Sábado passado na nossa sala Momento Fraterno conversamos sobre timidez.
Assunto que foi bastante discutido por todos, mas ficaram alguns
questionamentos. Um deles foi quanto a saber se o uso de drogas tem uma
relação direta com a timidez.
Venha, traga seu questionamento e seu conhecimento a respeito do tema.
Ficaremos felizes em ter sua participação.
O que eu faço com essa minha timidez?
:: Sirley Bittú ::
A definição de timidez mais conhecida é a que se refere ao tímido como
aquele que tem temor, receoso, acanhado, covarde. Pessoa que tem
vergonha, sensitiva, pessoa que com tudo se melindra ou de grande
suscetibilidade, aquele que facilmente se ofende. A definição de temor
também é descrita em alguns dicionários como ato ou efeito de temer –
susto, sentimento de reverencia ou respeito.
Prefiro dizer simplesmente, tímido é aquele que tem medo. Na infância o
comportamento em relação ao medo é explicado e entendido pela capacidade
da criança em discriminar fantasia de realidade. Ao passo que esta
capacidade vai sendo aprimorada em sua relação no mundo, o medo
naturalmente vai se adaptando ao que é esperado, ou seja, passa a ser um
parâmetro de auto proteção.
As pessoas mais tímidas tendem a supervalorizar os possíveis riscos,
assim o novo e o desconhecido torna-se assustador. O tímido está sempre
muito preocupado em passar uma boa imagem para as pessoas, torna-se
extremamente exigente consigo mesmo, apresentando por isso mais
dificuldade de se relacionar, paquerar, namorar, expressar o que sente e
o que pensa sobre as coisas.
A inibição geralmente é resultado do medo de falhar e com isso se sentir
ridículo e incapaz. A timidez está diretamente relacionada ao amplo
sentimento de competência. A nossa auto imagem é a percepção daquilo que
acreditamos ser, e, quando ela é negativa, encontramo-nos numa prisão
interna que nos leva a distorcer a realidade e por conseqüência nos
retraímos.
O ser humano tem uma demanda de amor, necessita ser amado para se
desenvolver, precisa sentir-se visto, percebido e aceito. Existem muitos
estudos que relatam, que a falta de amor ou o desamor, principalmente
nos primeiros anos de vida, interferem no desenvolvimento e na
maturidade emocional do ser humano. O nosso sentimento de segurança e de
auto confiança se configura ainda nesta fase, através das vivências de
afeto e de confirmação pelas quais passamos.
Costumo dizer que nós passamos por dois úteros, um físico e um
psicológico. Ambos nos geram para o mundo. O psicológico é formado por
nossa matriz social, ou seja por nossa família, pelas pessoas com quem
nos relacionamos e com as quais aprendemos e entendemos como devemos nos
comportar. A educação é a via desse processo. E através dela aprendemos
quem somos, o que somos e como somos. Nossa individualidade vai sendo
lapidada pela visão de mundo de nossos pais, suas crenças, seus mitos e
suas verdades.
São desses entendimentos que se desenvolve nossa AUTO-ESTIMA. A
auto-estima é o resultado do afeto que aprendemos a dar a nós mesmos
através do respeito e da aceitação daquilo que pensamos, sentimos e
somos. Através dela conquistamos nossos espaços e percebemo-nos
merecedores de felicidade. É o resultado do amor que recebemos, não o
amor gratuito mas aquele que ensina a retribuir, que ensina a noção de
respeito ao outro e a si mesmo. Na primeira infância necessitamos da
aprovação externa, e a reação das pessoas aos nossos atos também
constitui fonte formadora da nossa auto-imagem e pode modificar ou
influenciar nosso autoconceito que carregaremos durante a vida.
Este autoconceito, esta percepção de si, dos próprios potenciais, de
limites, e principalmente de seus desejos, estará sendo estimulado
durante toda a nossa vida, através das diversas relações que
estabelecemos. Isto significa que a nossa família influencia a forma de
nos percebermos, mas não a determina. A maturidade psicológica pode ser
medida também pela nossa capacidade de nos auto-alimentarmos
emocionalmente, passando então da necessidade de confirmação para apenas
o desejo de sermos aceitos.
Isto não significa que somos como argila, moldados apenas pelas
experiências externas. Nascemos com características físicas e com
algumas psicológicas, herdadas. Trazemos conosco em nosso nascimento um
potencial de saúde mas que precisa dessas provisões externas para se
desenvolver.
Resumindo, a auto-estima é a capacidade do ser humano de sentir-se bem
em relação a si próprio, o bastante para aceitar a rejeição não como uma
afronta pessoal, mas como parte inevitável da vida. O indivíduo com
auto-estima tem a capacidade de deixar a rejeição para trás e
prosseguir. Aqueles que se aceitam agem livremente, permitindo a si
mesmos atuar próximo ou no máximo de seu potencial. Expressar-se é
contar sobre si, relacionar-se, assumir que se faz parte do mundo.
O TÍMIDO tem sua AUTO-ESTIMA baixa, frágil, ele sempre acha que todos
estão olhando para ele, que o mundo roda em torno de sua atuação. Está
preocupado em como os outros vão avaliar suas atitudes e comportamentos
e com isso não tem coragem de assumir seus próprios desejos.
A timidez torna as pessoas propensas a interpretarem os acontecimentos
de uma maneira ameaçadora, com isso sua autonomia torna-se prejudicada,
precisando de algo ou alguém para sentir-se seguro e tranqüilo.
Em nossa atuação no mundo trabalhamos sempre em duas áreas a da ilusão
(fantasia, crenças) e a da realidade (mundo objetivo). Nossas escolhas e
formas de entender e de sermos no mundo nascem destes focos de atenção.
Se temos uma boa noção sobre quem somos e do que somos capazes, ou seja,
de nossos potenciais e de nossas possibilidades, atuamos no mundo de
forma mais autônoma e segura. O conhecimento de si mesmo, aliado à
auto-estima são os fatores determinantes para mudar sua forma de se
relacionar com o mundo.
A timidez incomoda cada vez mais. Em nossa sociedade competitiva aquele
que não ousa, aquele que teme ser visto, ser percebido ou questionado em
suas opiniões, tem mais dificuldade em se relacionar, conquistar seu
espaço profissional e com isso alcançar o sucesso esperado pela
sociedade e muitas vezes por si próprio. Torna-se invariavelmente comum,
receber em meu consultório pessoas que buscam se livrar desse
sofrimento. Desde jovens que não conseguem se expor em sala de aula,
apesar de saberem a matéria, ou mesmo não conseguem fazer amizade ou
pertencer a um grupo, ou arriscar uma paquera, sentindo-se excluídos e
rejeitados.
Ou quando adultos, muitas vezes já profissionais, que sentem dificuldade
de expressar seus conhecimentos, liderar grupos, agir com autoridade,
estabelecer limites. Os tímidos sofrem e perdem oportunidades
profissionais, relacionamentos pessoais, vivências, experiências, porque
não se lançam no mundo. A sociedade prefere aquele que saiba defender
suas idéias e seus pontos de vista.
Ieda Maria