Expositor@:
O tema de hoje é A FILOSOFIA
ESPÍRITA, constante da Introdução
ao LIVRO DOS ESPÍRITOS, escrito
por Herculano Pires, em
comemoração ao centenário do
lançamento deste, em 18/04/1957.
Segundo pudemos constatar, esta
introdução não consta de todas as
edições, mas parece-nos ser de
grande aproveitamento, por isso,
em breve, haveremos de colocá-la
no space, para consultas futuras
e/ou comentários.
Como vimos no estudo passado, o
LIVRO DOS ESPÍRITOS , em sua
estrutura, está interligado aos
demais livros da codificação,
senão lembremo-nos:
A)LIVRO DOS MÉDIUNS , seqüência
natural deste livro, que trata
especialmente da parte
experimental da doutrina, tem a
sua fonte no Livro II, a partir do
capítulo sexto até o final. Toda a
matéria contida nessa parte é
reorganizada e ampliada naquele
livro, principalmente a referente
ao capítulo nono: "Intervenção dos
espíritos no mundo corpóreo'.
B) O EVANGELHO SEGUNDO O
ESPIRITISMO, é uma decorrência
natural do Livro III, em que são
estudadas as leis morais,
tratando-se especialmente da
aplicação dos princípios da moral
evangélica, bem como dos problemas
religiosos da adoração, da prece e
da prática da caridade. Nessa
parte o leitor encontrará,
inclusive, as primeiras formas de
"Instruções dos Espíritos", comuns
àquele livro, com a transcrição de
comunicações por extenso e
assinadas, sobre questões
evangélicas.
C) O CÉU E O INFERNO decorre do
Livro IV, "Esperanças e
Consolações", em que são estudados
os problemas referentes às penas e
aos gozos terrenos e futuros,
inclusive com a discussão de
dogmas, como o da ressureição da
carne, e os do paraíso, inferno e
purgatório.
D) A GÊNESE, os milagres e as
predições, relaciona-se aos
capítulos II, III e IV do Livro I,
e capítulo IX, X e XI do Livro II,
assim como as partes dos capítulos
do Livro III que tratam dos
problemas genêsicos e da evolução
física da Terra (que, aliás, fará
parte do próximo bloco de estudos,
entitulado MUNDOS REGENERADORES).
Esta obra é mais ampla, pois trata
de todos os aspectos, tornando-a
mais difusa que os outros.
E) Pequenos livros introdutórios
ao estudo da doutrina (e que
deveriam ser indicados com
freqüência maior, pois são o
reflexo da mesma embora não se
incluam propriamente na
codificação), mas também
estão diretamente relacionados com
o LE, decorrendo da INTRODUÇÃO
e dos PROLEGÔMENOS. São estes
livros introdutórios: O
PRINCIPIANTE ESPÍRITA e O QUE É O
ESPIRITISMO.
Esta pequena análise, serve para
demonstrar que o LIVRO DOS
ESPÍRITOS é o verdadeiro
'esqueleto filosófico' do
Espiritismo. Kardec, na página de
rosto deste, declarou que este
continha "os princípios da
doutrina espírita". É, portanto,
seu tratado filosófico e, muito
embora não tenha sido elaborado em
linguagem técnica e não observe os
rigores da minuciosa exposição
filosófica, é todo um complexo e
amplo sistema de filosofia que
nele se expõe.
Nas obras de J. Herculano Pires —
o único até hoje a quem poderíamos
chamar de filósofo espírita da
história das idéias, podemos
compreender de forma abrangente a
filosofia histórica contida na
própria filosofia espírita.
Lembremo-nos que Kardec não
era um filósofo, mas sim um
discipulo emérito de Pestalozzi,
um educador, um especialista em
pedagogia. Por isto, vemos o
'aspecto' didático ao invés do que
propriamente filosófico que
imprimiu ao livro.
O espiritismo não surgiu do nada.
Todas as idéias se filiam a uma
história. Fazem parte da
construção lenta do processo
evolutivo do homem. Uma tarefa
urgente aos estudiosos da doutrina
é contextualizá-la, apreendê-la no
devir da História, para melhor
compreender suas raízes, seu
desenvolvimento e sua importância
no tempo e no espaço. (Dora
Incontri)
Bom, aqui temos um momento em que
se faz importante, prestemos
atenção a saber quem era quem.
Pestalozzi era discípulo de
Rousseau. Nomes que, com certeza
cada um de nós já ouviu falar
alguma vez, mas que nem todos
sabemos quem sejam. Conhecê-los, é
conhecer um pouco de Kardec,
importantíssimo para que saibamos
quem é a 'figura' do codificador
da doutrina trazida pelos
espíritos.
Rousseau foi a mais profunda
influência sobre o pré-romantismo,
encontrando-se os traços dessa
influência no romantismo francês
de Chateaubriand, Lamartine e
Victor Hugo; sendo assim, inspirou
personagens de Goethe, de Foscolo,
bem como personagens de Byron.
Jean-Jacques Rousseau ( 1712/1778)
foi um filósofo suíço, escritor,
teórico político e um compositor
musical autodidata. Uma das
figuras marcantes do Iluminismo
francês, Rousseau é também um
precursor do ROMANTISMO. Rousseau
questionou a suposição de que a
maioria está sempre correta e
argumentou que o objetivo do
governo deveria ser assegurar a
liberdade, igualdade e justiça
para todos, independentemente da
vontade da maioria. Filho de pai
CALVINISTA e avô HUGUENOTE,
encontramos na filosofia de
Rousseau, a função principal de
libertar o homem.
O ROMANTISMO foi um movimento
artístico e filosófico surgido nas
últimas décadas do século XVIII na
Europa que perdurou por grande
parte do século XIX.
Caracterizou-se como uma visão de
mundo contrária ao RACIONALISMO
que marcou o período neoclássico e
buscou um nacionalismo que viria a
consolidar os estados nacionais na
Europa.
O RACIONALISMO é a corrente
filosófica que iniciou com a
definição do raciocínio que é a
operação mental, discursiva e
lógica. Este usa uma ou mais
proposições para extrair
conclusões se uma ou outra
proposição é verdadeira, falsa ou
provável. Essa era a idéia central
comum ao conjunto de doutrinas
conhecidas tradicionalmente como
racionalismo.
HUGUENOTES na França, assim
eram chamados os PROTESTANTES do
século XVI e XVII, em sua maioria,
seguidores do CALVINISMO.
O CALVINISTAS eram considerados,
no extremo, profundos
conhecedores da Bíblia,
moralistas, puritanos, que
ponderam todas as suas ações pela
sua relação individual com a moral
cristã.
O PROTESTANISMO francês iniciou-se
com o reformador católico Jacques
Lefevre, que iniciou suas
pregações em 1514, portanto antes
de Lutero.
Bom, já pudemos ter a noção de que
não basta sabermos nomes, mas
necessitamos conhecer suas idéias,
seus ideais e de onde surgiram
tais idéias e ideais. Portanto,
queridos companheiros de estudos,
estudar um livro, uma doutrina ou
o que quer que seja, não se resume
a 'ler' e 'decorar' o que está
escrito. Necessitamos compreender
em profundidade e, para isso,
devemos buscar fontes
complementares e elucidativas.
Atentem para o fato de que se
fizéssemos isso com nossos
POLÍTICOS, teríamos uma noção
maior de em quem estamos votando.
Não cometeríamos tantos desatinos
políticos e teríamos uma nação
melhor orientada. Ou seja, antes
de ficarmos reclamando de tudo,
deveríamos ver mais a fundo as
coisas. Desculpem-me o aparte
político, mas, na verdade, isso
serve para tudo. Da mesma forma
que buscamos as raízes de nossa
família, por exemplo, também
devemos buscar as raízes de todas
as coisas em que cremos ou
desejamos conhecer. O conhecimento
liberta, certo?
Voltando ao LIVRO DOS
ESPÍRITOS......
Rousseau teve como discípulo
o consagrado PESTALOZZI,
personagem interessante, pois
nítidamente ultrapassou o Mestre
Rousseau. Suiço de nascença,
Pestalozzi viu-se envolvido nos
horrores da invasão francesa à sua
pátria. Neste momento, começou a
recolher as crianças que vagavam
sem pais, casa ou comida e os
reuniu em um convento abandonado,
dando-lhes educação. Daí inicia-se
nosso grande legado na metodologia
pedagógica moderna.
Extraímos de seu livro "Minhas
indagações sobre a marcha da
natureza no desenvolvimento da
espécie humana" escrito em 1797, o
seguinte trecho no que se refere à
moral: "Logo vi que as
circunstâncias fazem o homem, mas
vi também que o homem faz as
circunstâncias, tem uma força em
si mesmo que pode conduzir de
várias maneiras, segundo sua
vontade. (...)"
Dois grandes homens, dois grandes
mestres, dois grandes antecessores
de Kardec. Para ambos, o próprio
desenvolvimento da razão e sua
capacidade de compreender e de
pesquisar a verdade está
relacionada com a elevação de
sentimentos. Ou seja, a RETA
RAZÃO, de que fala Rousseau, só
pode ser exercitada se aquecida
pela luz do SENTIMENTO PURO. E
dizemos que Pestalozzi superou ao
mestre, quando apreendemos-lhe a
proposta: Pestalozzi propõe uma
educação integral do homem, para
desenvolver harmoniosamente todas
as potências do espírito,
simbolizadas na tríade: cabeça,
mão, coração.
Que será essa tríade cabeça, mão e
coração? Aonde podemos
identificá-la na Doutrina
Espírita?
Bom, voltando a Herculano e sua
bella dissertação sobre a
filosofia espírta, temos a
colocação de que, em segundo
lugar, a obra não foi
escrita POR KARDEC, mas sim
elaborada com as respostas dadas
pelos Espíritos às suas perguntas
em sessões mediúnicas, com quatro
jovens médiuns.
É interessante observar que a
excelência doutrinária inegável do
Espiritismo, codificado por Allan
Kardec deve-se, em sua quase
totalidade, à mediunidade de
quatro meninas. Através da
inocência e da potencialidade
mediúnica dessas quatro inocentes
crianças, foram trazidas à Terra
explicações notáveis, questões
complexíssimas das mais variadas
áreas da filosofia, ciência e
religião, mantendo-se irrefutáveis
até os dias de hoje —sobretudo o
aspecto moral. Os opositores
gratuitos do Espiritismo jamais
tocam neste assunto, pois trata-se
de um fato difícil para se
depreciar e muito menos para se
refutar.
As meninas foram: Caroline e Julie
Boudin (16 e 14 anos,
respectivamente), Ruth Japhet e
Aline Carlotti— verdadeiros anjos
reveladores da nova mensagem do
Céu para os dias futuros. As
reuniões, a princípio,
realizavam-se na intimidade da
casa da família Boudin e as
respostas dos espíritos eram
transmitidas por meio da cesta de
bico, a que se adaptava um lápis.
As meninas punham as mãos sobre a
cesta que se movia, escrevendo
mensagens, com absoluta
impossibilidade sincrônica de ação
dos médiuns na escrita. Esses
escritos, que deram origem a O
Livro dos Espíritos, seriam,
posteriormente, comparados aos de
outros médiuns, todos
rigorosamente escolhidos pelo
codificador.
Companheiros, é possível imaginar
as dificuldades e os desafios que
foram superados por estes
espíritos iluminados, para nos
trazer a CODIFICAÇÃO ESPÍRITA? É
possível olharmos este exemplo de
superação, abnegação e dedicação e
analisarmos qual é nossa
contribuição para com a doutrina?
Nosso empenho, por maior que seja,
ainda é ínfimo diante do empenho
destes valorosos irmãos. O que não
significa, em momento algum, que
devemos desanimar, mas sim
apercebermo-nos das FACILIDADES
com as quais somos bafejados e que
desperdiçamos! Muito temos a
realizar e muitas facilidades nos
são proporcionadas. Temos
muitas e maiores preocupações
materiais proporcionadas pela
'evolução', mas também temos
muitos subsídios para nosso
aproveitamento e dos que nos
cercam.
Em terceiro lugar, o Livro dos
Espíritos, não se destinava a
formar escola filosófica e nem a
satisfazer aos meios
especializados em filosofia, mas
sim apenas a divulgar de maneira
ampla os princípios da doutrina
espírita, convocando os seres para
o estudo e conhecimento de uma
realidade superior a todas as
reflexões do conhecimento.
Em quarto lugar, ainda segundo
Herculano Pires, fato que
poderemos verificar em estudos
posteriores, Kardec foi cuidadoso
ao advertir, na parte do Livro dos
Espíritos os PROLEGÔMENOS, que
evitava os prejuízos dos espíritos
de sistema, ou seja, a obra foi
elaborada de forma RACIONAL e sob
os ditames da Espiritualidade
Superior.
PROLEGÔMENOS - (Origem: Wikipédia):
Área da Teologia Sistemática que
trata da metodologia da pesquisa
teológica, suas fontes e
procedimentos. É neste locus que
se encontra a análise da questão
da revelação divina.
Como podemos notar, a idéia é
'estabelecer os fundamentos de uma
filosofia racional, livre dos
prejuízos do espírito de sistema"
e não criar uma nova escola
filosófica, o que implicaria toda
uma rígida sistematização. ao
encontro deste propósito, temos o
feliz pensamento dos filósofos
modernos, dentre eles Max Scheller,
que nos brinda com esta pérola:
"Dispomos de uma antropologia
científica, outra filosófica e
outra teológica, que se IGNORAM
entre si"
Kardec, ao alegar que não gostaria
de submeter-se ao 'prejuízo dos
espíritos de sistema', desviou-se
justamente desta afirmativa de
Scheller e sucumbir a eles, seria
a própria negação dos objetivos da
doutrina.
Quanto ao problema de linguagem
técnica, não podemos nos esquecer
que o Livro dos Espíritos
destinava-se ao grande público e
não apenas aos grandes
conhecedores, lembrando assim,
algumas 'quebras' observadas no
deccorer da história, como a de
Descartes, que utilizou-se do
francês para escrever sua
grandiosa obra, o "Discurso do
Método", sendo que a língua
'oficial' da filosofia era o
latim, mas não acessível a todos.
O método didático utilizado por
Kardec, não seria a primeira vez
apresentado em um livro de
filosofia. Espinosa, em "A Ética",
também utiliza-se deste método.
Aliás, aqui há de se abrir um
vasto campo para estudo, quando
observamos similaridades de
estrutura, de posição, de ligações
históricas e de princípios, entre
o citado livro de Espinosa e o
Livro dos Espíritos.
ESPINOSA foi um dos grandes
RACIONALISTAS da filosofia moderna,
juntamente com René Descartes e
Gottfried Leibniz. Considerado o
fundador do criticismo bíblico
moderno.
RACIONALISMO é a corrente
filosófica que iniciou com a
definição do raciocínio que é a
operação mental, discursiva e
lógica.
Segundo DESCARTES, O RACIONALISMO
é a posição segundo a qual somente
a análise lógica ou a razão pode
propiciar desta forma o
desenvolvimento da análise
científica, do método matemático,
que passa a ser considerado como
instrumento puramente teórico e
dedutivo, que prescinde de dados
empíricos (ou seja, dispensa dados
que se baseiam somente na
experiência e não nos estudos),
aplicados às ciências físicas que
levaram a uma crescente fé na
capacidade do intelecto humano
para isolar a essência no real e
ao surgimento de uma série de
sistemas metafísicos fundados na
convicção de que a razão constitui
o instrumento fundamental para a
compreensão do mundo, cuja ordem
interna, aliás, teria um caráter
racional".
Yvonne Castellan, num estudo
em que, por vezes, se faz
gritantemente injusta, mas de
alguma forma simpática ao estudo
da doutrina, refere-se ao Livro
dos Espíritos afirmando que:
18* "O sistema é completo, e
compreende uma metafísica,
inteiramente repleta de
considerações físicas ou
genéticas e uma moral". Segundo
Herculano Pires, se ela houvesse
feito uma análise mais séria,
teria visto que a estrutura é
mais complexa do que supôs.
19* Temos aqui, dois pequenos
apartes. O primeiro, refere-se à
lembrança de que, Herculano Pires,
é nosso grande referencial no
tocante às traduções fidedignas
dos livros da Codificação.
Herculano Pires, dentro de sua
fidelidade á doutrina trazida por
Kardec, não se submete aos que
querem floreá-la ou deturpá-la,
ainda que de forma ingênua. Então,
se não for exagero de nossa parte,
podemos afirmar que 'colocamos a
mão no fogo' pelas escritas de
Herculano Pires. Mas, companheiros
de estudos, não nos esqueçamos
sempre de passarmos tudo pelo
crivo da análise raciocinada, da
comparação e do aprofundamento dos
termos, pois atrás de uma 'vírgula',
podemos encontrar uma deturpação
nas Obras.
O segundo aparte, que nada
mais é complementação do primeiro,
sugiro-lhes que verifiquemos a
frase de Yvonne, numa linguagem
mais acessível:
" O sistema (O LIVRO DOS
ESPÍRITOS) é completo, e
compreende um estudo da filosofia,
de forma além da física e, por
conseguinte, do mundo
natural(...)"
Quando Herculano diz que sua
escrita é gritantemente injusta,
refere-se ao fato de que o Livro
dos Espíritos (...) começa pela
metafísica, passando depois à
cosmologia (Universo), à
psicologia, aos problemas
propriamente espíritas da origem e
natureza dos espíritos e suas
ligações com o corpo, bem como aos
da vida após a morte, para chegar,
com as leis morais, à sociologia e
à ética (Sociologia: ciência que
se ocupa dos assuntos sociais e
políticos, especialmente da origem
e desenvolvimento das sociedades
humanas em geral e de cada um em
particular - Dic. Michaelis), e
concluir, no Livro IV, com as
considerações de ordem teológica
sobre as penas e gozos futuros e a
intervenção de Deus na vida humana.
(Teologia é também uma ciência,
sobrenatural e das criaturas
enquanto ordenadas a Deus,
tratando da fé, da esperança e da
caridade. - Dic. Michaelis)
Temos ainda, no Livro dos
Estudos, diante destas palavras de
Herculano, a certeza de que esta
obra realmente foge às exigências
opressoras e à perda de sua
essência, desenvolvendo-se numa
seqüência livre e dinâmica.
Expositor@:Fiorell@