que o marcou. Em uma noite, véspera de Natal, parou uma mulher em um Honda Civic e o perguntou: “Você tem família?” “Respondi que sim e ela me deu 50 reais para passar o Natal. Gastei tudo com drogas”, recorda-se. “Se você quer ajudar, ajude uma instituição, uma creche, invista em educação, isso sim é uma ajuda”, orienta. Hoje, Wallison conta que deixa orgulhosa a família. “Minha mãe achou maravilhoso eu voltar a estudar. Morria de vergonha de ver o filho dela em cima de uma carroça.”

O Projovem Urbano atende pessoas de 18 a 29 anos que não concluíram o ensino fundamental. Os jovens recebem, além das aulas de ensino regular, cursos de línguas, informática, ação comunitária e qualificação profissional nas áreas de administração, saúde e vestuário. Os participantes têm um benefício de 100 reais mensais. O Projovem Urbano é uma reformulação do programa: passou a ter uma duração de 18 meses, ampliou as séries (de 1ª a 8ª) e a faixa etária assistida.

Rodrigo Melo e Cunha Santos, coordenador geral do Projovem em Goiânia, explica que o programa visa a inclusão, o resgate do jovem que teve de parar de estudar. Ele se orgulha de ver que grande parte já conseguiu ir para o ensino médio, entrar no mercado de trabalho, seguir com uma carreira. Além do Urbano, há o Projovem Adolescente (15 a 17 anos), o Projovem Trabalhador (para quem já completou o ensino fundamental) e o Projovem Campo (para zonas rurais).

O programa é uma iniciativa do governo federal em parceria com a prefeitura de Goiânia, que este ano oferece 2.400 vagas. As inscrições estão abertas até 31 de janeiro, pelo Telematrícula. O telefone é 0800-646-0156.

(atualizado em 28-01-09)

    


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Atualizado em: 28-01-2009
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