Introdução
ao Livro dos Espíritos por Herculano Pires
Com este livro, a 18 e abril de
1857, raiou para o mundo a era
espírita. Nele se cumpria a
promessa evangélica do
Consolador, do Paracleto ou
Espírito da Verdade. Dizer isso
equivale a afirmar que «O Livro
dos Espíritos» é o código de uma
nova fase da evolução humana. E
é exatamente essa a sua posição
na história do pensamento. Este
não é um livro comum, que se
pode ler de um dia para o outro
e depois esquecer num canto da
estante. Nosso dever é estudá-lo
e meditá-lo, lendo-o e relendo-o
constantemente.
Sobre este livro se ergue todo
um edifício: o da doutrina
espírita. Ele é a pedra
fundamental do Espiritismo, o
seu marco inicial. O Espiritismo
surgiu com ele e com ele se
propagou., com ele se impôs e
consolidou no mundo. Antes deste
livro não havia Espiritismo, e
nem mesmo esta palavra existia.
Falava-se em Espiritualismo e
Neo-Espiritualismo, de maneira
geral, vaga e nebulosa. Os fatos
espíritas, que sempre existiram,
eram interpretados das mais
diversas maneiras. Mas, depois
que Kardec o lançou à
publicidade, «contendo os
princípios da doutrina
espírita», uma nova luz brilhou
nos horizonte mentais do mundo.
Há uma seqüência histórica que
não podemos esquecer, ao tomar
este livro nas mãos. Quando o
mundo se preparava para sair do
caos das civilizações
primitivas, apareceu Moisés,
como o condutor de um povo
destinado a traças as linhas de
um novo mundo: e de suas mãos
surgiu a Bíblia. Não foi Moisés
quem a escreveu, mas foi ele o
motivo central dessa primeira
codificação do novo ciclo de
revelações: o cristão. Mais
tarde, quando a influência
bíblica já havia modelado um
povo, e quando este povo já se
dispersava por todo o mundo
gentio, espalhando a nova lei,
apareceu Jesus: e das suas
palavras, recolhidas pelos
discípulos, surgiu o Evangelho.
A Bíblia é a codificação da
primeira revelação cristã, o
código hebraico em que se
fundiram os princípios sagrados
e as grandes lendas religiosas
dos povos antigos. A grande
síntese dos esforços da
antiguidade em direção ao
espírito. Não é de admirar que
se apresente muitas vezes
assustadora e contraditória,
para o homem moderno. O
Evangelho é a codificação da
segunda revelação cristã, a que
brilha no centro da tríada
dessas revelações, tendo na
figura do Cristo o sol que
ilumina as duas outras, que
lança a sua luz sobre o passado
e o futuro, estabelecendo entre
ambos a conexão necessária. Mas
assim como, na Bíblia, já se
anunciava o Evangelho, também
neste aparecia a predição de um
novo código, o do Espírito da
Verdade, como se vê em João,
XIV. E o novo código surgiu
pelas mãos de Allan Kardec, sob
a orientação do Espírito da
Verdade, no momento exato em que
o mundo se preparava para entrar
numa fase superior de
desenvolvimento.
Hegel, em suas lições de
estética, mostra-nos as criações
monstruosas da arte oriental, -
figuras gigantescas, de duas
cabeças e muitos braços e
pernas, e outras formas
diversas, - como a primeira
tentativa do Belo para dominar a
matéria e conseguir exprimir-se
através dela. A matéria
grosseira resiste à força do
ideal, desfigurando-o nas suas
representações. Mas acaba sendo
dominada, e então aparecem no
mundo as formas equilibradas e
harmoniosas da arte clássica.
Atingido, porém, o máximo de
equilíbrio possível, o Belo
mesmo rompe esse equilíbrio, nas
formas românticas e modernas da
arte, procurando superar o seu
instrumento material, para
melhor e mais livremente se
exprimir. Essa grandiosa teoria
hegeliana nos parece
perfeitamente aplicável ao
processo das revelações cristãs:
das formas incongruentes e
aterradoras da Bíblia, passamos
ao equilíbrio clássico do
Evangelho, e deste à libertação
espiritual de «O Livro dos
Espíritos».
Cada fase da evolução humana se
encerra com uma síntese
conceptual de todas as suas
realizações. A Bíblia é a
síntese da antiguidade, como o
Evangelho é a síntese do mundo
greco-romano-judaico,, e «O
Livro dos Espíritos» a do mundo
moderno. Mas cada síntese não
traz em si tão somente os
resultados da evolução
realizada, porque encerra também
os germens do futuro. E na
síntese evangélica temos de
considerar, sobretudo, a
presença do Messias, como uma
intervenção direta do Alto para
a reorientação do pensamento
terreno. É graças a essa
intervenção que os princípios
evangélicos passam diretamente,
sem necessidade de readaptações
ou modificações, em sua pureza
primitiva, para as páginas deste
livro, como as vigas mestras da
edificação da nova era.
A Codificação Espírita
«O Livro dos Espíritos» não é,
porém, apenas, a pedra
fundamental ou o marco inicial
da nova codificação. Porque é o
seu próprio delineamento, o seu
núcleo central e ao mesmo tempo
o arcabouço geral da doutrina.
Examinando-o, em relação às
demais obras de Kardec, que
completam a codificação,
verificamos que todas essas
obras partem do seu conteúdo.
Podemos definir as várias zonas
do texto correspondentes a cada
uma delas.
Assim como, na Bíblia, há o
núcleo central do Pentateuco, e
no Evangelho o do ensino moral
do Cristo, no «Livro dos
Espíritos» podemos encontrar uma
parte que se refere a ele mesmo,
ao seu próprio conteúdo: é o
constante dos Livros I e II, até
o capítulo quinto. Este núcleo
representa, dentro da
esquematização geral da
codificação, que encontramos no
livro, a parte que a ele
corresponde. Quanto aos demais,
verificamos o seguinte:
1º) «O Livro dos Médiuns»,
seqüência natural deste livro,
que trata especialmente da parte
experimental da doutrina, tem a
sua fonte no Livro II, a partir
do capítulo sexto até o final.
Toda a matéria contida nessa
parte é reorganizada e ampliada
naquele livro, principalmente a
referente ao capítulo nono:
«Intervenção dos Espíritos no
mundo corpóreo».
2º) «O Evangelho segundo o
Espiritismo» é uma decorrência
natural do Livro III, em que são
estudadas as leis morais,
tratando-se especialmente da
aplicação dos princípios da
moral evangélica, bem como dos
problemas religiosos da
adoração, da prece e da prática
da caridade. Nessa parte, o
leitor encontrará, inclusive, as
primeiras formas de «Instruções
dos Espíritos», comuns aquele
livro, com a transcrição de
comunicações por extenso e
assinadas, sobre questões
evangélicas.
3º) «O Céu e o Inferno» decorre
do Livro IV, «Esperanças e
Consolações», em que são
estudadas os problemas
referentes às penas e aos gozos
terrenos e futuros, inclusive
com a discussão do dogma das
penas eternas e a análise de
outros dogmas, como o da
ressurreição da carne, e os dos
paraíso, inferno e purgatório.
4º) «A Gênese, os milagres e as
predições», relaciona-se aos
capítulos II, III e IV do Livro
I, e capítulo IX, X e XI do
Livro II, assim como as partes
dos capítulos do Livro III que
tratam dos problemas genésicos e
da evolução física da terra. Por
seu sentido amplo, que abrange
ao mesmo tempo as questões da
formação e do desenvolvimento do
globo terreno, e as referentes a
passagens evangélicas e
escriturísticas, esse livro da
codificação se ramifica de
maneira mais difusa que os
outros, na estrutura da
obra-mater.
5º) Os pequenos livros
introdutórios ao estudo da
doutrina, «O Principiante
Espírita» e «O que é o
Espiritismo», que não se incluem
propriamente na codificação,
também eles estão diretamente
relacionados com «O Livro dos
Espíritos», decorrendo da
«Introdução» e dos
«Prolegomenos».
A Filosofia Espírita
Esta rápida apreciação da
estrutura de «O Livro dos
Espíritos», em suas ligações com
as demais obras da codificação,
parece-os suficiente para
mostrar que ele constitui, como
dissemos, no início, o arcabouço
filosófico do Espiritismo.
Contém, segundo Kardec declarou
no frontispício, «Os princípios
da doutrina espírita». É,
portanto, o seu tratado
filosófico. Embora não tenha
sido elaborado em linguagem
técnica, e não observe os
rigores da minúcias exposição
filosófica, é todo um complexo e
amplo sistema de filosofia que
nele se expõe.
Ao apreciá-lo, sob esse aspecto,
devemos considerar que Kardec
não era um filósofo, mas um
educador, um especialista em
pedagogia, discípulo emérito de
Pestalozzi. Daí o aspecto antes
didático do que propriamente de
exposição filosófica que
imprimiu ao livro.
Em segundo lugar, a obra não foi
propriamente escrita por ele,
mas elaborada com as respostas
dadas pelos Espíritos às suas
perguntas, nas sessões
mediúnicas, com as meninas
Boudin e Japhet, e mais tarde
com outros médiuns.
Em terceiro lugar, o livro não
se destinava a forma escola
filosófica, a conquistar os
meios especializados, mas apenas
a divulgar os princípios da
doutrina de maneira ampla,
convocando os homens em geral
para o estudo de uma realidade
superior a todas as elucubrações
do intelecto.
Em quarto lugar, o próprio
Kardec teve o cuidado de
advertir, nos «Prolegomenos» ,
que evitava os prejuízos do
espírito de sistema, como vemos
neste trecho, em que se refere
ao ensino dos Espíritos: «Ce
livre est le recueil de leurs
enseignements; il a été écrit
par l'ordre et sous la dictée
d'Esprits supérieurs pour
établir les fondements d'une
philosophie rationelle, dégagée
des préjugés de l'esprit de
systhème.»
Como se vê, «estabelecer os
fundamentos de uma filosofia
racional, livre dos prejuízos do
espírito de sistema», e não
criar uma nova escola
filosófica, o que implicaria
toda uma rígida sistematização.
Esse propósito vem ao encontro
do pensamento dos filósofos
modernos, como vemos, por
exemplo, em Ernest Cassirer, que
em sua «Antropologia
Filosófica», referindo-se à
inconveniência dos sistemas,
diz: «Cada teoria se converte
num leito de Procusto, em que os
fatos empíricos são obrigados a
se acomodar a um padrão
preconcebido». Max Scheller, por
sua vez, comenta: «Dispomos de
uma antropologia científica,
outra filosófica e outra
teológica, que se ignoram entre
si». Kardec esquivou-se
precisamente a isso, tanto mais
que o espírito de sistema seria
a própria negação dos objetivos
da doutrina.
Quanto ao problema da linguagem
técnica, não devemos nos
esquecer de que o livro se
destinava ao grande público, e
não apenas aos especialistas.
Podemos lembrar, a propósito, o
exemplo de Descartes, que
escreveu o seu «Discurso do
Método» em francês, quando o
latim era a língua oficial da
filosofia, porque desejava
dar-lhe maior divulgação. Mesmo
que Kardec fosse um filósofo
especializado, a linguagem
técnica não serviria aos seus
propósitos nesta obra.
Quanto ao método didático, não
seria este o primeiro livro de
filosofia a dele se socorrer.
Podemos lembrar, por exemplo, «A
Ética», de Espinosa. Kardec
inicia este livro com a
definição de Deus, como Espinosa
naquele, e se não segue a forma
geométrica de exposição, por
meio de definições, axiomas,
proposições e escólios, segue
entretanto a forma lógica,
através de perguntas e
respostas, intercaladas de
comentários e explicações. Há,
aliás, curiosas similaridade de
estrutura, de posição, de
ligações histórica e de
princípios, entre esses dois
livros, reclamando estudo mais
aprofundado. Como as há entre o
que se pode chamar a revolução
cartesiana e o Espiritismo, a
começar pelos famosos sonhos de
Descartes e a sua convicção de
haver sido inspirado pelo
Espírito da Verdade.
Yvonne Castellan, num breve,
falho, às vezes gritantemente
injusto, mas em parte simpático
estudo da doutrina referindo-se
ao «Livro dos Espíritos», mostra
que: «O sistema é completo, e
compreende uma metafísica,
inteiramente repleta de
considerações físicas ou
genéticas, e uma moral.» Numa
análise mais séria, a autora
teria visto que a estrutura é
mais complexa do que supôs.
O livro começa pela metafísica,
passando depois à cosmologia, à
psicologia, aos problemas
propriamente espíritas da origem
e natureza do espírito e suas
ligações com o corpo, bem como
aos da vida após a morte, para
chegar, com as leis morais, à
sociologia e à ética, e
concluir, no Livro IV, com as
considerações de ordem teológica
sobre as penas e gozos futuros e
a intervenção de Deus na vida
humana. Todo um vasto sistema,
sem as exigências opressoras ou
os prejuízos do espírito de
sistema, numa estrutura livre e
dinâmica, em que os problemas
são postos em debate.
Lembrando-nos dos primórdios do
Cristianismo, podemos dizer que
o Espiritismo tem sobre ele uma
vantagem, no tocante ao problema
filosófico. A simplicidade de «O
Livro dos Espíritos» não chegar
ao ponto de nos obrigar a
adaptar sistema antigos aos
nossos princípios, como
aconteceu com Santo Agostinho e
São Tomás, em relação a Platão e
Aristóteles, para a criação da
chamada filosofia cristã. O
Espiritismo já tem o seu próprio
sistema, na forma ideal que o
futuro consagrará, e cujas
vantagens vimos acima.
Por outro lado, é curioso notar
que «O Livro dos Espíritos» se
enquadra numa das formas
clássicas e mais fecundamente
livres da tradição filosófica: o
diálogo. Por tudo isso, vê-se
que Kardec, sem ser o que se
pode chamar um filósofo
profissional, tinha muita razão
ao afirma, no capítulo VI da
«Conclusão», referindo-se ao
Espiritismo «Sa force est dans
sa philosphie, dans l'appel
qu'il fait à la raison, au
bon-sens»
A Dialética Espírita
Hegel definiu a estrutura e a
função do diálogo, identificando
as suas leis com as do próprio
ser: tese, antítese e síntese.
Mais tarde, Marx e Engels
deslocaram o diálogo dessas
concepção ontológica, para lhe
dar um sentido materialista e
revolucionário. Coube a Hamilin,
entretanto, defini-lo em seu
aspecto mais fecundo, como um
processo de fusão necessária da
tese e da antítese, na produção
de uma nova idéia ou nova tese.
Este, a nosso ver, é o processo
dialético do Espiritismo, que em
vez de dar ênfase à contradição
em si, à luta dos opostos,
prefere dá-la à harmonia, à
fusão dos contrários, para uma
nova criação. E é nesse sentido
que se desenvolve o diálogo no
«Livro dos Espíritos».
Nunca houve, aliás, um diálogo
como este. Jamais um homem se
debruçou, com toda a segurança
do homem moderno, nas bordas do
abismo do incognoscível, para
interrogá-lo, ouvir as suas
vozes misteriosas,
contradizê-lo, discutir com ele,
e afinal arrancar-lhe os mais
íntimos segredos. E nunca,
também, o abismo se mostrou tão
dócil, e até mesmo desejoso de
se revelar ao homem em todos os
seus aspectos.
Sócrates ouvia as vozes do seu
«daimon» e discutia com o
Oráculo de Delfos. Mas Kardec
não se limitou a isso: foi mais
longe, dialogando com todo o
mundo invisível, analisando
rigorosamente as suas vozes,
ouvindo inferiores e superiores,
para descobrir as leis desse
mundo, as formas de vida nele
existentes, o mecanismo das suas
relações com o nosso.
O método dialético é o processo
natural do desenvolvimento,
tanto do pensamento como de
todas as coisas. Emmanuel, certa
vez, comparou o Velho Testamento
a um apelo dos homens a Deus, e
o Novo Testamento, à resposta de
Deus. Aceitando essa imagem,
podemos dizer que «O Livro dos
Espíritos» é a síntese desse
diálogo, é o momento em que
segundo a definição de Hamelin,
o apelo e a resposta se fundem
na compreensão espiritual,
abrindo caminho a uma nova fase
da vida terrena.
A Legitimidade do Livro
Ao publicar «A Gênese», em 1868,
Kardec pôde acentuar que «O
Livro dos Espíritos», lançado
dez anos antes, continuava tão
sólido como então. Nenhum dos
seus princípios fundamentais
havia sido abalado pela
experiência, todos permaneciam
em pé. Hoje, cem anos depois, se
ainda vivesse entre nós, o
codificador poderia dizer o
mesmo.
E isso num século em que o mundo
se transformou de maneira
vertiginosa, em que a chamada
ciência positiva foi revirada de
ponta a ponta, em que as
concepções filosóficas sofreram
tremendos impactos. Há conceitos
que, à primeira vista, parecem
desmentidos, ou pelo menos
postos em dúvida pela ciência. É
o caso do fluido universal, mas
somente quando o confundimos com
o conceito científico do éter
espacial.
Na verdade, o desenvolvimento da
ciência se processa exatamente
na direcção dos princípios
espíritas. A desintegração da
matéria pela física nuclear, a
concepção da matéria como
concentração de energia, a
percepção cada vez mais clara de
uma estrutura matemática do
universo, a conclusão a que
alguns cientistas são forçados a
chegar, de que, por trás da
energia parece haver outra
coisa, que seria o pensamento,
tudo isso nos mostra que Kardec
tinha razão ao proclamar que nem
Deus, nem a religião verdadeira,
nem portanto o Espiritismo
tinham nada a perder com o
avanço da ciência. Pelo
contrário, só tem a ganhar, como
os fatos demonstram, dia a dia.
Essa segurança dos princípios
espíritas decorre da
legitimidade da fonte espiritual
deste livro, da pureza dos seus
meios de transmissão mediúnica,
da precisão do método
kardeciano.
A fonte, como se vê pela
revelação espontânea e
inesperada do Espírito da
Verdade a Kardec, segundo as
anotações autobiográficas de
«Obras Póstumas», e pela
confirmação posterior de tantos
outros Espíritos, ou como se
pode constatar, lógica e
historicamente, pelo processo de
restabelecimento do
Cristianismo, que o Espiritismo
realiza, é a mesma de que
precedeu aquele. Não é Kardec,
nem este ou aquele Espírito em
particular, nem um grupo de
homens, mas toda a falange do
Espírito da Verdade, enviada à
terra em cumprimento da promessa
de Jesus a fonte espiritual de
«O Livro dos Espíritos».
Quanto aos meios mediúnicos de
transmissão, correspondiam à
pureza da fonte. As médiuns que
serviram a esse trabalho foram
duas meninas, Caroline e Julie
Boudin, de 16 e 14 anos
respectivamente, a que mais
tarde se juntaria outra menina,
a Srta. Japhet, no processo de
revisão do livro. As reuniões se
realizavam na casa da família
Boudin, na intimidade do lar,
entre pessoas amigas, e as
respostas dos Espíritos eram
transmitidas por meio da cesta
de bico, a que se adaptava um
lápis. As meninas punham as mãos
sobre a cesta e esta se
movimentava, escrevendo as
mensagens, com absoluta
impossibilidade de ação dos
médiuns na escrita. Mais tarde,
seguindo instruções dos próprios
Espíritos, Kardec submete o
livro ao controle de outros
médiuns, mas todos escolhidos
criteriosamente. Além disso, as
respostas dos Espíritos eram
confrontadas com as comunicações
obtidas em outros grupos, em
obediência ao princípio da
universalidade das revelações,
que veremos a seguir.
O método de Kardec
transformou-se no método da
própria doutrina, e tem, na sua
própria simplicidade, a garantia
da sua eficiência. Podemos
resumi-lo assim:
1.º) Escolha de colaboradores
mediúnicos insuspeitos, tanto do
ponto de vista moral, quando da
pureza das faculdades e da
assistência espiritual;
2.º) Análise rigorosa das
comunicações, do ponto de vista
lógico, bem como do seu
confronto com as verdades
científicas demonstradas,
pondo-se de lado tudo aquilo que
não possa ser logicamente
justificado;
3.º) Controle dos Espíritos
comunicantes, através da
coerência de suas comunicações e
do teor de sua linguagem;
4.º) Consenso universal, ou
seja, concordância de várias
comunicações, dadas por médiuns
diferentes, ao mesmo tempo e em
vários lugares, sobre o mesmo
assunto.
Armado desses princípios,
escudado rigorosamente nesse
critério, Kardec pôde realizar a
difícil tarefa de reunir a série
de informações que lhe
permitiram organizar o livro.
Interessante lembrar que esse
mesmo critério, em parte, havia
sido ensinado por João, em sua
primeira epístola (IV:1) bem
como pelo apóstolo Paulo, em sua
primeira epístola aos coríntios.
As raízes do método kardeciano
estão no Novo Testamento.
Não se pode confundir, porém, o
método doutrinário com os
métodos de investigação
científica dos fenômenos
espíritas. No trato mediúnico, a
premissa da existência do
Espírito e da possibilidade da
comunicação já está firmada. O
que importa é o controle da
legitimidade da comunicação. Na
pesquisa científica, tudo ainda
está para ser descoberto e
provado. As investigações
científicas podem variar
infinitamente de processos e
métodos, de acordo com os
investigadores. As sessões
mediúnicas não podem fugir ao
método kardeciano, que se
comprovou na prática, há um
século, o único realmente
eficiente, e que procede, como
vimos, das reuniões mediúnicas
da era apostólica.
Problemas secundários, como o da
assinatura de certas
comunicações por nomes céleres,
são explicados por Kardec na
«Introdução ao Estudo da
Doutrina Espírita», publicando
apenas a mensagem, como fez com
a maioria das respostas deste
livro. Essas assinatura, segundo
dizem, afastam da obra muitos
leitores, que a consideram
mistificação grosseira.
A explicação está na sinceridade
de Kardec e na sua fidelidade ao
Espíritos que lhe revelaram a
doutrina. Ocultar-lhes os nomes
seria deixar uma possibilidade
de lhe atribuírem a obra, e ele
sempre fez questão de precisar
que não passava de um
colaborador dos autores
espirituais. Além disso, suas
explicações a respeito são
absolutamente claras, para todos
os que estão aptos a compreender
o fenômeno espírita em sua
plenitude
O Problema Científico
Kardec examina o problema
científico do Espiritismo nos
capítulos VII e VII da
«Introdução ao estudo da
doutrina espírita». Vejamos um
trecho bastante esclarecedor,
cuja tradução o leitor
encontrará no lugar próprio
desta edição: «La science
propement dite, comme science,
est donc incompétente pour se
prononcer dans la question du
spiritisme: elle n'a pas à s'en
occuper, et son jugement, quel
qu'il soit, favorable ou non, ne
saurait être d'aucun poids.»
Não obstante, Kardec insiste no
caráter científico da doutrina.
Caráter próprio, como ele
explica nos capítulos citados,
pois se trata de uma ciência que
deve ter os seus próprios
métodos, uma vez que o seu
objeto não é a matéria, mas o
espírito.
Por que essa insistência no
caráter científico? Porque «O
Livro dos Espíritos» vem abrir
uma nova era no estudo dos
problemas espirituais. Até a sua
publicação, esses problemas eram
tratados de maneira empírica ou
apenas imaginosa. As religiões,
como seus intrincados sistemas
teológicos, ou as ordens
ocultas, as corporações místicas
e teosóficas, deslocavam os
problemas do espírito para o
terreno do mistério. O
conhecimento humano se dividia,
para nos servirmos das
expressões de Santo Agostinho,
na «iluminação divina» e na
«experiência».
O Espiritismo veio modificar
essa ordem de coisas, mostrando
a possibilidade de encararmos os
problemas espirituais através da
experiência agostiniana, ou
seja, através da mesma razão que
aplicamos aos problemas
materiais. Nesse sentido, «O
Livro dos Espíritos» se
apresenta como um divisor de
águas. Tudo aquilo que, antes
dele, constitui o
espiritualismo, pode ser chamado
«espiritualismo utópico», e tudo
o que vem com ele e depois dele,
seguindo a sua linha
doutrinária, «espiritualismo
científico», como fazem os
marxistas com o socialismo de
antes e depois de Marx.
Esta a posição especial de «O
Livro dos Espíritos», no plano
da cultura espiritual. Com ele,
o espírito e os seus problemas
saíram do terreno da abstração,
para se tornarem acessíveis à
investigação racional, e até
mesmo à pesquisa experimental. O
sobrenatural tornou-se natural.
Tudo se reduziu a um questão de
conhecimento das leis que regem
o universo.
A tese espinosiana da
impossibilidade do milagre, como
violação da ordem natural, veio
comprovar-se nas suas
demonstrações. E as leis dessa
ordem, como vemos no capítulo
primeiro do Livro III, são todas
naturais, quer digam respeito às
relações materiais, quer às
espirituais e morais. Não existe
o sobrenatural, senão para a
ignorância humana das leis
naturais, uma vez que o universo
é um sistema único, e todas as
suas partes se entrosam na
grande estrutura.
O Problema Religioso
A natureza religiosa do «Livro
dos Espíritos», ressalta desde
as suas primeiras páginas. Como
já vimos, Kardec o inicia pela
definição de Deus Mas o Deus
espírita não é antropomórfico,
não é um ser constituído à
imagem e semelhança do homem,
como o das religiões. A
definição espírita é incisiva:
«Deus é a inteligência suprema,
causa primária de todas as
coisas.»
Assim como, para Espinosa, Deus
é a substância infinita, para
Kardec é a inteligência
infinita. Mas assim como erraram
os que confundiram a substância
espinosiana com o Universo,
assim também se enganam os que
confundem a inteligência
infinita com o homem finito, e a
religião espírita com os
formalismos religiosos.
Os atributos de Deus não se
confundem com os precários
atributos humanos: ele é eterno,
imutável, imaterial, único, todo
poderoso, soberanamente justo e
bom. Deus não se confunde com o
Universo, pois é o criador e o
mantenedor do Universo.
Entretanto, ao tratar da justiça
de Deus, vemos Kardec empregar
uma terminologia antropomórfica,
falando em castigos e
recompensas, o que tem dado
motivo a afirmar-se que o Deus
espírita é semelhante ao das
religiões.
A explicação desse fato, que à
primeira vista parece
contraditória, está no item
décimo do capítulo primeiro:
«L'homme peut-il comprendre la
nature intime de Dieu? Non,
c'est un sens qui lui manque.» E
logo a seguir vem a explicação
de Kardec a respeito. Mais
adiante, no item treze,
encontramos a resposta de que os
atributos de Deus, a que nos
referimos acima, são apenas uma
interpretação humana, aquilo que
o homem pode conceber a respeito
de Deus, nos eu estágio atual de
evolução. Kardec, portanto,
emprega a linguagem que podemos
empregar, de maneira
compreensiva, para tratar de
Deus. Não humaniza a Deus, mas
apenas o coloca ao alcance da
compreensão humana.
Não obstante, a natureza de
Deus, como inteligência infinita
e causa primária, é sempre
resguardada. Vemos isso em todo
o primeiro capítulo e em muitas
outras passagens do livro. No
capítulo sobre o Panteísmo,
qualquer confusão entre o
Criador e a Criação foi
afastada. O Deus espírita não é
antropomórfico, mas também não é
panteísta. Por outro lado, «O
Livro dos Espíritos» veda
imediatamente o caminho às
especulações ilusórias e
imaginosas sobre a natureza de
Deus.
Uma vez que falta ao homem o
meio de compreendê-lo, inútil
será tentar a sua definição
através de suposições ingênuas
ou atrevidas. É o que vemos no
item 14.º do primeiro capítulo,
no estabelecimento de um
princípio que define de maneira
absoluta a posição do
Espiritismo em face do problema,
separando-o decisivamente de
todas as escolas de teologia
especulativa ou de ocultismo de
qualquer espécie. Vejamos esse
trecho fundamental no original
francês, podendo o leitor
encontrar a sua tradução no
lugar próprio deste volume:
«Dieu existe, vous v'en pouvez
douter, c'est l'essentielç;
croyez-moi, n'allez pas au delà;
ne vous égarez pas dans un
labyrinthe d'ou vous ne pourriez
sortir; cela ne vous rendrait
pas meilleurs, mas peut-être un
peu plus orgueilleux, parce que
vous croiriez savoir, et qu?en
réalité vous ne sauriez rien,
Laissez donc de côté tous ces
systèmes; vous avez assez de
choses que vous touchent plus
directement, à commencer par
vouas memes; étudiez vos propes
imperfections afin de vous en
débarrasser, cela vous sera plus
utile que de vouloir pénétrer ce
qui est impénetrable.»
Deus, como inteligência infinita
ou suprema, é o que é. Não
comporta especulações ociosas,
definições imaginosas. O homem
deve conter-se nos limites de si
mesmo, cuidar das suas
imperfeições, melhorar-se.
Basta-lhe saber que Deus existe,
e que é justo e bom. Disso ele
não pode duvidar, porque «pela
obra se reconhece o obreiro», a
própria natureza atesta a
existência de Deus, sua própria
consciência lhe diz que ele
existe, e a lei geral da
evolução comprova a sua justiça
e a sua bondade. Descartes dizia
que Deus está na consciência do
homem como a marca do obreiro na
sua obra. Os Espíritos confirmam
esse princípio, mas vão além,
mostrando que a marca do obreiro
está em todas as coisas, na
natureza inteira. A negação de
Deus é, para o Espiritismo, como
a negação do sol. O ateu, o
descrente, não é um condenado,
um pecador irremissível, maus um
cego, cujos olhos podem ser
abertos, e realmente o serão.
Porque Deus é necessariamente
existente, segundo o princípio
cartesiano. Nada se pode
entender sem Deus. Ele é o
centro e a razão de ser de tudo
quanto existe. Tirar Deus do
Universo é como tirar o sol do
nosso sistema. Simples absurdo.
Mas, pelo fato de não ter a
forma humana, de não se
assemelhar ao homem, no tocante
à constituição física deste, não
se segue que Deus esteja
distante do homem e indiferente
a ele. O Deus espírita se
assemelha ao aristotélico, pelo
seu poder de atração, mas se
afasta dele, quanto à
indiferença em relação ao
cosmos. Porque Deus é
providência, Deus é amor, é o
criador e o pai de tudo e de
todos.
O Universo se define por uma
tríade, semelhante às tríades
druídicas: Deus, espírito e
matéria. Vemos isso no item 27,
quando Kardec pergunta se
existem dois elementos gerais, o
espírito e a matéria, e os
Espíritos respondem: «Oui, e par
dessus tout cela Dieu, le
créatur, le père de toutes
choses; ces trois choses sont le
principe de tout ce qui existe,
la trinité universelle.» A
matéria, porém, não é só o
elemento palpável, pois há nela
o fluido universal, o seu lado
fluidico, que desempenha o papel
de intermediário entre o plano
espiritual e o propriamente
material.
Diante dessa concepção, surge um
problema de ordem teológica e
escriturística. Se Deus não se
assemelha ao homem, como
entender-se a passagem bíblica
segundo a qual ele criou o homem
à sua imagem e semelhança? A
explicação vem no item 88,
quando Kardec pergunta pela
forma do Espírito, não daquele
que ainda está revestido do
corpo espiritual ou perispírito,
mas do Espírito puro.
Vejamos a pergunta e a resposta
no original, cuja tradução o
leitor pode encontrar no lugar
próprio do livro: «Les Espirits
ont-ils une forme déterminée,
limitée et constante? A vos
yeux, non: aux nôtres, oui;
c'est, si vous le voulez, une
flame, une lueur, ou une
étincelle éthérée.» Como se vê,
o homem, na sua essência,
naquilo unicamente em que ele
pode assemelhar-se a Deus: não é
um animal de carne e osso, nem
mesmo uma forma humana em corpo
espiritual, mas uma centelha
etérea. Foi assim que Deus o fez
à sua imagem e semelhança.
Colocado o problema fundamental
de Deus e da criação, «O Livro
dos Espíritos» entra pelo
controvertido terreno da
destinação humana. Sua concepção
deísta do Universo é
necessariamente teológica. Tudo
avança para Deus, do átomo ao
arcanjo, como vimos no item 540,
e á frente dessa marcha, no
plano terreno, encontra-se o
homem. Vemo-lo numa escala
evolutiva, na terra como no
espaço: do imbecil ao sábio, do
criminoso ao santo.
A «escala espírita», que começa
no item 100, nos oferece uma
visão esquemática dessa escada
de Jacó, que vai da terra ao
céu. O estudo da «progressão dos
espíritos», que começa no item
114, nos mostra a necessidade do
esforço próprio para que o
Espírito se realize a si mesmo,
revelando-nos ao mesmo tempo o
papel da Providência, sempre
amorosamente voltada para as
criaturas. No estudo sobre
«anjos e demônios», que se
inicia no item 128,
defrontamo-nos com um debate
teórico sobre passagens
evangélicas. O problema da
justiça de Deus é equacionado à
luz dos ensaios de Cristo, no
seu verdadeiro sentido.
A seguir, «O Livro dos
Espíritos» trata da encarnação
dos Espíritos e da finalidade da
vida terrena. Combate o
materialismo, mostrando a sua
inconsistência. Não são os
estudos que levam o homem a ele,
não é o desenvolvimento do
conhecimento que o torna
materialista, mas apenas a sua
vaidade. É o que vemos no item
148: «Il n'est pas vrai que le
matérialisme soit une
conséquence de ces études; c'est
l'homme que en tire une fausse
conséquence, car il peut abuser
de tout, même des veilleurs
choses».
Kardec corrobora a tese dos
Espíritos: o materialismo é uma
aberração da inteligência. É o
que nos diz no início do seu
comentário: «Par une aberration
de l'inteligence, il y a des
gens qui ne voient dans les
êtres organiques que l'action de
la matière et à rapportent tous
nos actes».
E assim prossegue o livro, todo
ele impulsionado pelo sopro do
espírito, impregnado pelo
sentimento religioso, e mais
particularmente, pelo sentido
cristão desse sentimento.
Quando, no item 625, Kardec
pergunta qual o tipo humano mais
perfeito que Deus ofereceu ao
homem, para lhe servir de guia e
modelo, a resposta é incisiva:
«Voyes Jésus». E Kardec comenta:
«Jésus est pour l'homme le type
de la perfection morale à
laquele peut prètendre
l'humanité sur la terre. Dieu
nous l'offre comme le plus
parfait modelo, et la doctrine
qu'il a enseignée est la plus
pure expression de sa loi, parce
qu'il etat animé de l'esprit
divin, et l'etre le plus pur qui
ait paru sur la terre».
A religião espírita se traduz em
espírito e verdade. O que
interessa a Deus não é a
precária exterioridade dos ritos
e do culto convencional, quase
sempre vazio: é o pensamento e o
sentimento do homem. A adoração
da divindade é uma lei natural,
quanto a lei de gravidade. O
homem gravita para Deus como a
pedra gravita para a terra e
esta para o sol. Mas as
manifestações exteriores da
adoração não são necessárias.
No item 653 vemos a clara
resposta dos Espíritos a
respeito: «La véritable
adoration est dans le coeur.
Dans toutes vos actions songez
toujours qu'un maitre vous
regarde». A vida contemplativa é
condenada porque inútil, assim
também a monacal, pois Deus não
que o cultivo egoísta do
sentimento religioso, mas a
prática da caridade, a
experiência viva e constante do
amor, através das relações
humanas.
«O Livro dos Espíritos» não
deixa de lado o problema do
culto religioso, que necessita
manifestar a sua religiosidade:
Essa manifestação se verifica
nas formas naturais de adoração,
uma das quais é a prece. Pela
prece o homem pensa em Deus,
aproxima-se dele, põe-se em
comunicação com ele. É o que
vemos a partir do item 658. Pela
prece, o homem pode evoluir mais
depressa, elevar-se mais
rapidamente sobre si mesmo. Mas
a prece também não pode ser
apenas formal. Por ela, podemos
fazer três coisas: louvar, pedir
e agradecer a Deus, mas desde
que o façamos como o coração, e
não apenas com os lábios.
Temos assim a religião espírita,
que mais tarde se definirá de
maneira mais objectiva ou
directa em «O Evangelho segundo
o Espiritismo». Uma religião
psíquica, como a chamou Conan
Doyle, equivalente à «religião
dinâmica» de Bergson. No
capítulo V da «Conclusão»,
Kardec afirma: «Le spiritisme
est fort parce qu'il s'appuis
sur les bases mêmes de la
religon: Dieu, l'âme, les peines
et recompenses futures; parce
que surtout il montre ces peines
et ces recompenses comme des
conséquences naturelles de la
vie terrestre, et que rien, dans
le tableau qu'il offre de
l'avenir, ne peut être désavoué
par la raison la plus exigente».
Enfim: religião positiva,
baseada nas leis naturais,
destituída de aparatos
misteriosos e da teologia
imaginosa.
Para completar o quadro
religioso de «O Livro dos
Espíritos» temos ainda o
capítulo XII do Livro III e todo
o Livro IV. NO capítulo
referido, Kardec trata do
aperfeiçoamento moral do homem,
encara os problemas referentes
às virtudes e aos vícios, às
paixões, ao egoísmo, define por
fim o caráter do homem de bem e
conclui com uma mensagem de
Santo Agostinho sobre a maneira
de nos conhecermos a nós mesmos.
No Livro IV temos um capítulo
sobre as penas e gozos terrenos,
que é um código da vida moral na
terra, verdadeiro catecismo da
conduta espírita, e um capítulo
sobre as penas e gozos futuros,
sobre as conseqüência
espirituais do nosso
comportamento terreno.
Estudos Futuros
Este, em linhas gerais, o livro
que a 18 de Abril deste ano
completou cem anos, e cujo
primeiro centenário foi
celebrado em todo o mundo
civilizado, pelos adeptos do
Espiritismo. Sua estrutura, como
se vê, o coloca entre os
tratados filosóficos, e seu
conteúdo se relaciona com todos
os aspectos fundamentais do
conhecimento. Sua simplicidade
aparente é tão ilusória como a
da superfície tranqüila de um
grande rio.
Como no «Discurso do Método», de
Descartes, a clareza do texto
pode enganar o leitor
desprevenido. As coisas mais
profundas e complexas aparecem
na linguagem mais direta e
simples, e a compreensão geral
do livro só pode ser alcançada
por aquele que for capaz de
apreender todos os nexos entre
os diversos assuntos nele
tratados.
Até hoje, cem anos depois de sua
publicação, «O Livro dos
Espíritos» vem sendo lido e
meditado, no mundo inteiro, mas
pouco se tem cuidado de
analisá-lo em suas múltiplas
implicações e em sua mais
profunda significação.
Acreditamos que o segundo século
do Espiritismo, que se iniciou
neste ano, será assinalado por
uma atitude mais consciente dos
próprios espíritas em face deste
livro, e que estudos futuros
virão revelar, cada vez de
maneira mais clara, o seu
verdadeiro papel na história do
conhecimento.
Para concluir, lembremos que sir
Oliver Lodge, o grande físico
inglês, uma das mais altas
expressões de cultura científica
do nosso tempo, considerou o
Espiritismo, no seu livro sobre
«A imortalidade pessoal», como
«uma nova revolução copérnica».
E Léon Denis, o sucessor de
Kardec, legítima expressão da
cultura francesa, proclamou no
Congresso Espírita Internacional
de Paris, em 1925, e no seu
livro «Le Genie Celtique et le
Monde Invisible», de 1927, que o
Espiritismo tende a reunir e a
fundir, numa síntese grandiosa,
todas as formas do pensamento e
da ciência.
(Introdução escrita por José
Herculano Pires por ocasião do
Centenário de lançamento do
Livro dos Espíritos)
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